Flávio Bolsonaro diz que 'mundo do mal vai ser expulso do governo neste ano' durante Marcha para Jesus
O evento evangélico em São Paulo reuniu milhares de fiéis e virou palco de declarações fortes sobre a disputa eleitoral, contrariando a recomendação da organização
A tradicional Marcha para Jesus tomou as ruas da capital paulista neste feriado de Corpus Christi. O evento, considerado a maior manifestação evangélica do país, reuniu 33,8 mil pessoas na região central, de acordo com o monitoramento realizado pela USP. Embora a organização do encontro tivesse orientado os participantes e autoridades a evitarem discursos políticos por conta do ano eleitoral, o cenário nos trios elétricos ganhou contornos de campanha e evidenciou as articulações para os próximos pleitos.
Discursos políticos quebram orientação de neutralidade no evento evangélico
No trio elétrico principal, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro discursou de forma contundente ao público presente. Contrariando a expectativa de falas mais amenas para esta edição, ele subiu ao palco e inflamou os fiéis com declarações de forte teor ideológico. "Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil nesse ano. Em nome do senhor Jesus, amém", afirmou o parlamentar.
A fala do senador surpreendeu quem esperava uma postura focada no distanciamento de polêmicas. O líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e organizador do evento, apóstolo Estevam Hernandes, havia reforçado anteriormente que a programação oficial não abriria espaço para palanque econômico ou partidário. "Não haverá discursos políticos, eu tenho orientado a todos nesse sentido. O nosso programa será a fala do governador e do prefeito e uma oração por todos. Caso haja fala, não será com teor político", declarou o líder religioso antes do início da caminhada.
Alianças e distanciamentos marcam a presença de autoridades nos trios
A caminhada também serviu de termômetro para as relações políticas entre diferentes frentes. O ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, compareceu representando o governo federal pelo quarto ano consecutivo. Ele manteve uma postura discreta e evitou proximidade com o bloco de oposição no trio, composto pelo governador Tarcísio de Freitas, pelo prefeito Ricardo Nunes e pelos deputados Sóstenes Cavalcante e Guilherme Derrite. O ministro do STF, André Mendonça, também esteve presente no ato religioso.
Ao ser questionado sobre as declarações polêmicas feitas no evento, o ministro Jorge Messias adotou um tom pacificador e focado no respeito à liberdade de culto. "Hoje é um dia de louvar e adorar a Deus. Hoje não é dia de comício, eu vim aqui com esse espírito. As pessoas vão julgar o comportamento e a declaração de todos que estão aqui, não sou eu que vou julgar, Jesus nos ensinou a não julgar", pontuou o advogado-geral da União. Ele explicou ainda que o presidente não concorda com o uso da fé para fins eleitorais, mas que fez questão de telefonar para o organizador. "O presidente Lula não concorda com o uso da religiosidade do povo para fins políticos, mas ele me pede, me envia como demonstração de carinho de respeito que ele tem a deus e ao povo de Deus. Nesse ano ele ligou para o apóstolo Estevão, fez uma linda fala com o apóostolo, mostrou o carinho pelo povo de Deus", concluiu Messias.
Operação policial recente gera desconforto nos bastidores entre aliados
A Marcha para Jesus marcou ainda o primeiro encontro público entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas após uma operação da Polícia Civil que mexeu com os bastidores da direita paulista. A investigação apura possíveis irregularidades em um contrato de R$ 157 milhões da prefeitura com uma organização social, ligada à produção de uma obra cinematográfica que retrata a trajetória da família Bolsonaro. O governador de São Paulo minimizou os impactos políticos da ação policial e defendeu o trabalho técnico das forças de segurança estaduais. "A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações e operações. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Sempre vai ser assim. A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado", declarou Tarcísio de Freitas.
O senador Flávio Bolsonaro já havia se manifestado sobre o caso um dia antes, defendendo a legalidade das ações e negando qualquer relação ilícita. "Isto não tem absolutamente nada a ver com o filme", assegurou o parlamentar à imprensa. Apesar do clima de tensão velada entre as equipes de assessoria, a expectativa de aliados é que as arestas sejam aparadas até o início formal do período de campanha. A celebração seguiu até a Praça Heróis da FEB com apresentações de música gospel.
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