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África

Três anos de guerra no Sudão: crise humanitária se agrava sem perspectiva para fim do conflito

Há exatos três anos, no dia 15 de abril, teve início a guerra civil no Sudão, considerada pela ONU a pior crise humanitária do mundo. O conflito entre o Exército sudanês, liderado pelo general al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (FAR), grupo paramilitar comandado pelo general Hemedti, já causou o deslocamento de 14 milhões de sudaneses e intensos episódios de violência e crueldade, além de milhares de mortes.

15 abr 2026 - 11h59
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Tatiana Ávila, da RFI em Paris

Sudaneses deslocados aguardam para receber ajuda humanitária no campo de Abu al-Naga, a cerca de 420 quilômetros da capital Cartum, em 6 de fevereiro de 2026.
Sudaneses deslocados aguardam para receber ajuda humanitária no campo de Abu al-Naga, a cerca de 420 quilômetros da capital Cartum, em 6 de fevereiro de 2026.
Foto: AFP - STR / RFI

A capital do país, Cartum, está destruída. Prédios, ruas, casas, tudo foi afetado ou atingido pela guerra. E apesar de as forças armadas sudanesas terem recuperado o domínio da cidade há cerca de um ano, a batalha contra as FAR no local durou meses e deixou marcas visíveis. Atualmente, mesmo que cerca de 1,5 milhão de deslocados já tenham retornado a Cartum, segundo a ONU, 90% dos hospitais seguem sem funcionar, o fornecimento de energia elétrica é intermitente e as escolas tentam reabrir de forma lenta. 

Al-Bachir Babker, de 41 anos, que retornou duas vezes após uma ausência de três anos, acredita que a cidade vai precisar de vários anos para se recuperar. "Fiquei feliz em voltar", disse ele à AFP. "Mas quando fui ao centro da cidade, foi de partir o coração. A rua que leva à universidade onde estudei não é mais a mesma, as paredes estão pretas. Estes lugares não são mais os mesmos", disse ele. 

No entanto, apesar da falsa sensação de calma na capital, a guerra civil continua por todo o país, com repetidos extermínios, estupros, fome e obrigando milhões de sudaneses a fugirem de suas casas.

Insaf Oumar Baraka é uma das poucas sobreviventes do massacre de El-Fasher, quando paramilitares das FAR tomaram a cidade, em outubro do ano passado, causando um "banho de sangue". Com lágrimas nos olhos, ela recorda a violência vivida:

"Os FAR estupravam, às vezes com dez soldados para cada vítima. Eu cheguei a ver uma mulher ter os seios cortados. É indescritível. Foi na rua. Conheço um pai cujas filhas foram violentadas na frente dele. Disseram a ele: 'não vamos te matar, mas vamos tomar suas mulheres'", contou.

Há cerca de 15 anos, Mamma Nour criou um abrigo para mães solteiras. Com a guerra, quase todas as mulheres sob seus cuidados foram vítimas das FAR. "Algumas têm pesadelos, outras começam a chorar de repente, gritando, no meio de uma refeição, como se estivessem em surto psicótico", explica ela. "Seus corpos inteiros estão marcados por golpes, mordidas, arranhões. O que elas passaram é desumano."

Dignidade às vítimas

No campus da Universidade Internacional da África, Mohammed Osman, vice-diretor, caminha por uma vasta área de terra revirada. "Todo esse terreno que vocês veem aqui era uma vala comum", explica. "Fica logo atrás da faculdade de medicina. Encontramos entre 3 mil e 4 mil corpos. Havia crianças enterradas aqui, famílias inteiras." Durante a ocupação de Cartum pelas FAR, os moradores eram proibidos de enterrar os mortos. Em segredo, enterravam seus entes queridos em mesquitas, escolas e até nos quintais das casas.

O professor Jamal Youssif Ahmed, médico legista de um dos necrotérios de Cartum, trabalha junto com a equipe do doutor Hisham Zenalbdeen Mohamed, diretor de medicina legal na cidade. Eles tentam resgatar a dignidade dos corpos, cuidando da identificação, transferência, enterro dos não identificados e realização de autópsias. "É um grande desafio, porque faltam ambulâncias, sacos mortuários e caixões. O número de corpos é colossal", afirma.

Atualmente, dos cinco necrotérios de Cartum, apenas uma está em funcionamento. "O que mais nos falta são câmaras frigoríficas. Precisamos trabalhar muito rápido: realizamos a autópsia e, em seguida, devolvemos o corpo", explica Jamal Youssif Ahmed.

As autoridades sudanesas estimam que ainda existam cerca de 15 mil túmulos improvisados espalhados pelas ruas de Cartum.

Novos fronts após a liberação da capital

Com a retomada da capital pelo Exército sudanês, os estados de Cordofão e de Darfur - respectivamente ao sul e a oeste do Sudão - tornaram-se os principais campos de batalha do conflito nos últimos meses. Em janeiro, o estado do Nilo Azul, na fronteira com a Etiópia, também registrou combates. Em março, uma nova linha de frente surgiu na região, quando as FAR e seus aliados da Frente Popular de Libertação do Sudão-Norte, apoiados por Adis Abeba, atacaram a cidade estratégica de Kurmuk. O Exército enviou reforços para Damazin, capital da região. Dos 18 estados que compõem o Sudão, cinco estão atualmente sob controle dos paramilitares das Forças de Apoio Rápido (FAR), e outros quatro enfrentam confrontos ativos.

A linha de frente se estende pelos três estados do Cordofão, sendo que o Cordofão do Sul registra o maior número de vítimas civis. Nessa região, cidades mudam de controle diversas vezes. O uso intensivo de drones pelos paramilitares matou, segundo a ONU, mais de 500 civis entre o início de janeiro e meados de março. À exceção de algumas localidades de Darfur do Norte, os cinco estados do Darfur estão sob controle das FAR. 

Berlim tenta mobilizar ajuda internacional

A comunidade internacional se reúne nesta quarta-feira (15) em Berlim e espera arrecadar mais de US$ 1 bilhão para ajudar o país.

"Queremos superar a arrecadação da última conferência em Londres, há um ano, onde foram angariados US$ 1 bilhão (€ 850 milhões)", declarou o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, em entrevista à rádio Deutschlandfunk, acrescentando que ainda estava "recebendo confirmações" de doações. 

"Temos duas grandes guerras no Irã e na Ucrânia, mas esta catástrofe na África não deve ser esquecida", enfatizou o ministro alemão, considerando "lamentável" que "os Estados Unidos não estejam mais tão ativos como nos anos anteriores" nessa questão. A reunião de Berlim reúne governos, agências humanitárias e organizações da sociedade civil, mas exclui as duas partes envolvidas no conflito: o Exército e as FAR. Reuniões semelhantes em Londres e Paris, nos últimos dois anos, não conseguiram produzir nenhum avanço diplomático.

Para além da destruição generalizada das infraestruturas, a guerra lançou ainda mais a população de cerca de 50 milhões de habitantes na insegurança alimentar e na pobreza. O apelo por doações lançado pela ONU para 2026 está, por enquanto, financiado em apenas 16%. No ano passado, de acordo com as Nações Unidas, a fome atingiu as populações das capitais do Darfur do Norte, El-Fasher, Cordofão do Sul, Kadugli, com outras 20 áreas em risco.

Entenda as raízes do conflito

O Sudão é liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan, que ganhou projeção internacional em 2019, ao derrubar o presidente, Omar al-Bashir, após meses de protestos. Antigo aliado de Bashir e comandante militar durante o conflito de Darfur (2003-2008), Burhan assumiu a presidência interina e liderou o Conselho Militar de Transição, encarregado de conduzir o país rumo à democracia.

No entanto, em outubro de 2021, o general deu um golpe, destituindo o primeiro-ministro civil Abdalla Hamdok e interrompendo a transição democrática. Desde então, ele manteve o controle do país, apesar de protestos e de um acordo firmado em dezembro de 2022 que previa a retomada da transição civil.

Em oposição está Mohamed Hamdan "Hemedti" Dagalo, que chegou à liderança da milícia Janjaweed - que deu origem às Forças de Apoio Rápido (FAR) - e foi acusada de crimes contra a humanidade em Darfur.

Em 2003, o conflito em Darfur teve início quando grupos rebeldes de minorias étnicas se insurgiram contra o governo central de Cartum, dominado por árabes. Na época, de acordo com a ONU, cerca de 300 mil pessoas foram mortas e 2,7 milhões tiveram de ser deslocadas.

Na ocasião, a milícia Janjaweed, de Hemedti, lutou ao lado das forças de Bashir contra os rebeldes. Sem treinamento militar formal, Hemedti conquistou espaço e, em 2013, assumiu a liderança das Forças de Apoio Rápido (FAR).

Bashir costumava utilizar as FAR para reprimir protestos e conter o descontentamento social que culminou em sua queda. À medida que o grupo crescia, surgiram temores de que se tornasse mais poderoso do que as forças de segurança oficiais. Em 2017, o governo oficializou as FAR como força de segurança independente.

Após a queda de Bashir, Hemedti se alinhou ao lado vencedor e assumiu o posto de vice-líder do Conselho Militar de Transição. Nos anos seguintes, o grupo paramilitar fortaleceu alianças internacionais, incluindo contatos na Rússia e no Golfo, e enviou combatentes para apoiar a coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen.

Após o golpe de 2021, Burhan utilizou novamente as FAR para conter protestos, enquanto Hemedti se manteve discreto. O paramilitar foi então nomeado chefe adjunto do Conselho Soberano, tornando-se efetivamente o número dois do país. Mas o plano de transição democrática e um projeto para integrar as FAR ao Exército sudanês geraram críticas da parte de Hemedti, levando os dois líderes a campos políticos opostos. Com isso, as FAR deram início a combates para tentar tomar posições estratégicas em Cartum e outras cidades, desafiando o comando do Exército. Isso rapidamente escalou para uma guerra civil aberta.

Com RFI e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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