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Em entrevista na Globo há quatro anos, Lula admitia corrupção na Petrobras, criticava sigilos e equilíbrio em contas já era pendência

Lula será sabatinado novamente pela emissora nesta quinta-feira, 27, como candidato à reeleição para a Presidência da República

27 ago 2026 - 04h58
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Lula durante sabatina na TV Globo em 2022
Lula durante sabatina na TV Globo em 2022
Foto: Reprodução/Globoplay

Há quatro anos, antes de ser eleito para o seu terceiro mandato como presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era sabatinado pela TV Globo. Na ocasião, entrevistado pelos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos, ele falou sobre corrupção, sigilos e economia. Agora, Lula voltará a ser entrevistado nesta quinta-feira, 27, na nova série de sabatinas da emissora com os presidenciáveis para as Eleições de 2026.

  • Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos

Na sabatina de quatro anos atrás, havia uma expectativa de como seria a entrevista após a cobertura da Globo durante a Operação Lava a Jato, uma vez que Lula havia feito duras crítica à emissora carioca. Em uma publicação nas redes sociais, Lula chegou a dizer que a Globo e Bonner deveriam pedir desculpas a ele. Para a sabatina de 2022, Lula contou com o contou com a ajuda de um ex-apresentador de telejornais da TV Globo, o jornalista Chico Pinheiro, que foi âncora do Bom Dia Brasil, fez treinamento com o petista antes da entrevista. 

No entanto, em um clima mais amistoso e sem grandes embates, a entrevista do petista com a TV Globo em 2022 foi a primeira para a emissora desde que saiu da prisão em 2018. O modelo foi o mesmo que está sendo repetido neste ciclo eleitoral: 40 minutos de entrevista com um minuto para considerações finais no encerramento. 

A conversa começou abordando corrupção, o grande calcanhar de Aquiles do petista na época. Bonner começou falando que o Supremo Tribunal Federal (STF) deu razão a Lula, entendendo que o então juiz Sergio Moro era parcial, anulando a condenação do caso do triplex e outras ações considerando a vara de curitiba incompetente. “Portanto, o senhor não deve nada à Justiça. Mas houve corrupção na Petrobrás”, apontou o jornalista. E como garantir que situações do tipo não se repetirão?

Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá (SP), mas, após um ano e sete meses de prisão, teve a condenação anulada pelo STF. Em resposta sobre os escândalos, Lula falou que foi massacrado durante cinco anos e que aquela era a sua primeira oportunidade de falar sobre isso abertamente com o povo brasileiro.

"Eu queria começar dizendo uma coisa muito séria. Foi no meu governo que a gente criou o Portal da Transparência, colocou a CGU para fiscalizar, que a gente criou a Lei de Acesso à Informação, a Lei Anticorrupção, contra o crime organizado [...] Qualquer hipótese de alguém cometer qualquer crime, por menor ou maior que seja, essa pessoa será investigada, será julgada e punida ou absolvida. Assim que você combate a corrupção no País. A corrupção só aparece quando você permite que ela seja investigada”, afirmou, dizendo que o equívoco da Lava Jato foi ultrapassar o limite da investigação e ter como objetivo condená-lo.

Lula disse que qualquer pessoa com a menor hipótese de cometer qualquer crime será investigada, julgada e punida ou absolvida. A afirmação, feita antes dele assumir seu terceiro mandato, segue a mesma linha do que tem defendido agora – enquanto, em meio à corrida eleitoral e busca pelo quarto mandato, seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, se vê em meio a investigações. 

No último domingo, 23, em entrevista à Record, Lula afirmou tratar com "muita seriedade" o caso envolvendo o filho. Na ocasião, ele negou tentar barrar qualquer investigação contra o filho: “Meu filho sabe, se cometeu erro, ele vai ser julgado, vai ser punido ou vai ser inocentado. Mas ele tem que provar a inocência dele", alegou.

No caso, Lulinha é alvo de três inquéritos no STF. Investigações da Polícia Federal investigam suspeitas de tráfico de influência em negócios de aliados no governo federal envolvendo o Ministério da Saúde, a Dataprev e outras estruturas da administração pública. O assunto tem sido usado como munição por concorrentes de Lula na busca pela Presidência da República.

Admitiu corrupção na Petrobras

Há quatro anos, na bancada da Globo, o ex-presidente admitiu corrupção na Petrobras nas gestões do PT, mas acusou o Ministério Público de "oficializar o roubo" com delações premiadas. "Não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram. O que é mais grave é que as pessoas confessaram e, por conta das pessoas confessaram, ficaram ricas". 

"Você não só ganhava a liberdade por falar o que queria o Ministério Público, como você ganhava metade do que você roubou. O roubo foi oficializado pelo Ministério Público, o que eu acho uma insanidade e uma aberração para esse país."

Lula durante sabatina na Globo em 2022
Lula durante sabatina na Globo em 2022
Foto: Reprodução/Globoplay

Sigilo de 100 anos

Ao responder sobre que poderia fazer para assegurar que questões de corrupção não se repitam, Lula 'brincou' que poderia ter imposto sigilos de 100 anos:

“Eu poderia, por exemplo, fazer decreto de 100 anos. Sabe o decreto de sigilo, que tá na moda agora? Eu poderia para não apurar nada. Decreto pros meus filhos, decreto pros meus assessores. Ou eu poderia não investigar, pegar um tapetão, colocar em cima de qualquer denúncia… e nada vai ser apurado e não vai ter corrupção. A corrupção só aparece quando você governa de forma republicana, que permite que as pessoas sejam investigadas independentemente de quem seja”.

Na época, Jair Bolsonaro era o presidente da República e impôs sigilos de 100 anos em cima de assuntos envolvendo a gestão federal e familiares. Eleito, Lula chegou a atuar frente a questão, tendo derrubado o primeiro sigilo ainda no primeiro ano de seu terceiro mandato, em 2023, sobre visitas recebidas pela ex-primeira dama Michelle Bolsonaro no Palácio da Alvorada.

A questão é que o governo Lula também negou informações. Como revelado pelo Estadão em 2024, foram mais de mil pedidos de informação feitos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) em 2023 negados com a justificativa de que as informações continham dados pessoais, protegidas por lei. Com essa resposta, o efeito prático é o de impor sigilo de 100 anos sobre as questões -- que, no caso, envolviam a agenda da primeira-dama, Janja da Silva, e comunicações diplomáticas sobre o ex-jogador Robinho, por exemplo.

A contradição não tem passado batido. Neste ano, durante participação no podcast Inteligência Ltda. apresentado por Rogério Vilela, Lula foi questionado sobre os sigilos e se reafirmou “radicalmente contra”. Ele explicou que essas decisões não passam diretamente pela Presidência, sendo tomadas por órgãos responsáveis dentro da estrutura do governo.

“Eu sou radicalmente contra sigilo de 100 anos. Eu estou radicalmente contra sigilo de 20 anos. Eu acho que deve ser sigilo só para coisa de Estado, coisa de segurança nacional. A primeira coisa que nós tentamos fazer era mudar a lei. Mas não é simples de mudar [...] Se um jornalista pedir uma informação e o responsável negar para ele, pergunte para mim, que eu vou dizer. Porque não há nada nesse mundo que mereça estar sob sigilo", declarou o petista.

Lula (PT) subindo a rampa do Palácio do Planalto para tomar posse e receber a faixa presidencial após ser eleito para o seu terceiro mandato
Lula (PT) subindo a rampa do Palácio do Planalto para tomar posse e receber a faixa presidencial após ser eleito para o seu terceiro mandato
Foto: Daniel Teixeira/ Estadão / Estadão

Na corrida eleitoral passada, disputavam a presidência com Lula: Ciro Gomes (PDT), Constituinte Eymael (DC), Luiz Felipe d’Avila (Novo), Jair Bolsonaro (PL), Léo Péricles (UP), Padre Kelmon (PTB), Simone Tebet (MDB), Sofia Manzano (PCB), Soraya Thronicke (União Brasil) e Vera Lúcia (PSTU).

Equilíbrio das contas

Na sabatina da eleição geral passada, Lula foi questionado sobre questões econômicas. Bonner apontou que ele não apresentava um plano claro para a área, e tentou entender como o petista iria buscar recuperar o equilíbrio das contas.

Lula usou como exemplo 2002, falando sobre como o Brasil estava quebrado antes dele assumir seu primeiro mandato como presidente da República. O que seu governo fez na época, como apontou, foi reduzir a inflação para o planejado na meta, reduzir a dívida pública e fazer uma grande reserva, além de emprestar dinheiro para o Fundo Monetário Internacional (FMI). “Além de que, fizemos a maior política de inclusão social que a história desse país conheceu. É assim que vamos governar esse país”, alegou, dando a entender que repetiria a dose.

Resultados de Dilma também foram trazidos à tona na sabatina, como o aumento da inflação e queda do Produto Interno Bruto (PIB). Lula a defendeu, mas fez adendos: “A Dilma é uma das pessoas que tenho mais respeito pela competência e pela ajuda que me deu quando era da Casa Civil. Ela fez um mandato extraordinário porque a crise internacional se agravou e mesmo assim ela se endividou para poder manter as políticas sociais e o emprego em 4,5% que foi o menor desemprego que tivemos na história desse país”, afirmou. 

"Eu acho que a Dilma cometeu equívocos na questão da gasolina, ela sabe que eu penso isso. Na hora de fazer R$ 540 bilhões de desonerações em isenção fiscal… Eu acho que quando ela tentou mudar, ela tinha uma dupla dinâmica contra ela. O Eduardo (Cunha), presidente da Câmara, e o Aécio no Senado, que trabalharam o tempo inteiro para que ela não fizesse mudanças", continuou.

Agora, quatro anos depois, Lula não conseguiu equilibrar as contas públicas. Ao Terra, especialistas explicam que o problema fiscal no Brasil é grave, sendo principalmente voltado à crise das contas públicas do governo federal, quando se gasta mais do que arrecada, a grosso modo. Em junho deste ano, a Dívida Bruta do Governo Geral avançou para 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto), alcançando R$ 10,4 trilhões no mês. Esse é o maior valor desde abril de 2021, quando a dívida estava em 82,62% do PIB.

A questão fica cada vez mais difícil de ser resolvida conforme a dívida cresce, o que se tornou uma pedra no sapato do governo Lula. Em paralelo, Lula entrega neste terceiro mandato a menor taxa de desemprego histórica – com o último semestre encerrando em 5,4% de acordo com dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE, menor resultado para o período desde 2012.

Fonte: Portal Terra
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