Candidatos a presidente apresentam propostas limitadas em tecnologia, que não se resume à IA, dizem especialistas
Propostas para a tecnologia precisam ser aprofundadas e pensadas para o longo prazo, segundo especialistas
Os candidatos a presidente da República apresentaram propostas limitadas em tecnologia, na visão de especialistas ouvidos pelo Terra. Há falta de estratégia para pontos considerados estruturais e de potencial econômico, com os postulantes ao cargo, em geral, avaliando que a tecnologia seria limitada à inteligência artificial, o que seria um erro.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
“Acho que não teve essa preocupação de pegar a tecnologia, fatiar em camadas e falar, ‘eu quero dominar essa camada’, que é a camada de infraestrutura, que é onde a gente precisa ser soberano”, disse ao Terra Mônica Magalhães, cientista da computação e pesquisadora de tecnologias emergentes. O professor Marcos Barreto, da Fundação Vanzolini e Poli-USP, concorda: “A gente vê muita coisa de tecnologia digital, e acho que tem um outro mundo enorme, no mundo que a gente chama de tecnologia, a prioridade não está aqui mapeada”.
A partir de hoje, o Terra começa uma série especial destrinchando os planos de governo dos candidatos a presidente. O primeiro tema é tecnologia. A reportagem pediu para especialistas avaliarem as
Soberania tecnológica
Entre as propostas apresentadas pelos candidatos, os pontos em comum são a soberania tecnológica, mais uso da IA, digitalização de serviços públicos e ampliação do acesso à internet.
Mônica Magalhães afirma que é necessário investir em computação quântica com soberania para no Brasil "não ficar na mão de outros governos e de outros países, que vão desenvolver no futuro soluções com essas tecnologias, e vender para a gente coisas que são para a telecomunicação, saúde, infraestrutura básica”.
Na opinião da pesquisadora, o Estado não precisa competir com o setor privado em tecnologia. “O setor privado tem a camada de serviços para entregar e tem coisas que são soluções que o governo tem que legislar, tem que regular, mas não necessariamente competir. Energia é algo que é infraestrutura, então a gente precisa dominar e ser soberano no nosso território nacional. Isso tem que estar no radar”, diz.
Sobre educação digital, a especialista diz que, para além de estimular o uso de IAs, é preciso ter preocupação com o letramento digital e cibersegurança. “A gente sabe que a gente tem uma preocupação muito grande hoje com a população, que ela é pouco digitalizada na sua educação digital. Ao mesmo tempo, a gente precisa ajudar as pessoas a fazerem essa transição para essas novas competências digitais, é preciso protegê-las. Deveria ser pauta de todos a parte ética e regulatória”.
Na avaliação de Magalhães, a regulamentação do uso da IA, proposta por grande parte dos candidatos à Presidência, é o primeiro passo para um projeto de segurança maior, e é estruturante para o avanço tecnológico no Brasil.
“Essa camada de infraestrutura, quanto mais a gente terceiriza isso, mais frágil fica, porque não temos controle de quem está acessando a infraestrutura. É por isso que é importante a gente construir essa camada aqui e a gente dominar, a gente ser dono disso, para que a gente não tenha que ficar fazendo integração, conectando, fazendo uma colcha de retalhos para que a nossa tecnologia brasileira possa ser sustentável”, explica.
O que faltou?
Para Marcos Barreto, o país deveria discutir outras áreas com potencial econômico como biotecnologia, desenvolvimento de medicamentos e computação quântica.
Na avaliação do professor, essas tecnologias podem abrir oportunidades para o Brasil em setores nos quais o país já possui recursos e vantagens competitivas.
“A biotecnologia talvez seja a nossa melhor opção, porque a gente tem muitas matérias-primas aqui para isso”, afirma Barreto. De forma abrangente, o professor explica que o Brasil é capaz de produzir desde “cápsulas para aumentar a vida do tomate” até medicamentos como as canetas emagrecedoras, mas o que falta é concentrar os esforços para investir nessas áreas tecnológicas.
O professor também cita a computação quântica como uma área que deveria receber mais atenção. Para ele, o Brasil ainda pode aproveitar uma janela de oportunidade em tecnologias que estão em desenvolvimento e que podem transformar diferentes setores da economia.
“Outra coisa muito esquecida é a computação quântica, eu acredito que isso vai virar o mundo e pode ser um trem que a gente ainda consiga pegar. Não adianta produzir, tem que produzir para vender. Não é sobre a tecnologia, é sobre quanto de dinheiro e renda a gente consegue gerar com aquilo”, comenta.
O professor ressalta, porém, que o investimento em tecnologia não deveria ser analisado apenas pela capacidade de desenvolver uma inovação. Para ele, o plano precisa considerar também a capacidade de transformar esse conhecimento em atividade econômica.
Mônica Magalhães acredita que o desenvolvimento de infraestrutura para que essas propostas sejam levadas adiante é o fundamental, e não há detalhamento suficiente sobre como isso será feito.
“Mesmo quando a gente fala de data center, a gente tem que pensar também em fontes de energia renováveis, sustentáveis, e não as fósseis. Então, eu também senti um pouco da falta desse olhar de preocupação com energia verde, nem só a energia, mas sustentabilidade geral quando a gente fala de tecnologia”, opina.
A avaliação é que o país não precisa necessariamente produzir todas as tecnologias utilizadas internamente, mas deve garantir condições para que empresas brasileiras consigam desenvolver soluções próprias. Os data centers e outras estruturas de alto custo poderiam funcionar como uma base para pequenos e médios empreendedores, por exemplo.
“Um pequeno empresário não investe, não tem como construir um data center. Mas ele tem como plugar num data center fornecido pelo Estado. Então, acho que não teve esse olhar e essa preocupação de fatiar tecnologia em camadas, ficou muito genérico”, diz Magalhães.

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