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Mudanças de lado, mercenários colombianos: os novos rumos da guerra no Sudão

15 jun 2026 - 16h40
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Enquanto lealdades frágeis e reforço de mercenários da Colômbia mudam dinâmica da guerra civil no país africano, população continua sofrendo. Conflito já matou mais de 70 mil.Quando o chefe do Exército do Sudão, Abdel Fattah al-Burhan, recentemente deu as boas-vindas públicas ao ex-comandante das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), Al-Nour Ahmed Adam, também conhecido como Al-Nour Al-Qubba, nas fileiras das Forças Armadas Sudanesas (SAF), isso representou uma das mais destacadas mudanças de lado até agora na guerra do Sudão.

O conflito já dividiu o país há muito tempo em zonas de influência fortemente disputadas: enquanto as SAF controlam Cartum, Porto Sudão e grandes partes do leste e do centro, a milícia rival RSF mantém vastas áreas no oeste do país, especialmente em Darfur - incluindo a cidade de Al-Fasher.

O comandante Al-Nour Al-Qubba não foi o único desertor: poucas semanas depois, outro alto comandante da RSF, Ali Rizq Allah, conhecido como Al-Savannah, seguiu o mesmo caminho.

De acordo com a Human Rights Watch (HRW), foram verificados vídeos que supostamente mostram ambos os desertores durante o cerco de Al-Fasher. A organização documentou graves crimes cometidos pela RSF, sob o comandante general Mohamed Hamdan Daglo, contra civis durante a tomada da cidade em outubro de 2025.

Desde o início da guerra em 2023, o chefe das SAF, Abdel Fattah al-Burhan, tem tentado atrair desertores das fileiras da RSF. Já naquela época, ofereceu anistia aos combatentes da milícia caso depusessem as armas. No entanto, a Human Rights Watch não conseguiu verificar se essa oferta também se aplica aos desertores mais recentes.

Sem impunidade

Para Mohamed Osman, especialista em Sudão da HRW, mudar de lado não deve significar impunidade em nenhuma circunstância. "Quem é responsável por crimes graves não recebe um passe livre apenas porque muda de lado", afirmou, acrescentando que "as vítimas têm direito à justiça".

Segundo analistas de conflitos da organização ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project), as deserções recentes podem indicar tensões crescentes dentro da RSF. A organização vê "rachaduras nas alianças centrais da milícia". Como motivo, aponta a diminuição de recursos e o aumento da disputa pelo restante dos espólios de guerra.

As deserções para o exército sudanês ocorrem em um momento em que a RSF continua contando com apoio externo. Embora as linhas de frente estejam no Sudão, as conexões que sustentam a guerra vão muito além das fronteiras do país. Segundo especialistas, países como Emirados Árabes Unidos (EAU), Etiópia, Líbia, Chade e Quênia apoiariam a RSF. Já o Exército sudanês (SAF), também alvo de acusações de violações de direitos humanos, recebe apoio do Egito, Arábia Saudita, Turquia e Eritreia. O Irã também é suspeito de ter fornecido apoio militar ao exército regular.

Acusações contra os Emirados

O nome dos Emirados Árabes Unidos aparece com frequência particular. De acordo com um relatório do Wall Street Journal, serviços de inteligência dos EUA acreditam que Abu Dhabi forneceu à RSF drones chineses, armas leves, metralhadoras pesadas, artilharia, morteiros e munição.

"O conflito já teria acabado se não fossem os EAU", disse Cameron Hudson, ex-chefe de gabinete de vários enviados especiais dos EUA para o Sudão. "A única coisa que mantém a RSF na guerra é o enorme apoio militar que recebe dos Emirados"

A Anistia Internacional (AI) também encontrou, em 2025, indícios de que envios de armamentos à RSF "muito provavelmente" se originaram dos Emirados Árabes Unidos.

Os Emirados rejeitam regularmente essas acusações. Salem Aljaberi, ministro de Estado para assuntos de segurança e militares, declarou que as alegações são "infundadas" e sem provas consistentes.

Combatentes da Colômbia

As acusações contra os Emirados não se limitam mais ao fornecimento de armas e apoio logístico. No final de maio, a Human Rights Watch publicou o relatório intitulado From Bogotá to El Fasher (De Bogotá a El-Fasher) Em 83 páginas, a organização descreve como centenas de mercenários colombianos teriam sido recrutados desde 2024 para a guerra no Sudão.

Segundo a HRW, o recrutamento teria ocorrido por meio da empresa de segurança Global Security Services Group (GSSG), com sede em Abu Dhabi. Os homens teriam sido enviados ao Sudão para lutar ao lado da RSF.

"Felizmente, os mercenários colombianos não foram muito discretos nas redes sociais", disse Joey Shea, da HRW, em entrevista à revista americana especializada em política Democracy Now. Por meio de contas no TikTok e outros conteúdos públicos, a organização conseguiu reunir diversas informações e localizar os combatentes em instalações militares dos EAU antes de serem enviados ao Sudão.

Para o relatório, a HRW entrevistou dois contratados militares colombianos enviados ao Sudão, um ex-funcionário da GSSG, moradores de Al-Fasher e outras fontes. Também analisou documentos empresariais, registros oficiais, além de fotos e vídeos. Algumas dessas imagens mostrariam combatentes colombianos junto a unidades da RSF no Sudão; outras documentariam períodos de treinamento em instalações militares dos Emirados.

Por que colombianos?

"Nossa investigação mostra que a empresa GSSG, com sede em Abu Dhabi, aparentemente recrutou centenas de combatentes colombianos que lutaram ao lado da RSF - um grupo armado acusado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade", afirmou Shea.

Mas por que colombianos? Segundo o relatório, ex-soldados colombianos são vistos como particularmente atrativos para esse tipo de missão, pois possuem ampla experiência de combate e frequentemente foram treinados em sistemas de armas dos EUA. A conexão remontaria a 2011, quando os Emirados teriam começado a montar uma unidade com centenas de combatentes estrangeiros, incluindo colombianos.

Shea afirma que o apoio dos Emirados à RSF já vem sendo documentado há anos. "O papel dos EAU no financiamento, armamento e apoio militar à RSF foi repetidamente registrado", diz. Ainda assim, segundo ela, até hoje nem a União Europeia, nem os EUA, nem o Reino Unido criticaram publicamente os Emirados por isso.

Semanas antes, a organização Conflict Insights Group já havia rastreado combatentes colombianos até Darfur usando dados de celulares. A investigação levou a uma base militar em Ghayathi, nos Emirados. Esses homens fariam parte de uma unidade chamada Desert Wolves, liderada pelo ex-coronel colombiano Álvaro Quijano, posteriormente sancionado pelos EUA e Reino Unido.

Os Emirados também negam essas acusações, afirmando defender "um cessar-fogo imediato" e não ver "o futuro do Sudão em uma junta militar", segundo Anwar Mohammed Gargash, conselheiro do presidente dos Emirados, em declaração à agência de notícias Reuters no fim de 2025.

Setenta mil mortos

As recentes deserções da RSF, as recorrentes acusações contra os Emirados e as investigações sobre combatentes colombianos mostram o quanto a guerra já ultrapassou as linhas de frente. Para a população do Sudão, no entanto, isso pouco muda: eles continuam sendo as principais vítimas do conflito.

Em Al-Fasher, organizações de direitos humanos documentaram massacres e outras graves violências contra civis. Uma missão de investigação da ONU chegou a afirmar que os acontecimentos apresentavam "características de genocídio".

Ao mesmo tempo, organizações humanitárias falam da maior crise de deslocamento do mundo. Cerca de 12 milhões de pessoas estão em fuga, quase 20 milhões sofrem com insegurança alimentar aguda, e só em Al-Fasher estima-se que até 70 mil pessoas tenham sido mortas.

O Programa Mundial de Alimentos descreve a situação no Sudão como a maior crise de fome do mundo.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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