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Prefeitura não quer enfrentar volta às aulas porque tem eleição, diz Matarazzo

Em sabatina do Estadão, candidato afirma que teria um conselho médico para determinar um protocolo e prosseguiria com o retorno escolar

4 nov 2020 16h42
| atualizado às 19h51
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O ex-ministro e ex-secretário Andrea Matarazzo (PSD), candidato à Prefeitura de São Paulo, criticou nesta quarta-feira, dia 4, a atual administração da cidade por não ter, segundo ele, elaborado e executado um plano que viabilizasse o retorno às aulas da rede pública municipal em meio à pandemia do novo coronavírus. Ele também acusou a gestão de não enfrentar o problema de frente por causa das eleições 2020, já que a maioria dos pais é contra a volta escolar.

"A Prefeitura não enfrentou. A Prefeitura não quer enfrentar esse drama porque tem eleição agora", afirmou durante sabatina do Estadão, em referência à candidatura à reeleição do atual titular do cargo, Bruno Covas (PSDB). "Essa é a diferença. Eu discutiria, sim, com o sindicato de professores… É hora de pensar na população e parar de pensar sempre na próxima eleição", afirmou.

Matarazzo defendeu a necessidade de implementar um conselho de médicos para elaborar um protocolo de retorno às atividades, nos moldes do que fez o governo do Estado. O candidato disse ainda que, caso as escolas tivessem infraestrutura para aplicar o plano, ele seguiria com a reabertura escolar, deixando a critério dos pais a escolha de levar ou não os seus filhos.

"Eu teria primeiro me aconselhado com médicos, eu teria um conselho de médicos que, se me dissessem - como os do Estado disseram - que já pode fazer com determinado protocolo, eu teria voltado. Se eu por acaso sentisse que a infraestrutura das escolas não tem condições de aplicar aquele protocolo, eu teria pelo menos liberado as escolas privadas. Porque elas têm condições de aplicar os protocolos. Então a gente não pode, para esconder a nossa ineficiência, culpar os outros", defendeu o ex-ministro.

Perguntado sobre a possibilidade de aprofundar as desigualdades sociais ao possibilitar uma volta apenas para os alunos que já gozam de infraestrutura superior, como os da rede privada, Matarazzo levantou as pautas do reforço escolar e do contraturno nos equipamentos de esporte e de cultura. Além disso, ele criticou a visão segundo a qual Ensino à Distância (EAD) poderá ajudar a reduzir a lacuna.

"As desigualdades já existem e são bem grandes. Eu acho que o ano que vem inclusive, quando eu quero fazer essa coisa do contraturno nos equipamentos de esporte e de cultura, é para fazer o reforço escolar do ano inteiro inclusive. Para tentar recuperar um pouco o que se perdeu", disse. "Quem não conhece a periferia que acha que vai fazer ensino à distância, que o aluno lá do Córrego do Bispo (bairro localizado no Peri Alto), de Cidade Tiradentes ou do M'Boi Mirim, onde não chega internet - nas escolas, nem pensar, e nem na casa dos alunos eles têm condições de ter um computador. Essas são desigualdades que têm que ser corrigidas e só o poder público tem condições de corrigir", concluiu.

Fonte luminosa do Anhangabaú

Na sabatina, o candidato criticou as fontes de água e iluminação do Vale do Anhangabaú, no Centro da cidade São Paulo, que são parte de uma revitalização da área que começou em julho de 2019. Para Matarazzo, trata-se de uma obra "que não traz benefício para ninguém". "O bom prefeito é aquele que sabe fazer opção", defendeu. "A prioridade são as pessoas, então, em vez de investir na fonte luminosa do Vale do Anhangabaú, por exemplo, R$ 100 milhões e não traz benefício para ninguém, só tirou o verde do Anhangabaú e vai piorar a região… Acho que você tem que ter prioridades. Acho que esse primeiro ano é investir nas pessoas", afirmou.

De acordo com o candidato, a cidade vive "uma tragédia" que poderá ser agravada. Então a prioridade será retomar a economia.

Concessão do vale do Anhangabaú

Sobre a concessão do vale do Anhangabaú, cujo processo não pode terminar de transcorrer até o final da gestão Covas, o candidato afirmou que vai analisar como foi feito o processo de concessão, mas que jamais pararia uma obra de um antecessor. Matarazzo criticou as gestões que travaram obras inacabadas dos antecessores, mas não deixou de falar mal da obra na região central.

"Como que eu construo um negócio que gasta R$ 93 milhões do dinheiro da população e alugo por R$ 6 milhões. E uma obra inútil, a meu ver. Pode ser que para o prefeito não seja uma prioridade dele, vai ser a praça da apoteose do carnaval de rua, sei lá", ironizou.

'Não preciso ter padrinho'

"Sou pouco convencional, eu acho que a campanha é do candidato a prefeito, né? É minha. Eu não preciso ter padrinho. Isso é um primeiro ponto. Eu tenho 40 e pouquinhos segundos de televisão, acho que são 42 (segundos). Imagina se eu começar a compartilhar com amigos, padrinhos, etc? Não vou conseguir falar nada", afirmou Matarazzo, sobre o fato de sua campanha não apresentar um padrinho político, apesar de ele ser próximo do ex-ministro Gilberto Kassab.

Questionado sobre as pesquisas, que mostram que os candidatos com padrinho lideram as pesquisas, o político respondeu: "Esses candidatos têm muito pouco o que falar da cidade. Como não têm assunto, não conseguem discutir o bairro tal, a necessidade, a prioridade. Então ficam discutindo ideologia ou falando dos padrinhos. Eu não quero ter padrinho porque quero ter independência na Prefeitura, estou discutindo a cidade. Para ser prefeito em São Paulo, você precisa de muita independência e você precisa ser suprapartidário".

Relação com Doria e Bolsonaro

Defensor da necessidade de o prefeito ter uma boa relação com o governador e com o presidente, Matarazzo foi questionado sobre as prévias tucanas de 2016, quando perdeu para o atual governador do Estado, João Doria, e rompeu com o PSDB, partido no qual esteve filiado por décadas. Na ocasião, criticou duramente o então rival. "A minha relação com o João Doria é a mesma nos últimos 40 anos. Claro que naquele período (das prévias), nós estávamos vivendo uma disputa. Mas já tivemos juntos depois, isso não será nenhum impeditivo nem de uma parte ou em outra", afirmou.

O ex-ministro afirmou que só esteve com o presidente da República, Jair Bolsonaro uma única vez, mas afirma que a relação entre as autoridades deve ser institucional, não pessoal. "Não conheço o presidente Bolsonaro, estive com ele uma vez, numa reunião de diretoria que a Fiesp convidou para o almoço. Mas o relacionamento é institucional, não é pessoal. A partir do momento que você ganha a eleição você passa a ter o relacionamento", argumentou.

Matarazzo também defendeu a necessidade de se conhecer como funcionam as outras esferas do poder para poder melhor servir à cidade. "Fui ministro de Estado, secretário de Estado e secretário municipal. Não só é importante ter um bom relacionamento como é importante entender o funcionamento do governo federal, o governo estadual junto aos municípios", completou.

Conservador

Questionado se pode ser considerado um conservador, Matarazzo respondeu que não gosta de ser encaixado em rótulos. "Pode ser que em algumas coisas sim e em outras não", afirmou. O ex-ministro defendeu a separação entre o que é necessário fazer institucionalmente e o que são valores pessoais.

"No caso, se nós estamos falando de política, não me considero muito conservador porque a sociedade anda e você tem que acompanhar a evolução das coisas. Uma coisa é o que você faz institucionalmente e outra coisa é o pensamento seu, determinados valores pessoais", disse. "Buraco de rua não é de direita e nem de esquerda", defendeu. O candidato tem repetido essa frase ao longo da campanha.

Ocupações irregulares em área de manancial

Questionado se defende a permanência de moradores em loteamentos criminosos em áreas de mananciais, Matarazzo disse que trata-se de um fenômeno recente e defendeu a regularização em regiões ocupadas há décadas.

"Ocupações criminosas nós estamos vendo agora, inclusive lá na Zona Sul, debaixo do nariz da Prefeitura, sem ninguém tomar providência nenhuma, os loteamentos de áreas que estão a 100, 200 metros da represa. Isso foi denunciado pelo (vereador Gilberto) Natalini, foi capa de uma publicação agora e o Estadão já fez matéria a respeito. E zero de providência", disse. "Quando eu estou falando disso (de regularizar a situação do ocupante), estou falando de áreas que estão ocupadas há 40, 50 anos. Que hoje, por serem consideradas irregulares, por serem consideradas áreas de manancial, você não tem nenhum emprego formal na região e elas continuam a ser invadidas. As pessoas que moram lá não têm escritura, não têm nada - e não têm esgoto. Portanto a contaminação a poluição do manancial continua", afirmou.

Matarazzo defendeu a urbanização de favelas para que se comece a coletar esgoto e "estancar a poluição". O candidato ainda falou que a concessão de títulos permite a colocação de infraestrutura, ajuda a evitar novas invasões e acaba com situações de achaque.

Renda básica

Matarazzo defendeu que o auxílio emergencial foi fundamental no início da pandemia mas defende atualmente um projeto de preservação de empregos, inclusive por meio da não-cobrança de IPTU de pequenas empresas. O candidato também defende a criação de um fundo de financiamento do microempresário e a formação de frentes de trabalho para cuidar de serviços de zeladoria. As frentes são uma alternativa às propostas de renda básica, mas o cidadão que recebe o auxílio presta um serviço à Prefeitura. /BRUNO RIBEIRO, MATHEUS LARA e PAULA REVERBEL

Estadão
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