Após fim de semana de combates, Mali vive calma frágil e chefe da junta não se pronuncia
Uma calma frágil reinava na manhã desta segunda-feira (27) em Bamako e Kati, capital e reduto da junta militar do Mali respectivamente, após dois dias de intensos combates entre o Exército e rebeldes da Frente de Libertação de Azawad (FLA), além de grupos jihadistas. O ministro da Defesa malinês, Sadio Camara, morreu em um ataque, e o general Assimi Goita, chefe da junta, não foi visto nem se pronunciou publicamente desde o início das hostilidades.
No fim de semana, rebeldes da FLA e jihadistas do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (GAIM), afiliado à Al-Qaeda, realizaram uma série de ataques coordenados em sete cidades do Mali, contra posições estratégicas da junta governante.
Kati, um reduto militar a noroeste de Bamako, foi particularmente atingida. A residência do ministro da Defesa, Sadio Camara, foi alvo de um atentado suicida. A junta confirmou sua morte na noite de domingo. Apesar de a situação ter se acalmado nesta segunda-feira, destroços de carros incendiados e marcas de tiros ainda eram visíveis nas ruas da cidade, evidenciando a violência dos confrontos.
A calma também prevalecia na região do aeroporto, no distrito periférico de Sénou, onde se localiza a casa de Camara. Apenas algumas aeronaves militares realizavam voos regulares. "Fizemos varreduras durante toda a noite, o que nos permitiu aliviar a pressão nos postos de controle. Agora, contamos com os moradores para denunciar qualquer indivíduo suspeito nos bairros", disse um oficial em Sénou à AFP.
Kidal, no norte do país, encontra-se sob controle total do GAIM e da FLA. Após negociações, os mercenários russos do Afrika Korps e o Exército do Mali deixaram a cidade em direção a Gao, assim como as autoridades civis oficiais. A junta descreve a operação como um "reposicionamento" fora de Kidal, reconhecendo, na prática, sua retirada da cidade.
"A junta deve reconhecer seu fracasso, e o diálogo nacional precisa começar", declarou a Coalizão de Forças para a República, movimento de oposição ao governo malinês no exílio, liderado pelo imã Mahmoud Dicko.
"O Mali está em perigo", afirmou a coalizão em comunicado divulgado no domingo, expressando sua preocupação com a situação no país.
"A confusão atual não deve ofuscar o ponto essencial: o Mali acaba de testemunhar mais uma demonstração das falhas de segurança do regime militar", acrescenta o movimento, composto por diversos atores políticos opositores à junta. O grupo "condena todos os ataques contra populações civis, locais públicos, infraestrutura essencial e propriedades de cidadãos" e exige a renúncia da junta, além do "início imediato de uma transição civil, republicana e inclusiva".
O vasto país da África Ocidental tem sido assolado por conflitos e violência jihadista desde 2012. A junta militar assumiu o poder em 2020.
Rebeldes e jihadistas juntos
Esta é a primeira vez que rebeldes separatistas e jihadistas aparecem publicamente unidos, com objetivos declaradamente comuns.
Segundo o especialista em Mali da RFI, David Baché, diante de interesses divergentes, é difícil prever como essa colaboração irá evoluir. De um lado, o GAIM — ou JNIM, na sigla em árabe — nutre há anos aspirações de conquista territorial e política para implementar a lei islâmica (sharia) em vários países da África Ocidental. De outro, os rebeldes buscam a independência das regiões do norte do Mali, conhecidas como Azawad.
Ainda assim, esta não é a primeira vez que separatistas do norte cooperam com jihadistas. Em maio de 2024, eles iniciaram discussões com o objetivo de estabelecer um pacto de não agressão, a fim de dar continuidade às suas respectivas atividades, que passaram a convergir na luta contra elementos do Grupo Wagner, atualmente conhecido como Afrika Korps.
Poucos meses depois, em julho de 2024, ocorreu um ataque de grande escala contra tropas do Wagner em Tinzaouatène, no qual vários soldados russos perderam a vida.
RFI e AFP
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