Fiocruz celebra os 40 anos de reintegração dos cientistas cassados pela ditadura
Ditadura perseguiu, silenciou e baniu centenas de cientistas brilhantes. Diáspora política da inteligência brasileira constitui um dos períodos mais sombrios da história do Brasil
Nesta quarta-feira, dia 5 de agosto, Dia Nacional de Saúde e data de nascimento do sanitarista Oswaldo Cruz, uma cerimônia em frente ao Castelo da Fiocruz, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, vai homenagear também os 40 anos da reintegração dos cientistas da instituição que foram cassados pela ditadura militar.
Em 1º de abril de 1970 foi publicado no Diário Oficial da União o Ato Institucional Nº 5 (AI-5). Entre outras medidas de exceção, o regime militar cassava os direitos políticos e demitia sumariamente dez dos maiores cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). O episódio, que o entomologista Herman Lent imortalizou com o nome de "O Massacre de Manguinhos", não foi um excesso burocrático ou um ponto fora da curva; foi o ápice de uma política deliberada de asfixia, perseguição e desmonte do pensamento autônomo e estratégico nacional.
A projeção de um 'Brasil Grande', moderno e tecnocrático, propagandeada pela ditadura militar, caminhava lado a lado com a eliminação deliberada da autonomia intelectual na ciência, na cultura, na educação e na sociedade em geral. Não se tratava de um desvio de conduta isolado dos porões do regime, mas de uma estratégia centralizada e planejada pela própria cúpula do poder.
Figuras como o ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, e o ministro da Saúde, Francisco de Paula da Rocha Lagoa, operavam os tentáculos de um Estado que não admitia uma ciência soberana ou uma universidade livre das correntes do regime. Ao decepar os braços da pesquisa científica para enquadrá-la ideologicamente, os generais e seus ministros impuseram ao país um atraso cujos reflexos na dependência tecnológica e na soberania nacional são sentidos até os dias de hoje.
Perseguições em Manguinhos começaram antes dos decretos de 1970
O ambiente de perseguição no campus de Manguinhos começou muito antes dos decretos de 1970. Os anos que antecederam o golpe final foram marcados por um cotidiano dramático de assédio e terror psicológico institucionalizado. Sob a gerência de interventores alinhados ao regime, o mérito acadêmico foi substituído pela suspeita ideológica. Pesquisadores de prestígio internacional viram seus orçamentos serem zerados, suas correspondências científicas violadas e seus laboratórios vigiados. O clima de desconfiança era alimentado por inquéritos administrativos kafkianos, humilhações públicas em reuniões e ameaças veladas que minavam a saúde mental e física dos pesquisadores.
Nesse cenário de asfixia, a figura do hematologista Walter Oswaldo Cruz — um dos pilares da ciência brasileira e filho do patrono do Instituto, Oswaldo Cruz — torna-se um símbolo doloroso. Walter assistiu de perto ao início da demolição do Templo da Ciência fundado por seu pai. As pressões políticas brutais e o cerceamento de suas condições básicas de trabalho sabotaram suas pesquisas e cobraram um preço fatal. Sua morte precoce, em 1967, foi o prelúdio do colapso que estava por vir, privando o país de uma liderança científica fundamental antes mesmo do golpe final do AI-5.
Três anos após a partida de Walter, o regime desferiu o golpe de misericórdia contra a ciência nacional. O ato de 1º de abril de 1970 cassou e aposentou compulsoriamente os dez cientistas que formavam a espinha dorsal da pesquisa no Instituto. Entre eles estavam Haity Moussatché, Augusto Cid de Mello Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Fernando Braga Ubatuba, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e Tito Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque.
Demitidos e proibidos de trabalhar em instituições públicas
Com a cassação, eles foram demitidos sumariamente e proibidos de trabalhar em qualquer instituição pública, fosse ela federal ou estadual — uma brutal exclusão civil que os empurrou para o desemprego compulsório ou para o exílio forçado. Banidos abruptamente da instituição à qual haviam dedicado décadas de suas vidas, viram seus laboratórios, estudos em andamento e inestimáveis coleções científicas serem deixados para trás.
O rastro de destruição estendeu-se à próxima geração de cientistas: os estudantes e orientandos dos cassados foram proibidos de entrar na instituição, interrompendo abruptamente inúmeras carreiras promissoras. Para erradicar qualquer resquício de resistência, grande parte dos pesquisadores e técnicos que trabalhavam com os cassados nas divisões de pesquisa sofreram pressões severas, sendo forçados a se transferir para outros órgãos do Ministério da Saúde.
O ecossistema científico de Manguinhos foi desintegrado
No mês em que este artigo é publicado, completam-se 40 anos da cerimônia histórica de reintegração dos cientistas cassados pela Ditadura Militar. Naquela ocasião, o presidente da Fiocruz, sanitarista Sérgio Arouca imortalizou uma premissa fundamental:
"O maior inimigo do pensamento autoritário é o pensamento livre, porque, ao ser livre, ele se torna libertário.
O terror institucionalizado que esvaziou os laboratórios de Manguinhos não foi um caso isolado, mas a engrenagem visível de uma política nacional de asfixia da inteligência nas universidades e institutos de pesquisa. O modus operandi da cúpula militar e de seus ministros repetia-se com precisão de norte a sul do país: sob o pretexto de combater a "subversão", o regime mirava na desestruturação de núcleos de pensamento independente e soberano.
A violência contra a ciência brasileira manifestou-se de forma imediata após o golpe de 1964, adquirindo contornos literais de cárcere. Um dos símbolos mais brutais desse período inicial foi o Navio Raul Soares, uma embarcação transformada em prisão flutuante que permaneceu ancorada no porto de Santos. Nas celas úmidas daquele navio-prisão, o regime trancafiou mentes brilhantes, como o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, o farmacologista Boris Vargaftig e o fisiologista Thomas Maack.
Trajetórias brilhantes no exílio
Após a detenção, todos foram empurrados para o exílio, onde construíram trajetórias de grande destaque na comunidade científica internacional: Hildebrando tornou-se chefe da Unidade de Parasitologia Experimental e Vargaftig assumiu a chefia da Unidade de Farmacologia Celular, ambos no renomado Institut Pasteur, em Paris, na França, enquanto Thomas Maack consolidou-se como Professor Titular na prestigiada Cornell University Medical College.
A própria USP, como documenta o histórico Livro Negro da USP, sofreu um verdadeiro expurgo em suas cátedras, com cientistas e intelectuais de projeção internacional sendo varridos de seus laboratórios. Foi o caso do bioquímico Isaías Raw, peça-chave no desenvolvimento da biotecnologia nacional; do parasitologista Erney Camargo; de Michel Rabinovitch, referência em imunologia; e do parasitologista Luís Rey — todos membros (juntos com Luiz Hildebrando) do grupo de excelência em Parasitologia liderado por Samuel Pessoa na USP. Lado a lado com os "Dez de Manguinhos", esses pesquisadores compunham a vanguarda cientifica e sanitária de um país que ainda sofria profundamente com doenças negligenciadas. Ao expulsá-los, a ditadura militar interrompeu abruptamente o avanço da saúde pública brasileira.
É fundamental registrar também o caso da professora do Instituto de Química da USP, Ana Rosa Kucinski, militante política que, junto com seu marido, o físico Wilson Silva, desapareceu em 22 de abril de 1974. Ambos foram posteriormente assassinados pela repressão, segundo registra a Comissão da Verdade, na Casa da Morte em Petrópolis.
Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), nomes proeminentes como o do parasitologista Amílcar Vianna Martins foram cassados, destino compartilhado no Instituto Butantan pelos pesquisadores Sebastião Baeta Henriques e Olga Bohomoletz. Todos foram sumariamente afastados de suas funções e impedidos de dar continuidade às suas contribuições científicas vitais para o desenvolvimento da saúde pública nacional
Esse desmonte não poupou a física e as ciências exatas. O físico teórico Mário Schenberg — cujo brilhantismo era reconhecido mundialmente — foi preso e teve seus direitos políticos sumariamente cassados. Seguindo a mesma esteira de perseguição que sufocou a USP e a UFRJ, figuras como Jayme Tiomno, um dos maiores expoentes da física teórica no país, e sua esposa, a física experimental Elisa Frota Pessoa, foram severamente hostilizados e afastados de suas funções. O mesmo arbítrio abateu-se sobre o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) com o afastamento compulsório de José Leite Lopes, cassado em 1969 e forçado a trilhar o caminho do exílio.
A ofensiva contra a inteligência nacional também mirou as mentes que pensavam a estrutura social, econômica e educacional do Brasil. Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, os grandes arquitetos e [idealizadores da Universidade de Brasília](https://fundar.org.br/o-nascimento-da-unb/](https://fundar.org.br/o-nascimento-da-unb/), foram alvos prioritários. Darcy foi cassado e empurrado para um longo exílio, onde acabou ajudando a reformular universidades por toda a América Latina — uma inteligência brasileira colocada a serviço de outras nações porque o seu próprio país a rejeitava. Anísio Teixeira sofreu perseguições contínuas até sua morte trágica e misteriosa em 1971.
Nas ciências sociais e na economia, o golpe foi igualmente devastador. Fernando Henrique Cardoso, que anos mais tarde viria a ser presidente do Brasil, foi cassado e aposentado compulsoriamente pelo regime. O também sociólogo Florestan Fernandes — patrono da sociologia brasileira —, o filósofo José Arthur Giannotti e Bento Prado Júnior também foram afastados de forma impositiva da USP sob a égide do AI-5. Na economia, Celso Furtado, que havia idealizado a SUDENE e planejava as reformas de base para combater as desigualdades estruturais do país, foi um dos primeiros a ter seus direitos políticos suspensos em 1964. Já na geografia, Milton Santos acabou preso na Bahia e empurrado para o exílio, onde construiu uma carreira internacional brilhante em universidades de prestígio global, como a Sorbonne e o MIT.
Ao demitir, cassar, silenciar, prender e banir essa constelação de mentes brilhantes, a ditadura militar não apenas puniu indivíduos; ela sequestrou o futuro do Brasil, interrompendo projetos que visavam à emancipação do nosso povo. Essa diáspora política da inteligência brasileira constitui um dos períodos sombrios que jamais deverão ser esquecidos pelas próximas gerações.
Renato Cordeiro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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