Joana do Espírito Santo, 116 anos, do Nordeste, pode ser a pessoa mais velha do Brasil e do mundo
Joana acompanhou momentos marcantes: as duas guerras mundiais, o avanço da tecnologia, a chegada da televisão, a corrida espacial e a redemocratização do Brasil.
Poucas pessoas no mundo chegam aos 116 anos e ainda carregam consigo lembranças vivas de um século de transformações. Joana do Espírito Santo, nascida em 2 de fevereiro de 1909, em Capela, no interior de Alagoas, é uma dessas raras sobreviventes do tempo. Moradora de Rio Largo, na Grande Maceió, ela se tornou referência de longevidade e inspira pela simplicidade de sua vida.
Embora não esteja reconhecida oficialmente nos registros internacionais, sua identidade confirma a idade. Caso fosse validada, Joana estaria entre as mais velhas do mundo.
Atualmente, o título pertence a Ethel Caterham, britânica que completou 116 anos em agosto. No Brasil, o reconhecimento está com Izabel Rosa Pereira, de Minas Gerais, que soma 114 anos.
Uma vida atravessada pela história
Ao longo da vida, Joana acompanhou momentos marcantes: as duas guerras mundiais, o avanço da tecnologia, a chegada da televisão, a corrida espacial e a redemocratização do Brasil. Ela viu o país mudar, mas sua realidade esteve ligada ao trabalho no campo. Viúva há cerca de quatro décadas, criou 21 filhos entre o corte da cana-de-açúcar, o plantio da mandioca e atividades como doméstica.
Com quatro filhos vivos atualmente, a aposentada tem mais de 20 netos e cerca de 50 bisnetos. A família numerosa segue reunida ao redor dela, especialmente da filha Maria de Lourdes, de 60 anos, que dedica os dias ao cuidado da mãe.
Cotidiano simples e cheio de fé
Joana tem hábitos comuns que marcam sua rotina: gosta de comer cuscuz com leite e não dispensa o café. Católicae devota, mantém o rosário sempre por perto e credita sua longevidade à fé. Quando perguntada sobre o segredo da vida longa, responde com simplicidade: "É a vontade de Deus".
Mesmo com problemas de audição e memória já fragilizada, encontra prazer em cantar. A voz suave entoa tanto canções religiosas quanto músicas populares, como "Acorda, Maria Bonita", hino da cultura nordestina. Muitas vezes, inverte o ciclo do sono: passa parte da madrugada cantando, o que deixa Lourdes sem dormir.
Histórias de luta e superação
A trajetória de Joana também foi marcada por tragédias. Em 2010, perdeu a casa nas enchentes que atingiram Murici, quando documentos, fotos e lembranças de uma vida inteira foram levados pela força do rio Mundaú. Passou dois anos em um ginásio antes de ser contemplada com uma moradia do Programa da Reconstrução.
Durante a pandemia de Covid-19, enfrentou o isolamento em casa. Com apenas um pulmão em funcionamento, permaneceu protegida dentro do quarto e foi a única da família a não contrair o vírus.
Ainda assim, guarda recordações de momentos felizes. Relembra com carinho sua festa de casamento, que durou três dias, e as romarias a Juazeiro. Também menciona com firmeza o trabalho árduo e a dedicação para criar os filhos.
Entre as mais longevas do mundo
A entidade LongeviQuest, especializada em supercentenários, lista nomes de pessoas mais velhas ao redor do mundo e reconhece outras brasileiras entre elas. Em Alagoas, além de Joana, destaca-se Yolanda Beltrão de Azevedo, de Coruripe, que tem 114 anos e aparece no 10º lugar do ranking mundial. No cenário nacional, a mineira Izabel Rosa Pereira, de 114 anos, é oficialmente considerada a mais velha do Brasil.
O caso de Joana do Espírito Santo, entretanto, segue sem reconhecimento oficial pela falta de documentos originais, destruídos nas enchentes. Mesmo assim, sua história se impõe como testemunho vivo de resistência, fé e força diante do tempo.