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"Agora não tem ninguém", diz venezuelana após saída de equipes internacionais de resgate

Duas semanas após os terremotos, equipes internacionais deixam a Venezuela e familiares voltam a assumir as buscas por milhares de desaparecidos sob os escombros.

10 jul 2026 - 10h10
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Pedro Pannunzio, correspondente em Caracas

Moradores se reúnem enquanto equipes de resgate vasculham escombros em Caraballeda, no estado de La Guaira, após o duplo terremoto ocorrido na Venezuela. 9 de julho de 2026
Moradores se reúnem enquanto equipes de resgate vasculham escombros em Caraballeda, no estado de La Guaira, após o duplo terremoto ocorrido na Venezuela. 9 de julho de 2026
Foto: REUTERS - Leonardo Fernandez Viloria / RFI

Passadas mais de duas semanas desde o duplo terremoto que destruiu o Estado de La Guaira, no litoral venezuelano, a possibilidade de encontrar sobreviventes sob os escombros praticamente inexiste. Por isso, nesta nova etapa da tragédia, as buscas se concentram principalmente na recuperação dos corpos das vítimas.

Na tarde desta quinta-feira, Scarly Rojas, de 32 anos, buscava, no que restou de um prédio que tinha cinco andares, por sua mãe, uma das milhares de desaparecidas não computadas pelos dados oficiais divulgados diariamente pelo governo venezuelano.

Ela havia se mudado ao prédio desde a operação dos Estados Unidos que resultou no sequestro do então presidente Nicolás Maduro. Mas, no dia 24 de junho, quando os tremores atingiram o país, a jovem estava em Caracas.

"Com tudo que aconteceu no país, eu decidi morar com minha mãe, porque ela morava aqui e eu morava lá em Caracas. Estávamos distantes, então decidimos nos unir e voltar a morar juntas", conta.

Mãe e filha dividiam um apartamento no primeiro andar de um apartamento na região de Praia Grande, uma das áreas em La Guaira mais atingidas pelos terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5. Outros familiares de desaparecidos também buscam por parentes que viviam no edifício. Contra todas as probabilidades, alguns deles ainda mantêm a esperança de encontrar sobreviventes.

Rojas, no entanto, não alimenta o mesmo otimismo. "Desde o primeiro dia, quando cheguei e vi a maneira como o prédio caiu, como nosso apartamento foi afetado, achei quase impossível que ela tivesse sobrevivido."

Críticas contra lentidão do governo

O governo venezuelano é alvo de críticas pela demora no início do resgate de possíveis sobreviventes da tragédia. Rojas diz que, nos primeiros dois dias, cruciais para o resgate de pessoas com vida, eram os próprios familiares que realizavam os trabalhos de buscas - situação que só mudou, segundo seu relato, a partir do terceiro dia, com a chegada das primeiras equipes internacionais de socorristas.

Com a janela para encontrar sobreviventes praticamente fechada, quase todas as equipes já deixaram o país. Os familiares, que haviam conduzido as buscas nos primeiros dias, voltaram aos escombros - desta vez, para procurar os corpos de seus parentes.

"Foi no terceiro, ou quarto dia, que as equipes estiveram aqui para fazer as buscas, mas depois de uma semana, a ajuda parou. Agora não tem ninguém", lamenta Rojas, que, diariamente vai ao local onde morava com a mãe para, junto com outros voluntários, procurar o que as equipes de resgate não encontraram.

Retorno da missão brasileira

Nesta sexta-feira (10), parte da missão brasileira, uma das últimas a permanecer no país, voltará para casa. A previsão é que o voo com as equipes de resgate desembarque em Brasília às 17h no horário local. Inicialmente, a previsão era de permanência até o dia 13, próxima segunda-feira. O hospital de campanha montado em La Guaira pela Marinha, porém, permanecerá na Venezuela por prazo indeterminado.

Ontem, equipes de buscas da Argentina, que devem ficar na Venezuela até sábado, ainda procuravam por sobreviventes. "É verdade que, a esta altura, com os dias que já se passaram, as possibilidades de encontrar alguém com vida diminuem muito. Mas, bem, esse é o trabalho que fazemos. Vamos tentar até o último momento", disse María Florencia Pizarro, chefe das operações de busca da Brigada ARG 10, durante uma breve pausa nos trabalhos, enquanto esperava uma retroescavadeira remover alguns blocos de concreto para que as buscas pudessem continuar.

Respeito pelos mortos

Mesmo quando as chances de encontrar sobreviventes se esgotam, Pizarro diz que as operações não perdem a importância. "Talvez não consigamos resgatar alguém com vida, mas também é importante devolver às famílias seus entes queridos, para que possam se despedir e realizar os rituais que cada povo tem para se despedir de seus mortos."

Apesar da saída de boa parte dos socorristas internacionais, nesta quinta-feira, o Comando Sul dos Estados Unidos anunciou a chegada do USS San Antonio, navio de transporte anfíbio da Marinha norte-americana, que atracou no Porto de La Guaira, para "apoiar as operações de ajuda humanitária."

No início do mês, o comandante da estrutura militar norte-americana responsável pelas operações na América Latina e no Caribe, general Francis Donovan, havia informado que cerca de dois mil militares dos Estados Unidos tinham desembarcado na Venezuela.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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