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Encontro de alemães na República Tcheca reabre feridas históricas

20 mai 2026 - 13h55
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Pela 1º vez no pós-guerra, descendentes de alemães expulsos dos Sudetos planejam organizar seu congresso anual em território da República Tcheca. Plano gera forte reação política e expôs antigos traumas na Europa CentralO encontro anual dos alemães dos Sudetos, uma reunião de alemães étnicos expulsos do território da antigaTchecoslováquia após a Segunda Guerra Mundial e de seus descendentes, ocorrerá nesta ano na cidade tcheca de Brno, de 22 a 25 de maio, como parte do festival de reconciliação Meeting Brno.

Brno teve protesto, como este em abril, contra o encontro de alemães dos Sudetos na cidade
Brno teve protesto, como este em abril, contra o encontro de alemães dos Sudetos na cidade
Foto: DW / Deutsche Welle

É a primeira vez no pós-guerra que a reunião, que nas últimas décadas sempre ocorreu na Alemanha ou na Áustria, será realizada em solo da República Tcheca.

Os alemães dos Sudetos habitavam até 1945 uma fatia montanhosa que corresponde a 20% do atual território República Tcheca.

Durante o período nazista, a maior parte dos habitantes se alinhou com o regime. Após a derrota na guerra, cerca de 3 milhões de alemães dos Sudetos foram expulsos à força da área pelo restaurado governo tchecoslovaco, marcando o fim de uma presença que remontava há séculos.

Agora, décadas depois, o plano de sediar a reunião de alemães dos Sudetos em solo tcheco, tem gerado protestos na cidade de Brno, levando a divulgação de uma declaração parlamentar alertando contra o que alguns legisladores tchecos chamaram de "revisionismo histórico" e "relativização dos crimes nazistas".

Acusação de revisionismo histórico

"A Câmara dos Deputados expressa sua oposição à realização do 76º congresso da Associação dos Alemães dos Sudetos no território da República Tcheca, considerando o contexto histórico e o fato de que, há muito tempo, surgem dentro de partes desse movimento posições que questionam a ordem do pós-guerra", diz a declaração aprovada na sexta-feira pela câmara baixa do Parlamento tcheco.

A moção, que era simbólica e não vinculativa, foi aprovada por 73 votos a zero, com quatro abstenções.

Partidos da oposição de centro-direita boicotaram o debate, acusando a coalizão governista, que inclui o partido de ultradireita SPD, de explorar o tema para obter ganhos políticos.

O primeiro-ministro Andrej Babiš aparentemente mudou de opinião sobre o evento. Recentemente, ele afirmou que o encontro em Brno "não é um desenvolvimento feliz", apesar de anteriormente tê-lo descrito de forma neutra como uma iniciativa cívica com a qual o governo tcheco não iria se ocupar.

O evento também gerou protestos na própria cidade de Brno. Cerca de 500 pessoas participaram de uma manifestação em abril organizada pelo SPD, que se opõe firmemente ao encontro e acusa organizações de alemães dos Sudetos de tentar reverter os decretos Beneš, que confiscaram propriedades alemãs e retiraram a cidadania dos alemães étnicos no pós-guerra.

Essa acusação é rejeitada pelo presidente da Associação dos Alemães dos Sudetos, Bernd Posselt. Ele enfatizou que a entidade, a principal organização que representa os expulsos, não busca mais contestar a ordem do pós-Guerra e descreveu o evento como um esforço de reconciliação.

Em 2015, a associação fez mudanças importantes em seu estatuto, incluindo a remoção de referências a reparações e à recuperação de terras.

Posselt, um ex-eurodeputado da União Social Cristã (CSU), partido conservador da Baviera, disse à DW que a organização quer uma discussão honesta sobre o passado. Ele criticou a declaração parlamentar e insistiu que o encontro seguirá adiante.

Os organizadores do festival Meeting Brno também divulgaram um comunicado afirmando que o evento ocorrerá conforme planejado, apesar da controvérsia.

Convite aos alemães dos Sudetos

"Acho que, num momento em que a guerra e o nacionalismo estão crescendo no mundo, esse encontro entre nós e nossos amigos tchecos é muito importante", disse Posselt à DW por telefone, de Munique.

"Isso mostra que nós, como europeus e europeus centrais, aprendemos com a história - inclusive nós, alemães dos Sudetos", afirmou.

"Nosso primeiro objetivo é olhar objetivamente para a história. Condenamos fortemente o que os nazistas alemães, incluindo muitos alemães dos Sudetos, fizeram contra o povo tcheco. Mas também pedimos aos tchecos - e temos muitos amigos tchecos - que olhem para os pontos obscuros de sua própria história", disse Posselt.

"Trata-se de lidar com os aspectos morais da história, mas também de reconhecer os 800 anos de cooperação produtiva no país."

O encontro está sendo organizado pelo Meeting Brno, uma iniciativa cívica voltada à reconciliação tcheco-alemã e à lembrança tanto dos crimes nazistas quanto das expulsões do pós-Guerra.

A organização convidou a Associação dos Alemães dos Sudetos, que normalmente realiza seu encontro anual na Baviera, para se reunir na cidade este mês.

"A pergunta não é por que o encontro sudeto-alemão está sendo realizado aqui, mas por que jamais foi realizado aqui, já que esta é a terra de origem deles", disse Petr Kalousek, cofundador do Meeting Brno.

"Todas essas pessoas, ou seus ancestrais e famílias, viveram conosco - ou vivemos juntos no mesmo país - por mais de 800 anos", afirmou.

Passado doloroso

Há mais de uma década, o festival organiza a chamada Marcha da Paz, Convivência e Reconciliação, refazendo ao contrário o trajeto da marcha da morte de Brno, de maio de 1945, quando dezenas de milhares de alemães étnicos foram expulsos da cidade e forçados a marchar em direção à fronteira austríaca.

Em 2015, a prefeitura de Brno, que era chamada de Brünn pelos alemães, chegou a publicar um pedido oficial de desculpas pela expulsão dos alemães da área em 1945, mas alguns políticos locais criticaram a iniciativa, afirmando que ela deveria ser precedida de um pedido de desculpas pelo lado alemão por crimes nazistas cometidos na guerra.

O tema continua sendo extremamente sensível na República Tcheca devido ao papel que muitos alemães dos Sudetos desempenharam na destruição da Tchecoslováquia no período entreguerras.

Nas últimas eleições democráticas do país antes da guerra, em 1935, cerca de dois terços dos alemães dos Sudetos votaram no partido pró-nazista Sudetendeutsche Partei, que defendia que a Alemanha nazista anexasse regiões de língua alemã da Tchecoslováquia.

Em 1938, os alemães dos Sudetos também estiveram no centro da Crise dos Sudetos, que culminou no Pacto de Munique, quando potências aliadas concordaram em permitir que a Alemanha nazista anexasse a área para afastar o risco de uma guerra, mas que na realidade só abriu caminho para mais agresões do regime.

Após os horrores da ocupação nazista e da guerra, cerca de 3 milhões de falantes de alemão fugiram ou foram expulsos da Tchecoslováquia. As expulsões receberam aprovação das potências aliadas e foram formalmente confirmadas na Conferência de Potsdam, em 1945.

Historiadores estimam que entre 15 mil e 30 mil alemães étnicos da região morreram em decorrência das expulsões da Tchecoslováquia, por causa de violência, doenças, suicídio e condições adversas.

Oposição e apoio em Brno

Numa recente sessão acalorada do conselho municipal de Brno, um vereador expressou oposição ao evento. "Não esquecemos o que precedeu o período do pós-Guerra. Não esquecemos a destruição da Tchecoslováquia, a ocupação e as milhões de vidas destruídas, incluindo a da minha avó."

"Os alemães dos Sudetos se apresentam como campeões da reconciliação. Mas aqueles que podem pedir essa reconciliação já morreram há muito tempo. E nós não temos o direito de falar ou agir por eles", acrescentou.

A prefeita de Brno, Marketa Vankova, tem continuado a apoiar o encontro apesar da crescente pressão política e dos protestos.

E evento deverá ocorrer sob forte esquema de segurança no Centro de Exposições de Brno. O governador da Baviera, Markus Söder, e o ministro do Interior da Alemanha, Alexander Dobrindt, deverão estar presentes.

Já o presidente tcheco, Petr Pavel, colocou o festival Meeting Brno sob seus auspícios. O gabinete do presidente foi citado pela mídia tcheca na segunda-feira dizendo que Pavel concedeu seu apoio ao festival, como já havia feito nos dois anos anteriores. A presidência da República Tcheca afirmou que o projeto busca promover um diálogo honesto e a troca de histórias e experiências históricas.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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