Colapso de geleira, mais de 1,3 mil desaparecidos: o que se sabe da avalanche devastadora no Nepal
Equipes de resgate continuam nesta quinta-feira (27) os trabalhos de busca para localizar mais de 1,3 mil pessoas desaparecidas após uma gigantesca avalanche ao longo da fronteira entre o Nepal e a China. Pelo menos 180 mortes já foram confirmadas e mais de 500 turistas estrangeiros estão entre os desaparecidos.
O colapso de uma geleira no Himalaia provocou uma violenta enxurrada de água e lama que devastou áreas do Nepal e do Tibete, deixando ao menos 180 mortos e mais de 1.300 desaparecidos, incluindo centenas de turistas. O fenômeno gerou um abalo sísmico de magnitude 5,2 e destruiu vilarejos, pontes e hidrelétricas. Equipes locais realizam resgates de emergência com apoio aéreo, enquanto autoridades monitoram áreas isoladas sob o alerta de novas inundações.
Segundo dados oficiais, que permanecem provisórios, a enxurrada que atingiu a região, arrastando inúmeras casas e seus moradores, tirou a vida de 177 pessoas no lado nepalês e de outras três no território chinês vizinho do Tibete. A volumosa massa de água e lama foi desencadeada pelo colapso de uma geleira a 5,2 mil metros de altura, um evento tão violento que provocou um terremoto de magnitude 5,2 e diversos deslizamentos de terra, de acordo com o Serviço Geológico dos EUA (USGS).
O fenômeno teria provocado o bloqueio temporário de um rio de montanha, formando uma barragem natural que acabou rompendo pouco depois, liberando uma onda devastadora de água, lama e pedras.
No Nepal, a torrente percorreu o vale do rio Trishuli, no distrito de Nuwakot, ao norte de Katmandu, e o vale de Bhotekoshi, a leste da capital. Vinte e quatro horas depois do fenômeno na manhã desta quinta-feira, as autoridades nepalesas não tinham informações sobre o paradeiro de 823 pessoas, segundo a agência de gestão de emergências do país. Entre os desaparecidos estão 517 cidadãos estrangeiros.
Do outro lado da fronteira, a mídia estatal chinesa informou que 558 pessoas, das quais 260 são estrangeiras, ainda não foram encontradas, depois que "torrentes de lama" soterraram o porto de Gyirong.
Destino de turistas do mundo inteiro
Localizada no coração do Himalaia, essa região do Nepal é um destino popular para praticantes de trilhas e alpinismo de todo o mundo. Muitos deles viajam para escalar o Monte Everest.
Imagens de vigilância verificadas pela AFP mostram um grande edifício de vários andares e várias pessoas tentando fugir, antes de serem subitamente engolidas pelas águas em alta velocidade. Outro vídeo, também verificado, mostra uma onda gigantesca, semelhante a um tsunami, desabando sobre um estacionamento à beira do rio que, momentos antes, estava tranquilo. Ônibus e um prédio são arrastados com uma força devastadora.
भोटेकोसी नदी रसुवामा तिब्बत तर्फबाट ठुलो बाढी प्रवेश गरेकोले अर्को सूचना नआउँदासम्म त्रीशुली नदीको तटिय क्षेत्रका जिल्लाहरु नुवाकोट, धादिङ, चितवन, गोरखा लगायतका स्थानहरूमा उच्च सतर्कता सहित सुरक्षित स्थानमा रहन अनुरोध छ। pic.twitter.com/Zun6icZZCM
— Nepal Police (@NepalPoliceHQ) August 26, 2026
"Meu irmão mais velho está entre os desaparecidos", disse Subash Khatani à AFP, depois de ir ao Hospital Bir, em Katmandu, na esperança de obter notícias. "Ainda estamos procurando."
Em manifestação rara, Xi Jinping comenta tragédia
O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, estava a caminho das áreas atingidas pelo desastre nesta quinta-feira. "Os esforços para avaliar os danos humanos e materiais causados pelas inundações estão em andamento", declarou seu gabinete durante a noite, pedindo que os cidadãos deem "apoio financeiro" para as operações de socorro.
O exército informou que voos de helicóptero já haviam evacuado 105 pessoas e lançado, por via aérea, suprimentos médicos e ajuda humanitária de emergência nas áreas afetadas. As aeronaves tentam alcançar áreas isoladas, enquanto estradas cortadas e novos riscos de deslizamentos dificultam a chegada das equipes de emergência. As autoridades emitiram ordens de evacuação ao longo do vale do rio Bhote Koshi.
Em um gesto raro, o presidente chinês, Xi Jinping, manifestou-se logo após o desastre. "A prioridade máxima é mobilizar todos os recursos para buscar e resgatar os desaparecidos, evacuar e realocar moradores em risco, prestar atendimento médico imediato aos feridos e minimizar o número de vítimas", declarou ele.
"Aldeias e mercados inteiros foram varridos do mapa", disse David Fisher, representante no Nepal da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC).
Não há brasileiros entre as vítimas
Entre os estrangeiros desaparecidos estão 178 indianos, 100 chineses, 65 americanos, 53 ucranianos, 51 malaios, 33 britânicos, 25 canadenses, 15 australianos e 12 israelenses, segundo o Conselho de Turismo do Nepal. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil indicou não ter informações sobre cidadãos brasileiros entre as vítimas da tragédia.
A operadora de trekking nepalesa Himalayan Glacier informou à AFP que não tinha notícias de um de seus grupos, composto por 47 pessoas. "Nossas equipes estão visitando os hospitais para onde as vítimas estão sendo levadas", disse seu diretor, Sanket Pandey.
Assim como muitos outros líderes políticos, o Dalai Lama ofereceu suas "orações" pelas vítimas na quinta-feira e suas "sinceras condolências a todos os que sofrem e foram afetados pela tragédia". Em um comunicado, o líder espiritual tibetano no exílio também expressou a esperança de que medidas sejam tomadas para "evitar que tais desastres ocorram novamente".
Alerta para segunda enxurrada
Um relatório técnico inicial divulgado pelo governo do Nepal na quinta-feira alerta para uma possível segunda onda. "O lago que se formou (após a avalanche) no rio ainda não foi totalmente drenado", alerta o documento, acrescentando que a "possibilidade de uma nova enxurrada (...) não pode ser imediatamente descartada".
A tragédia também devastou a infraestrutura local. Nove usinas hidrelétricas, além de 19 pontes, foram destruídas pela enxurrada.
Inundações e deslizamentos de terra são comuns durante a estação das monções de verão (junho a setembro) no Nepal, no Tibete e em toda a Ásia Meridional. Segundo cientistas, as mudanças climáticas estão aumentando a intensidade e a frequência destes eventos.
O jornal francês Le Figaro destaca que o Nepal perdeu quase um terço de suas geleiras nas últimas três décadas e o ritmo de derretimento acelerou nos últimos anos.
Com AFP
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