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Lula 3' deixa reformas e dívida pública alta como herança econômica para os próximos anos

Economistas avaliam quais foram os avanços e os pontos de alerta para os próximos anos

21 ago 2026 - 04h58
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Lula e o agora ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad
Lula e o agora ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Lula melhorou a economia brasileira em seu terceiro mandato como presidente da República? A resposta não é simples. Especialistas ouvidos pelo Terra avaliam que o saldo geral foi positivo, mas que há pendências e questões que seguem como preocupações – e que agora cairão como uma bomba no colo de quem for eleito para comandar o Brasil pelos próximos quatro anos. De reforma tributária a taxa de juros alta, confira o que avaliam economistas.

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Analisar o resultado do ‘Lula 3’ na economia brasileira é falar sobre contradições entre avanços e entraves. Para Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, Lula entregou mais pontos positivos do que se esperava, mas não conseguiu transformar isso em uma conjuntura melhor. Para ela, o petista não conseguiu criar uma ponte entre os bons resultados e uma melhoria das contas públicas, o que fez com que a economia crescesse pouco. 

A economista avalia que o maior legado do ‘Lula 3’ é o da reforma tributária. Ela também destaca como entregas o aumento de renda e a menor taxa de desemprego histórica – com o último semestre encerrando em 5,4% de acordo com dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE, menor resultado para o período desde o 2012. Mas, ao mesmo tempo, a gestão deixa como maior pendência a questão fiscal do Brasil, o que deve gerar um desequilíbrio extremo a longo prazo, explica.

O problema fiscal no Brasil é principalmente voltado à crise das contas públicas do governo federal, quando se gasta mais do que arrecada, a grosso modo. Em junho deste ano, a Dívida Bruta do Governo Geral avançou para 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto), alcançando R$ 10,4 trilhões no mês. Esse é o maior valor desde abril de 2021, quando a dívida estava em 82,62% do PIB. Esse montante engloba dívidas do governo federal, da Previdência Social (INSS), e dos governos estaduais e municipais.

Com relação aos gastos públicos, a especialista cita o problema em torno do arcabouço fiscal, um conjunto de regras criadas em 2023 para impor limites aos gastos do Governo Federal em substituição ao antigo teto de gastos. “O governo deu jeitos para mostrar que estava cumprindo o arcabouço enquanto contornou ele de mil formas. Há uma contabilidade muito distorcida, porque nós continuamos com o resultado primário negativo”, avalia, projetando que a dívida pública bata 90% do PIB em dois anos.

A questão fica cada vez mais difícil de ser resolvida conforme a dívida cresce, o que se tornou uma pedra no sapato do governo Lula. Juliana cita um movimento que tem sido feito em tentar apertar o arcabouço, mas diz que Lula tem demonstrado baixa disposição em resolver esse problema – que não tem apelo eleitoreiro, apesar da gravidade.

“O que faltou foi uma reforma administrativa. Não saiu do papel. Esse é um ponto e não se fala nisso. O governo se nega a falar de reforma administrativa e redimensionamento de gastos, o que é uma pena. Porque isso mostra uma negação ao problema fiscal”, diz Juliana Inhasz. 

Lula é candidato à reeleição como presidente da República; se eleito, irá para o seu quarto mandato
Lula é candidato à reeleição como presidente da República; se eleito, irá para o seu quarto mandato
Foto: Ricardo Stuckert

Tudo se desdobra no juros elevado

Na economia, uma coisa leva a outra, e isso tem se desdobrado em uma taxa de juros alta. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu no início deste mês de agosto reduzir a taxa básica de juros da economia – a taxa Selic – em 0,25 ponto percentual, indo de 14,25% para 14% ao ano. Foi o quarto corte consecutivo da taxa, que segue em queda, mas ainda é considerada alta por economistas.

Isso é influenciado pela dívida pública elevada mas, também, pelo sucesso do governo Lula em fazer a taxa de desemprego cair, explica André Perfeito, mestre em economia política e economista-chefe da Garantia Capital.

A linha de pensamento é a seguinte, explica: quando há mais pessoas empregadas, o salário sobe. E isso, teoricamente, gera uma maior demanda na economia, pois as pessoas estariam com mais dinheiro no bolso. “Mas não está gerando uma demanda tão forte porque, apesar do salário real ter subido, a renda disponível das famílias está mais baixa. De um lado pelo endividamento, mas também por outros gastos que não eram mapeados antes e que agora se tornaram bastante crônicos, como as apostas online”.

Quando o salário sobe, a população está mais empregada e se espera que o consumo dispare, entra a questão da inflação. É para controlar a taxa, que estando alta afeta diretamente o poder de compra do brasileiro, o Banco Central aumenta a taxa de juros.

A questão, como aponta Perfeito, é que a queda da taxa de desemprego e o aumento do salário que ocorreu durante os últimos anos de mandato de Lula não se traduzem, necessariamente, em um aumento tão vigoroso do que se esperava no consumo das famílias.

“A persistir a taxa de juro nesse patamar, uma hora esse motor vai queimar de tão acelerado que está. Como não tem tração econômica, o carro não tá saindo para nenhum lugar. Nesse sentido é um problema gigantesco que o Lula contratou. Ele precisa fazer os juros caírem. E isso tem que ser rápido, senão o mercado vai girar em falso”, avalia.

Esse “nó” também envolve mudanças no mercado de trabalho movidas durante o governo Temer e um movimento de “uberização” dos empregos. Há um dinamismo no mercado de trabalho que tornou a relação entre juros e mercado de trabalho mais complexa.

Não dá para abaixar a taxa de juros à força. A solução agora caberá ao governo do político que for eleito presidente da República em outubro e passa por três frentes, explica Perfeito: ajustar os orçamentos das famílias, das empresas ou do governo – sendo a última apontada como a alternativa mais eficaz.

“Temos a solidez de que juros altos permanecem altos por mais tempo, porque o fiscal não se resolve e isso prejudica o investimento. Não tem muito o que fazer se ele [Lula] não atacar o primeiro problema. O que mais decepciona é que a inflação seguiu pressionada e os alimentos foram a bola da vez desse terceiro mandato do Lula. Curiosamente, com um presidente que tem uma percepção de gastos sociais maiores. Então, teoricamente, é essa política toda que auxilia o inflacionamento da economia, prejudica justamente aqueles que ele diz que mais quer ajudar. É um ponto muito negativo." -- Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e Fernando Haddad, agora candidato do partido ao governo de São Paulo
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e Fernando Haddad, agora candidato do partido ao governo de São Paulo
Foto: Ricardo Stuckert

O que melhorou?

De maneira geral, houve crescimento econômico no Brasil e ‘Lula 3’ também foi marcado por avanços significativos, apontam os especialistas:

  • O arcabouço fiscal foi a grande entrega que o petista deixa como legado, mesmo que em comparação a outros mandatos em que esteve à frente da presidência;
  • Outro ponto citado é o da isenção do Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil por mês;
  • Uma maior empregabilidade e aumento de renda também refletem em uma menor desigualdade social;
  • Em 2025, o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).
Fonte: Portal Terra
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