Morre Yayoi Kusama, a artista japonesa que pintou o infinito
A renomada artista plástica japonesa Yayoi Kusama faleceu aos 97 anos em Tóquio. Conhecida mundialmente por suas icônicas "Salas Infinitas", esculturas de bolinhas e instalações imersivas, Kusama transformou suas alucinações de infância e batalhas com a saúde mental em uma aclamada linguagem artística. Após desafiar convenções em Nova York nos anos 1960, passou décadas residindo voluntariamente em uma clínica psiquiátrica no Japão, onde manteve produção constante até o fim da vida.
Artista transformou visões que a acompanhavam desde a infância em uma obra celebrada no mundo inteiro. Ela tinha 97 anos.O Museu Yayoi Kusama e a Fundação Yayoi Kusama anunciaram nesta quinta-feira (27/08) a morte da artista japonesa, aos 97 anos. Segundo o comunicado, ela faleceu em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio. A causa não foi informada.
Embora as obras de Yayoi Kusama frequentemente pareçam lúdicas, por trás delas está a história de uma mulher que enfrentou grandes desafios sociais e de saúde mental.
A artista ganhou fama nos últimos anos por suas "Salas Infinitas" ("Infinity Rooms"), instalações imersivas que utilizam espelhos, luzes e superfícies refletivas para criar a ilusão de um espaço sem fim, que viraram sensação nas redes sociais. Suas esculturas de bolinhas em grande escala são outro grande sucesso da artista.
Por volta dos 10 anos de idade, Yayoi Kusama começou a experimentar alucinações, vendo bolinhas e padrões em forma de rede cobrindo tudo diante de seus olhos. Ela atribuiu essas primeiras visões ao sofrimento psicológico de crescer com uma mãe pouco afetuosa, que a proibia de pintar e tentava impor expectativas tradicionais sobre seu comportamento.
Embora tenha continuado a sofrer alucinações até o fim da vida, Kusama aprendeu a conviver com elas e a canalizá-las para sua arte. "Minha obra é uma expressão da minha vida, particularmente da minha doença mental", disse Kusama certa vez à revista americana de arte Bomb Magazine.
Após estudar na Escola de Artes e Ofícios de Kyoto, Kusama realizou suas primeiras exposições em sua cidade natal, Matsumoto. Numa época em que o tema da saúde mental era carregado de forte estigma, ela não se privou de falar sobre a própria condição.
"Foi extraordinário que ela tratasse disso de forma tão aberta", afirmou Stephan Diederich, curador da retrospectiva de Kusama realizada em 2026 no Museu Ludwig, em Colônia.
"Para ela, a arte era uma estratégia de sobrevivência e uma forma de terapia, e ela sempre deixou isso claro sem transformar esse aspecto no foco principal", disse Diederich à DW.
A fuga para Nova York
Para Kusama, nascida em 22 de março de 1929, a vida no Japão logo se tornou sufocante demais.
"Meus pais estavam sempre tentando me empurrar para casamentos arranjados com homens que eu nunca tinha conhecido e que vinham de famílias muito específicas", contou ela ao escritor Andrew Solomon, descrevendo o período dos seus 20 e poucos anos como "minha era de colapso mental". Ela passou a se sentir cada vez mais como "uma prisioneira cercada por uma cortina de despersonalização".
Por fim, rompeu com as convenções e expectativas do Japão do pós-guerra e se mudou para Nova York, em 1958.
"Ela tinha uma autoconfiança extraordinária e estava determinada a seguir seu próprio caminho e construir uma carreira", afirmou Diederich.
A mãe de Kusama lhe ofereceu apoio financeiro para começar a nova vida, sob uma condição: que nunca voltasse ao Japão. A artista Georgia O'Keeffe, para quem Kusama já havia enviado algumas de suas obras, ajudou-a a encontrar espaço nos Estados Unidos.
Kusama frequentemente passava dias inteiros trabalhando e produziu uma vasta quantidade de obras. Ela se juntou à vanguarda artística nova-iorquina, onde as meticulosas pinturas da série "Infinity Net" chamaram atenção pelo padrão hipnótico e repetitivo.
Suas obras, incluindo esculturas de tecido macio frequentemente em forma fálica, tinham pontos de contato com abordagens adotadas por contemporâneos como Andy Warhol e Claes Oldenburg.
"Ela tinha muita confiança ao afirmar que estabeleceu referências que seus colegas homens utilizaram mais tarde", explicou Diederich.
Ele acrescentou, porém, que é impossível determinar com certeza quem chegou primeiro. De todo modo, seus colegas homens obtiveram mais sucesso comercial do que a jovem artista, o que contribuiu para uma tentativa de suicídio da qual ela felizmente sobreviveu. Kusama abordou a desigualdade salarial entre homens e mulheres na escultura "Traveling Life" (1964), que apresenta uma escada coberta por formas fálicas, com sapatos femininos sobre os degraus.
Os falos constituem outro tema recorrente na obra de Kusama, usado para lidar com seu "medo do sexo como algo sujo", como escreveu em sua autobiografia, publicada em 2022.
Sob o conceito de apagar a própria individualidade até passar a se sentir parte do universo, chamado pela artista de "autodiluição do eu" (self-obliteration), Kusama promoveu na década de 1960 happenings com tom provocativo, às vezes sexual. Ela ficou conhecida nessa época por pintar corpos de homens e mulheres com bolinhas, numa tentativa de apagar também a individualidade das pessoas retratadas. Entre os temas explorados nessa época, está a guerra do Vietnã (1955-1975)
"Por que pessoas que compartilham prazer entre si deveriam ir à guerra e matar outras? Por meio do sexo livre, a barreira entre mim e os outros pode ser derrubada", escreveu Kusama em sua autobiografia.
"Ao apagar o próprio eu, você retorna ao universo infinito", disse ela certa vez.
Em 1966, Kusama apresentou a obra "Narcissus Garden" na Bienal de Veneza. Ela espalhou 1.500 esferas espelhadas sobre o gramado do lado de fora da entrada da mostra, para a qual não havia sido convidada, e tentou vendê-las por 2 dólares cada.
Os organizadores da Bienal acabaram intervindo e interrompendo a venda, mas a obra ainda assim serviu como uma crítica contundente à comercialização do mundo da arte e ao papel dos artistas nesse processo.
Fama na fase final da vida
Em 1993, Kusama retornou à Bienal de Veneza como artista oficialmente convidada, representando o Japão.
Mais tarde, ela disse ao Financial Times que queria "ficar mais famosa, ainda mais famosa", declaração que reflete a importância que o reconhecimento assumiu em sua carreira e que foi criticada por alguns como excessivamente centrada na fama.
Na última década, Kusama alcançou um nível de notoriedade que qualquer artista invejaria. Em 2018, o museu The Broad, em Los Angeles, vendeu rapidamente 90 mil ingressos antecipados para uma exposição da artista. Uma mostra realizada na Tate Modern, em Londres, em 2022, esgotou os ingressos em pouco tempo, assim como a extensão de um ano da exposição. Suas obras passaram a alcançar milhões em leilões.
Yayoi Kusama voltou ao Japão em 1973 e decidiu viver em uma clínica psiquiátrica em Tóquio, onde recebia tratamento para sua saúde mental. Ela permaneceu altamente produtiva, criando pinturas, esculturas, instalações e outras obras exibidas ao redor do mundo até os últimos dias de vida.
"Continuarei criando obras de arte enquanto minha paixão me impulsionar a fazê-lo. Fico profundamente emocionada por tantas pessoas serem admiradoras do meu trabalho", disse em uma entrevista anterior.
"Suponho que só saberei como as pessoas avaliam minha arte depois que eu morrer. Eu crio arte para a cura de toda a humanidade."
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