Violência no México provoca debate sobre intervenção dos EUA
Avanço do grupo Los Ardillos contra comunidades em Chilapa amplia pedidos por ajuda externa e reacende controvérsia sobre um eventual papel militar dos EUA, rejeitado pelo governo de Claudia Sheinbaum.O recrudescimento da violência de grupos criminosos no México voltou a dar fôlego a setores que defendem uma intervenção militar dos EUA no país. A ideia, inicialmente impulsionada por vozes da ultradireita, é rejeitada pelo governo mexicano, mas ganha eco diante da dificuldade das autoridades em conter ataques recorrentes de facções como o Los Ardillos, responsáveis por forçar o deslocamento de comunidades indígenas em Chilapa, na região sul.
"Estamos de joelhos, pedindo ajuda, que ela chegue, que venha o governo dos Estados Unidos, porque aqui não nos dão atenção", suplica uma mexicana desesperada ao lado de um grupo de mulheres, em um vídeo que se tornou viral nas redes sociais. O avanço do Los Ardillos já deslocou comunidades indígenas inteiras no estado de Guerrero.
O governo mexicano responde à crise de violência vivida na região com um forte esquema de segurança. Atualmente, cerca de 690 integrantes do Exército, 400 da Guarda Nacional e 200 da Polícia Estadual atuam para garantir a segurança local.
No entanto, o esforço não é visto como suficiente. O governo da presidente mexicana Claudia Sheinbaum tem usado a mesma justificativa do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para rejeitar um alinhamento automático com Washington no combate à criminalidade: a defesa da soberania nacional.
Brasil e México ficaram de fora da "coalizão militar" lançada em março pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, para erradicar o tráfico e os cartéis de drogas. O cerne do acordo é o compromisso de usar força militar letal para destruir o que chama de "redes terroristas". A designação de cartéis ou grupos criminosos como "terroristas" é rejeitada pelos dois países latino-americanos.
Mas, ainda que lance mão de métodos similares aos propostos por Trump, como a implementação das Forças Armadas na segurança pública, Sheinbaum tem defendido que a Constituição mexicana rejeita intervenções estrangeiras desse tipo e argumenta que há uma redução do número geral de homicídios desde que assumiu o poder.
No caso mexicano, discursos do republicano foram vistos como um indicativo real de que a Casa Branca poderia coordenar uma operação militar unilateral contra os cartéis. "Nós procuramos coordenação sem subordinação", afirma Sheinbaum.
A ascensão dos "Los Ardillos"
Ao mesmo tempo, porém, há uma "generalização de crimes hediondos" no México, destaca Ernesto López Portillo Vargas, coordenador do Programa de Segurança Cívica da Universidade Iberoamericana. São exemplos fenômenos recentes como desaparecimentos, descobertas de valas clandestinas e recrutamento forçado.
O avanço dos "Los Ardillos" é um novo capítulo dessa escalada da violência enfrentada pelo governo de Sheinbaum, que havia comemorado vitórias pontuais no combate ao proeminente Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
Os "Los Ardillos" têm presença em 30 dos 85 municípios do estado de Guerrero, e Chilapa é um dos locais onde disputam o poder com a organização rival "Los Tlacos", explica Víctor Sánchez Valdés, pesquisador da Universidade Autônoma de Coahuila (UAdeC).
Ambas as células criminosas se dedicam à produção de papoula e à extorsão de comerciantes, sobretudo de empresas mineradoras. Os "Los Ardillos" cresceram desde 2010 a partir da fragmentação do Cartel dos Beltrán Leyva. O grupo é comandado pelo ex-policial Celso Ortega Rosas, conhecido como "El Ardillo Mayor".
Deslocamento de comunidades indígenas
Por mais de 20 anos, Chilapa esteve "submetida ao controle dos caciques do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e do Partido da Revolução Democrática (PRD)", observa, por sua vez, o professor e cientista político da Universidade Autônoma de Guerrero, Silvestre Licea Dorantes.
O acadêmico entende que os "Los Ardillos" preencheram um vazio na região surgido a partir "do abandono e da negligência institucional". A intenção do grupo é "deslocar as comunidades indígenas nahuas", especialmente aqueles grupos que se organizam com base na Justiça comunitária, prossegue Licea Dorantes.
O desespero dos deslocados em Chilapa é palpável nos vídeos que circulam nas redes sociais, nos quais algumas vítimas chegam a pedir diretamente a ajuda do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Sánchez Valdés, da Universidade Autônoma de Coahuila, afirma que, em nível nacional, a maioria dos mexicanos rejeita qualquer tipo de intervenção, mas destaca que o sentimento antiamericano e de defesa da soberania tem se enfraquecido em regiões castigadas pelo crime organizado. "Hoje, há amplos setores da população que veem uma intervenção com bons olhos", afirma.
Aos poucos, a retórica americana ganha status de solução para parte dos afetados. Pesquisas contratadas pelo jornal mexicano El Financiero, por exemplo, indicam que 78% da população rejeita a intervenção americana, mas a parcela que a apoia ganha maior tração diante da insatisfação com as ações do governo. Em pesquisa do jornal Reforma, quase a metade dos mexicanos apoiou algum tipo de cooperação com os EUA.
"As vozes que pedem uma intervenção estrangeira vêm da direita e da ultradireita mexicana e internacional, onde a CIA não é alheia, junto com jornais como o New York Times, que repetem de forma estridente que a situação do México é incontrolável", completa Silvestre Licea Dorantes.,
gq (DW, ots)
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