Confiantes, rebeldes esperam vitória após entrada em Bani Walid
Sentado à sombra de um equipamento de lançamento antiaéreo, Ahmad Ali al Wafali fuma com parcimônia e em seu rosto o ar é de até uma certa presunção ao observar no horizonte as primeiras casas da cidade de Bani Walid, um dos pontos de resistência do avanço rebelde.
Membro do batalhão rebelde 28 de maio, o jovem Wafali, 28 anos, pele empoeirada e cabelo raspado, já é quase um veterano nas atividades bélicas. No início de março, ele guardou seu uniforme de policial líbio e aderiu aos rebeldes. Combateu em Zintan, Misrata, Trípoli e Bab al Azizia com um fuzil AK-47, marcado com o nome da tribo a qual pertence: os Wafala.
"Se deus quiser, hoje (domingo) tomaremos Bani Walid (a 120 km ao sudeste de Trípoli), e depois, seguiremos nosso caminho em direção a Sebha (a 650 km ao sul da capital). Assim até libertarmos toda Líbia e a limpá-las dos ratos", diz Wafali sob o sol abrasador do deserto.
Já passaram horas desde que expirou o ultimato dado pelos rebeldes à cidade para que se rendesse, mas na frente norte do povoado impera a calma. Os rebeldes caminham entre as metralhadoras instaladas em velhas caminhonetes rabiscadas com os símbolos da revolução, se refrescam, cochicham, repõem a munição nas armas e observam com certa tensão o movimento de seus oficiais.
Ninguém confirma nada, mas os rumores apontam para a continuidade do diálogo e que, enquanto amarram-se as últimas pontas, várias unidades saíram para limpar as ruas de mercenários escondidos e garantir uma entrada rebelde livre de francoatiradores.
Não já também nenhuma informação exata sobre quantos são os supostos homens fiéis a Kadafi entrincheirados nesta empobrecida cidade situada às portas do deserto e berço da tribo Wafala, uma das maiores do país. É desconhecida ainda se são corretas as notícias sobre que em suas ruas está escondido o ditador líbio Muammar Kadafi e seu Saif Al Islam, comandante de sua força de elite, e os ministros fiéis ao foragido coronel.
"Não sabemos quantas pessoas estão lá. Estamos negociando, mas nós não sabemos nada. Estamos à espera de informações pelos nosso superiores", explica o comandante Anis Mohamad, membro da "Katiba Trípoli", considerada a força de elite dos rebeldes.
Vestido com uniforme camuflado, limpo e bem passado, o jovem oficial demonstra confiança em que tudo acabe neste domingo sem derramamento desnecessário de sangue. "Não acho que o cessar-fogo deva se estender mais. Já o utilizaram para abastecerem-se e alguns talvez para escapar", afirma.
A eventual queda de Bani Walid, um dos vértices do triângulo da resistência junto da cidade desértica de Sebha e a litorânea de Sirte, berço do ditador, é contemplada pelo comando militar rebelde como o ponto de inflexão definitivo para o fim do conflito armado. Os rebeldes acreditam que, mesmo que nela não sejam capturados Kadafi ou algum de seus filhos, a rendição terá efeito dominó nas demais fortificações, em particular Sirte e kufra.
Apoiado sobre seu fuzil Kalashnikov, Ahmad al Wafali, que tem colegas de tribo tanto em Bani Walid, como em Sebha e Sirte, acredita na continuidade do combate ainda por meses, até que o ditador que os oprimiu e os empobreceu seja morto ou preso. "Após Bani Walid, adiante, adiante pelo deserto até Sebha. Não importa onde esteja, onde queira se esconder, não tem escapatória", insiste.
Quando é perguntado sobre quais seus planos para o pós-conflito, ele não hesita em responder. Enterra a guimba do cigarro ao lado de uma cápsula deflagrada na areia e diz: "tomarei um banho, farei a barba, cortarei o cabelo, voltarei a usar meu uniforme de policial e voltarei ao meu trabalho", planeja.
Líbia: da guerra entre Kadafi e rebeldes à batalha por Trípoli
Motivados pelos protestos que derrubaram os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em fevereiro para contestar o coronel Muammar Kadafi, no comando desde a revolução de 1969. Rapidamente, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas de leste a oeste.
A violência dos confrontos gerou reação do Conselho de Segurança da ONU, que, após uma série de medidas simbólicas, aprovou uma polêmica intervenção internacional, atualmente liderada pela Otan, em nome da proteção dos civis. No dia 20 de agosto, após quase sete meses de combates, bombardeios, avanços e recuos, os rebeldes iniciaram a tomada de Trípoli, colocando Kadafi, seu governo e sua era em xeque.