"Made in China" põe pressão sobre indústria da Alemanha
Dez anos depois após Pequim lançar plano de modernização, gigante asiático pode ultrapassar o "país dos engenheiros". Mas uma fábrica chinesa de baterias mostra como ambos podem se beneficiar.Em um galpão com mais de cem metros de comprimento, incontáveis robôs zumbem. Por toda parte piscam bipes e luzes. Apenas uma dúzia de empregados circulam por ali, e uma grande parte do trabalho está a cargo de robôs de alta performance.
Jornalistas raramente têm acesso à fábrica de alta tecnologia vinda da China. Quando têm, as instruções são claras: nada de fotos, smartphones são lacrados e até mesmo curtas gravações de áudio exigem a aprovação do porta-voz. Placas em chinês, inglês e alemão alertam que fotografar é estritamente proibido.
A fábrica não está na China, mas em Arnstadt, uma pequena comunidade no estado da Turíngia, no leste da Alemanha. Ela pertence à CATL, líder mundial chinesa em baterias para carros elétricos. Todos os anos, são ali produzidas 14 GWh de baterias - o suficiente para pelo menos 200 mil veículos elétricos.
Entre os clientes estão montadoras europeias. Para a CATL, produzir diretamente na Europa encurta as rotas de transporte das baterias pesadas e inflamáveis, além de evitar riscos geopolíticos, como as tarifas.
Do "Made in Germany" ao "Made in China"
Mas a fábrica da CATL também simboliza a transformação das relações comerciais da China com a Alemanha e a União Europeia (UE). Por décadas, o selo "Made in Germany" foi considerado na China um modelo de padrões modernos de produção. Já nos anos 1980, a joint venture da Volkswagen em Xangai impressionava os parceiros chineses.
Duas décadas depois, a Alemanha apostaria na produção inteligentemente conectada para aumentar produtividade e eficiência sob o conceito de Indústria 4.0.
A indústria manufatureira chinesa já buscava há muito deixar para trás a imagem de fornecedora de produtos baratos. Quando a Alemanha, conhecida como o país dos engenheiros, buscou se aproximar da China, o gigante asiático viu uma oportunidade.
Em 2014, os dois países firmaram acordos de cooperação, e empresários chineses ficaram fascinados pelas fábricas-modelo da Siemens. Pouco tempo depois, em maio do ano seguinte, Pequim apresentou o plano estratégico "Made in China 2025" para modernizar a própria indústria e virar líder mundial em setores-chave.
Ascensão tecnológica
Hoje, a China alcançou este objetivo em muitas áreas ou, pelo menos, se tornou uma concorrente de peso. Oliver Wack, da Associação Alemã de Fabricantes de Máquinas e Instalações (VDMA), aponta para a crescente pressão competitiva.
"Em 2018, fabricantes chineses de máquinas entregaram bens no valor de 20 bilhões de euros para a UE. Em 2024 foram 40 bilhões, e este ano, talvez 50 bilhões," diz. Em contrapartida, ele pondera, a Alemanha ainda exporta mais máquinas para a China do que o contrário.
Em outros setores, como energia verde, eletromobilidade e tecnologia ferroviária, a pressão é ainda maior. Carlo Diego D'Andrea, da Câmara de Comércio da UE em Xangai, afirmou em entrevista à emissora pública da TV alemã ARD que a capacidade chinesa de energia solar e eólica supera a de todos os outros países juntos.
Em drones, a China domina o mercado mundial com 70% de participação. A situação é semelhante para carros elétricos.
Investimento pesado
Logo após o anúncio da agenda "Made in China 2025", há uma década, Pequim adotou diversas medidas para impulsionar a modernização da indústria. Empresas nacionais foram incentivadas a adquirir tecnologias de ponta, ou até empresas inteiras, da Europa.
A compra da tradicional fabricante alemã de robôs Kuka pela empresa chinesa Midea, em 2016, foi o ponto culminante. O Instituto Mercator para Estudos sobre a China já alertava então que a transferência de tecnologia poderia trazer ganhos de curto prazo, mas riscos de longo prazo para a Alemanha e a Europa.
Clas Neumann, então vice-presidente da empresa de tecnologia SAP, discordava em 2016. Para ele, a China não poderia ultrapassar a Alemanha em alguns setores a curto prazo. "Leva ao menos 20 a 30 anos para dominar esses processos e tecnologias."
Mas a China investiu na missão: os gastos com pesquisa e desenvolvimento subiram de 1,37% do PIB em 2007 para 2,56% em 2022. O financiamento veio majoritariamente de subsídios estatais, quadruplicados entre 2014 e 2024, e lucros empresariais. Apenas os EUA gastam mais em pesquisa atualmente.
Subsídios insustentáveis
Camille Boullenois, especialista em China da consultoria Rhodium Group, avalia que os subsídios massivos permitiram à China reduzir a dependência da tecnologia ocidental e conquistar participação de mercado.
Mesmo em áreas onde ainda está atrás, como o setor aeroespacial ou de semicondutores avançados, o país deverá alcançar estes objetivos em poucos anos, segundo ela.
Mas a especialista considera os subsídios como insustentáveis, argumentando que a política industrial da China levou a enorme desperdício e a um crescimento econômico mais fraco. O excesso de dinheiro em tecnologias-chave negligenciou reformas estruturais necessárias, o que explica o fraco consumo interno.
"O sistema econômico chinês é altamente orientado à produção. As empresas tendem a investir demais, fazendo com que a capacidade produtiva supere a demanda interna. Esse excedente inunda o mercado externo e representa um desafio para empresas europeias."
Ao mesmo tempo, a cooperação pode ser lucrativa quando empresas chinesas produzem localmente na Europa. "Mesmo com subsídios e vantagens de custo, a UE tem instrumentos para garantir concorrência justa."
A fábrica de baterias da CATL em Arnstadt é um exemplo. Atualmente, apenas cerca de 10% dos mais de 1,7 mil funcionários vêm da China.
Geração de ganhos locais
A empresa também coopera com universidades e câmaras de comércio locais para formar jovens talentos. A fábrica tem ainda um centro de treinamento, onde cerca de 20 aprendizes estudam profissões de interesse para o setor, como mecatrônica.
O prefeito de Arnstadt, Frank Spilling, elogia: "Valor agregado absoluto! Os jovens não precisam mais ir embora. Podem iniciar uma formação aqui. É a melhor coisa que poderia nos acontecer." Fornecedores também já se instalaram na região.
Logo ao lado da fábrica, fica um centro de inovação e tecnologia de baterias, onde engenheiros da CATL e cientistas alemães pesquisam juntos o inchaço de baterias, para prolongar a vida útil das células.
Roland Weidl, diretor do centro de pesquisa, disse à DW que a cooperação "é uma situação de ganhos mútuos para a indústria, a pesquisa e a economia. Há aprendizado em todas as áreas". Ele associa o sucesso das empresas tecnológicas chinesas ao apoio contínuo de Pequim às tecnologias do futuro.
A continuidade é decisiva, porque a China tem grande vantagem na tecnologia atual de baterias, mas a Europa ainda pode alcançar as próximas gerações. A UE avalia atualmente estabelecer condições para empresas chinesas que desejem investir no seu território, incluindo regras claras para transferência de tecnologia, produção local e geração de emprego.