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Estudo mostra que candidaturas 'outsiders' na política brasileira são um padrão e não um sinal de crise

Ao analisar a votação entre 2002 e 2022, pesquisadores descobriram que os candidatos "anti-sistema" não são um evento esporádico, nem tampouco um sinal de mudança no panorama político-eleitoral nacional. Ao contrário, são um padrão

11 mai 2026 - 10h36
(atualizado às 14h09)
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Entre 2002 e 2022, o Brasil teve 32 candidaturas presidenciais de outsiders. Outsiders são nomes que concorreram, às vezes mais de uma vez, fora da rota típica dos grandes partidos e que mobilizaram um discurso contrário à ordem política vigente ou ao governo estabelecido.

A ideia de que essas candidaturas antiestablishment representam uma força na política brasileira vem se disseminando na cobertura de imprensa, entre comentaristas políticos e em análises acadêmicas como sinal de mudança no padrão de disputa presidencial no país.

Porém, antes de considerar o surgimento ou o crescimento eleitoral de um candidato outsider como um sintoma de crise do nosso sistema político, é preciso analisar o padrão histórico dessas candidaturas. Foi isso o que fizemos. Ao analisar a votação entre 2002 e 2022, descobrimos que os outsiders não são um evento esporádico, nem tampouco são um sinal de mudança profunda no panorama político-eleitoral nacional. Ao contrário, são um padrão.

Nos vinte anos estudados, encontramos grande oscilação nesse tipo de candidaturas, resultante de condições conjunturais específicas. Mas alguns picos isolados passaram a ser lidos como tendência. Confundir eventos pontuais com trajetória ascendente é o principal equívoco das análises que projetam uma crise de representação permanente a partir de 2013.

Cenário "Pulp politics"

O cientista político norte-americano Glenn Richardson Jr. mostrou em Pulp Politics: How Political Advertising Tells the Stories of American Politics (2008) que a propaganda eleitoral americana recorreu às convenções audiovisuais da cultura popular para narrar a política de forma simples. Nesse modelo, campanhas transformam adversários em vilões de horror, ameaçadores, enquanto os candidatos são apresentados como heróis de thriller, protagonistas capazes de restaurar a ordem. Richardson chamou esse fenômeno de pulp politics.

O argumento vale além dos Estados Unidos. Quando candidatos outsiders mobilizam uma linguagem de ruptura com o sistema, exploram escândalos de corrupção e apresentam a eleição como um momento de salvação coletiva, passam a operar dentro da mesma gramática narrativa. A disputa deixa de ser apresentada como parte do funcionamento rotineiro das instituições e assume a forma de um acontecimento extraordinário, marcado pelo confronto entre adversários retratados como malfeitores e candidatos que se apresentam como íntegros e confiáveis.

Esse enquadramento, característico da pulp politics, pode produzir picos eleitorais expressivos. O problema é que ele também tende a distorcer a interpretação posterior dos dados, transformando efeitos associados a uma conjuntura específica em sinais aparentes de uma tendência estrutural permanente.

No caso brasileiro, 2006 e 2018 são os exemplos mais claros desse mecanismo. Em 2006, Heloísa Helena, dissidente expulsa do PT, canalizou o descontentamento da esquerda com o governo Lula e obteve quase 7% dos votos válidos.

Em 2018, o fenômeno foi mais complexo. João Amoêdo usou sua fortuna pessoal e um discurso liberal-tecnocrático para atrair eleitores desiludidos tanto com PT como com o PSDB, alcançando 2,5%.

Mas o caso mais emblemático foi o de Jair Bolsonaro. Ele se apresentou como alguém de fora do "sistema", apesar de ter uma longa trajetória institucional — 28 anos de mandato como deputado federal —, ainda que bastante obscura.

O que 2018 ofereceu foi uma janela conjuntural excepcional: a Operação Lava Jato trouxe a questão da corrupção para o centro do debate político e deslegitimou os principais partidos que haviam dominado a cena política desde os anos 1990. Não seria adequado, portanto, projetar as eleições de 2018 como destino, mas entendê-las como um evento grande e decisivo, porém não cumulativo.

Pico ou tendência?

Depois desse evento, consolidou-se uma leitura retrospectiva segundo a qual a vitória de Jair Bolsonaro teria coroado a escalada do voto antiestablishment. Como se a insatisfação com o sistema tivesse se acumulado ao longo de eleições sucessivas até transbordar naquele pleito.

A análise que fizemos da votação agregada das candidaturas classificadas como outsiders nas eleições presidenciais brasileiras entre 2002 e 2022, no entanto, não aponta nessa direção.

Essa leitura tem apelo porque oferece uma explicação unificada para um evento complexo e porque parece conversar com um clima internacional de contestação das elites políticas estabelecidas e de crise da representação. O problema é que ela confunde pico com tendência.

Em quatro das seis eleições no período estudado, a votação agregada de todas as candidaturas outsiders ficou abaixo de 4%. No entanto, o valor agregado muda radicalmente dependendo da inclusão ou não de Bolsonaro. Com ele, o voto outsider alcança 52,5%; sem ele, cai para 6,5%, um valor próximo do pico de 2006 (7,1%).

Por isso o ano de 2018 molda a percepção coletiva mais recente. Porém, é um caso particularmente enganoso para inferir uma "trajetória". Não se trata de negar que 2018 tenha sido um ponto de inflexão, mas há uma distinção básica a preservar: evento extremo não é tendência estrutural.

A tentação de transformar um pico em trajetória ascendente é precisamente o mecanismo pelo qual o mito da escalada antiestablishment se consolida. A série histórica sugere outra coisa: o voto em outsiders permanece baixo na maior parte do tempo e sobe de forma significativa apenas em conjunturas críticas, para depois recuar.

O padrão geral observado é mais próximo do que a literatura de ciência política chama de "equilíbrio pontuado", conforme a definição de Baumgartner e Jones: longos períodos de estabilidade interrompidos por rupturas, seguidos de retração.

Essa ideia foi importada da biologia evolutiva: em vez de mudança lenta e contínua, há estabilidade longa e rupturas concentradas. Na maior parte do período (2002-2022), o voto em outsiders fica em níveis baixos. Depois do pico de 2018, o voto outsider retornou a patamares muito baixos em 2022 (0,7%), praticamente o mesmo valor do início da série (0,5%).

Perguntas necessárias

Quando a política é enquadrada pela gramática do "pulp politics", as consequências aparecem de dois modos. Normativamente, surgem respostas políticas desenhadas como se o país estivesse numa marcha inevitável para a antipolítica que tendem a errar o alvo. Analiticamente, faz mais sentido investigar as condições que abrem janelas conjunturais específicas para a escalada do voto antiestablishment, e por que elas se fecham rapidamente.

O mito da escalada antiestablishment no Brasil é, em parte, um erro de leitura estatística e, em parte, um efeito político dramático de 2018. A pergunta relevante que devemos nos fazer não é "por que o voto antiestablishment cresce", mas por que ele quase sempre permanece marginal e quais condições excepcionais permitem que, ocasionalmente, um candidato outsider rompa o teto eleitoral que o sistema político normalmente impõe.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Adriano Codato recebe financiamento do CNPq

Roberta Picussa recebe financiamento do CNPq.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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