Milhares protestam em Madri contra crise habitacional
Milhares de pessoas protestaram em Madri contra a crise habitacional e a alta dos aluguéis na Espanha, exigindo congelamento de preços e proteção contra despejos. O ato foi impulsionado pelo despejo de uma idosa de 87 anos que vivia no mesmo imóvel há sete décadas. Agravada pelo turismo e pelo déficit de moradias, a crise gerou forte pressão popular, levando o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez a negociar um decreto-lei urgente com medidas para regulamentar o setor imobiliário.
Manifestantes exigem do governo medidas para conter alta dos aluguéis e proteger inquilinos. Protesto é desencadeado por despejo de idosa da residência onde viveu por décadas.Dezenas de milhares de pessoas foram ao centro de Madri neste sábado (26/09) para protestar contra a crise habitacional na Espanha.
As reivindicações dos manifestantes incluem a renovação automática dos contratos de aluguel por tempo indeterminado, maior proteção contra despejos, congelamento dos aluguéis e uma reforma da legislação imobiliária para regulamentar de forma mais rigorosa os contratos de prazo fixo.
As autoridades estimaram que cerca de 25 mil participaram do protesto contra a crescente crise habitacional da Espanha. Já o Sindicato dos Inquilinos de Madri, organizador do ato, afirmou que foram mais de 300 mil.
Após o encerramento da manifestação, centenas de pessoas montaram um acampamento de protesto e passaram a noite na praça Porta do Sol, no centro da cidade.
A marcha pelo centro da capital espanhola foi convocada após uma mulher de 87 anos, Maricarmen Abascal, ser despejada do apartamento onde viveu por sete décadas.
O caso evidencia a crescente pressão sofrida por inquilinos de longa data nas principais cidades da Espanha, onde os preços dos aluguéis dispararam nos últimos anos.
Resposta do governo
Analistas afirmam que o crescimento populacional impulsionado pela imigração tem aumentado a pressão sobre a já limitada oferta de moradias nas cidades.
Um outro fator é o turismo. Os aluguéis de curta duração por meio de plataformas como o Airbnb se tornaram altamente controversos na Espanha.
No ano passado, o Banco da Espanha estimou um déficit de 550 mil moradias em todo o país. Especialistas calculam que o número atual chegue a 700 mil.
Essa crise habitacional tem alimentado o descontentamento popular a pouco menos de um ano das eleições gerais de 2027.
Em resposta aos protestos, o governo do premiê Pedro Sánchez está trabalhando para aprovar um novo decreto-lei sobre habitação já na próxima semana. O decreto teria força legal imediata, mas precisaria ser ratificado pelo parlamento em até 30 dias. O governo socialista está negociando com diversos partidos para obter a aprovação necessária.
Despejo de idosa desencadeou protesto
O protesto foi desencadeado pelo dramático despejo de Abascal, na quarta-feira, da residência onde viveu durante décadas.
A idosa foi recebida por apoiadores quando foi retirada de sua casa numa maca e colocada numa ambulância.
"Estamos aqui porque a moradia é um problema que já afeta toda a sociedade, pessoas de todas as idades e classes sociais", disse a manifestante Dora Garcia, uma enfermeira de 55 anos. "Não podemos continuar assim. Moradia é um direito, e não o estamos tendo", afirmou.
Segundo a imprensa espanhola, o pai de Abascal alugou o imóvel, localizado no bairro nobre de Retiro, em 1956. Após a morte dos pais, ela continuou morando no apartamento, que à época estava sujeito a um controle de aluguel.
Em 2018, o edifício mudou de proprietário, e a unidade foi adquirida pela gestora de investimentos Urbagestion, que, segundo a associação de inquilinos, elevou o aluguel de 500 euros (quase R$ 3 mil) para 2.650 euros (mais de R$ 15 mil).
Antes disso, Abascal havia tido a oportunidade de comprar o apartamento, mas não tinha recursos financeiros para fazê-lo.
Posteriormente, o fundo reduziu o aluguel para 1.650 euros (quase R$ 10 mil), mas ainda assim ela não tinha condições de pagar.
Os tribunais já haviam bloqueado o despejo em três ocasiões anteriores, e a ampla cobertura da imprensa transformou seu caso num símbolo da crise habitacional.
"Toda essa situação relacionada à moradia é de cortar o coração. Maricarmen foi, de certa forma, a gota d'água que desencadeou essa indignação social, mas enfrentamos esse problema há muito tempo", disse o manifestante Simón de la Riva, um professor de 43 anos.
as (AP, AFP, DPA)
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