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1º data center de IA na Amazônia é alvo de inquérito do MP e levanta preocupação ambiental

Chamada de BEL1, instalação terá capacidade inicial de 7,5 MW e poderá chegar a 100 MW; promotoria de Barcarena aponta possíveis impactos

17 ago 2026 - 04h58
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Belém, no Pará, deve receber o primeiro data center voltado à inteligência artificial (IA) da Amazônia. Chamado de BEL1, o empreendimento da Elea Data Centers tem previsão de entrar em operação no segundo trimestre de 2027, mas já é alvo de um inquérito civil instaurado pelo Ministério Público do Pará (MPPA) para apurar a legalidade da instalação e os possíveis impactos ambientais e sociais na região.

O projeto será instalado na área portuária de Miramar, no bairro do Barreiro, em Belém. Segundo a empresa, a estrutura terá capacidade inicial de 7,5 megawatts (MW), com possibilidade de expansão para até 100 MW.

O inquérito foi instaurado pela 1ª Promotoria de Justiça de Barcarena para apurar a legalidade da instalação e possíveis impactos ambientais e sociais no município, que faz limite com Belém. Entre os pontos investigados estão os efeitos sobre comunidades tradicionais, ribeirinhos e pescadores que vivem nas ilhas próximas ao local do empreendimento.

Para o MPPA, há preocupação com possíveis impactos relacionados ao aumento da temperatura, consumo de água, demanda energética e poluição sonora. A Promotoria afirma que estudos internacionais apontam a possibilidade de formação de ilhas de calor nas proximidades de grandes data centers.

“Comunidades tradicionais residentes nas ilhas próximas, ribeirinhos e pescadores, já vulnerabilizados economicamente por condições históricas, estarão suscetíveis a impactos negativos decorrentes das atividades do empreendimento”, afirmou o promotor de Justiça Márcio Maués.

O MPPA também aponta que, até o momento, não foram divulgados estudos técnicos nem realizadas consultas prévias às comunidades que podem ser afetadas. A preocupação é que eventuais alterações ambientais prejudiquem modos de vida, atividades de subsistência e aspectos culturais dessas populações.

Como um data center pode afetar o ambiente?

Data centers são estruturas que concentram milhares de servidores para armazenar e processar informações. Como os equipamentos funcionam continuamente e consomem grandes quantidades de energia, também geram calor, que precisa ser retirado por sistemas de refrigeração.

Para Patrick Galletti, CEO do Grupo RETEC, o risco de formação de ilhas de calor precisa ser analisado considerando as características específicas da região amazônica.

“Quando falamos de data center, precisamos lembrar que estamos falando de uma infraestrutura que funciona 24 horas por dia e gera muito calor. São milhares de equipamentos processando dados continuamente, e praticamente toda a energia elétrica utilizada acaba se transformando em calor que precisa ser retirado do ambiente”, afirma.

Segundo o especialista, o impacto térmico não é necessariamente uniforme e depende de fatores como o tamanho da instalação, a tecnologia empregada e a forma como o calor é dissipado. No Pará, porém, há uma preocupação adicional por se tratar de uma região quente, úmida e com forte presença de rios e comunidades ribeirinhas.

“Não dá para analisar apenas a temperatura do prédio. É preciso estudar o microclima ao redor, a captação e o consumo de água, a forma de resfriamento, o descarte térmico e a influência sobre os corpos hídricos”, diz Galletti.

A especialista em IA, comportamento e ética Laura Hauser, autora do livro Saber Conversar na Era da IA, também aponta o impacto ambiental como uma das principais questões relacionadas à expansão dessa tecnologia.

Segundo ela, o projeto BEL1 precisa ser analisado não apenas como um investimento tecnológico, mas como uma infraestrutura com efeitos energéticos, territoriais e ambientais. Entre os pontos de atenção estão o calor produzido pelos equipamentos, o consumo indireto de água, a drenagem e a impermeabilização do solo.

Hauser também chama atenção para a falta de uma legislação específica para data centers no Brasil. Embora existam normas ambientais, energéticas e de licenciamento que se aplicam a esses empreendimentos, ainda não há uma regulamentação nacional voltada às características específicas de grandes estruturas de processamento de dados.

Galletti avalia que a ausência de critérios específicos pode dificultar uma análise integrada dos impactos.

“Podemos discutir consumo de água em uma esfera, fornecimento de energia em outra e licenciamento ambiental em uma terceira, sem necessariamente existir uma análise integrada de quanto aquela operação representa para o território ao longo dos próximos 10, 20 ou 30 anos”, afirma.

Quais são os riscos e os benefícios?

A instalação de um data center pode ampliar a infraestrutura digital da região Norte, facilitar o acesso a serviços de computação em nuvem e inteligência artificial e estimular investimentos e a formação de profissionais especializados.

Por outro lado, especialistas apontam que o empreendimento pode gerar alta demanda por energia e água, produção contínua de calor, resíduos, ruídos e impactos sobre o território. Como são estruturas altamente automatizadas, também podem gerar relativamente poucos empregos diretos em comparação com o tamanho do investimento.

Para Hauser, a instalação de uma infraestrutura desse porte precisa considerar quem será beneficiado e quais serão os custos para a população local. Ela defende que sejam avaliados os impactos sobre comunidades próximas e as possíveis contrapartidas para o estado, como empregos, formação profissional, pesquisa e atendimento a empresas locais.

Galletti ressalta que o problema não está necessariamente na instalação de data centers na Amazônia, mas nas condições em que esses projetos são implantados.

“A pergunta não deveria ser apenas se podemos instalar data centers na Amazônia. A pergunta é em quais condições vamos instalar. Desenvolvimento tecnológico e preservação ambiental não precisam ser incompatíveis, mas essa compatibilidade depende de projeto, fiscalização, transparência e compromisso das empresas desde o primeiro dia”, afirma.

O que diz a empresa?

"A Elea Data Centers informa que, até a presente data, não foi formalmente notificada pelo Ministério Público do Estado do Pará a respeito do tema. A companhia mantém as portas abertas ao poder público e permanece à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários, participar de reuniões e contribuir tecnicamente com o debate.

Sobre os questionamentos ambientais, o data center BEL1 está sendo desenvolvido em Belém, em área industrial privada vizinha à Subestação Miramar, e observa integralmente a legislação ambiental brasileira e as exigências dos órgãos competentes. O projeto avança atualmente nas etapas de projeto e design que antecedem a construção, quando são formalizadas as solicitações de autorização junto a esses órgãos.

Do ponto de vista ambiental, as escolhas de concepção do data center BEL1 priorizam a eficiência no uso de água e de energia. A refrigeração é feita por Expansão Direta (DX), sistema que funciona em circuito fechado com fluido refrigerante e não possui torre de evaporação. É um sistema com zero uso de água no processo de refrigeração do data center. No local, o uso de água fica restrito às áreas administrativas e sanitárias, como em qualquer edifício comercial. Toda a energia vem de fontes renováveis certificadas por I-RECs (Certificados Internacionais de Energia Renovável), por meio de contrato de compra de energia (PPA). O empreendimento adota as melhores tecnologias disponíveis e as melhores práticas de sustentabilidade aplicáveis a projetos dessa natureza.

A Elea Data Centers reafirma seu compromisso com a transparência e com o diálogo com a sociedade, o poder público, universidades e centros de pesquisa ao longo do desenvolvimento do projeto."

Fonte: Portal Terra
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