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'Forças políticas distintas são capazes de se juntar', diz pré-candidato do PTB em Pernambuco

Senador Armando Monteiro afirma que história política do Pernambuco comprova que não há contradição em reunir antigos adversários em novas alianças

11 jun 2018
21h04
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RECIFE - O senador Armando Monteiro Neto (PTB) formalizou nesta segunda-feira, 11, sua pré-candidatura ao governo de Pernambuco. Derrotado por Paulo Câmara (PSB) no primeiro turno em 2014, o petebista refez alianças para a eleição deste ano e decidiu marchar ao lado de antigos adversários, que podem colocar em seu palanque presidenciáveis como Geraldo Alckmin (PSDB) e Rodrigo Maia (DEM), quando, na verdade, seu voto é do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado e preso pela Operação Lava Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Apesar disso, o pré-candidato não vê contradição e se credencia para o pleito com o apoio de outros seis partidos com a expectativa de ampliar e liderar a maior chapa de oposição do Estado. A seguir os principais trechos da entrevista:

Em 2014, o sr. foi derrotado no primeiro turno por um estreante em eleições, Paulo Câmara (PSB). O que o faz pensar que desta vez será diferente?

Há claramente um sentimento de mudança entre os pernambucanos confirmado em pesquisas de opinião. Temos um longo ciclo do PSB (no governo), que já vai completar 12 anos, e a sociedade está desejando um novo rumo para o Estado. Percebemos isso no movimento "Pernambuco quer mudar" realizado por essa frente de oposição com sete partidos (DEM, PSDB, PRB, Podemos, PV, PPS e PTB).

Estamos dialogando com mais legendas que ainda estão na aliança governista e vamos ampliar nossa chapa com pessoas que enxergam que Paulo Câmara não correspondeu às expectativas e levou Pernambuco a um retrocesso em todas as áreas. Tudo isso justifica este nosso posicionamento.

Quais foram, na sua opinião, as áreas nas quais Pernambuco regrediu?

Primeiro, na segurança. Infelizmente, os números falam por si mesmos, a ponto de vários especialistas traduzirem isso na seguinte expressão: "O Pacto pela vida faliu". Aquele modelo exitoso da época de Eduardo Campos infelizmente acabou. Desde 2015, a gente vem amargando esse quadro por causa da falta de gestão.

Identifica-se a ausência de um processo mais articulado e coordenado, portanto, há déficit na gestão, articulação e coordenação, além da falta de investimentos em áreas essenciais. E pior, à medida que os índices foram ficando negativos, o governante optou por se descolar dessa agenda. Campos foi para linha de frente e assumiu o processo, Paulo Câmara não.

E quais suas propostas para resolver esse problema da segurança e os outros?

Nós estamos desenhando os eixos programáticos do programa de governo que vamos apresentar. Estamos fazendo uma atualização de algumas propostas de 2014. Posso dizer, no entanto, que a educação será prioridade, pois eu tenho visto na propaganda oficial do governo a afirmação absolutamente falsa de que Pernambuco tem a melhor educação do Brasil.

Ora, quando você diz "a melhor educação do País" isso tem de representar uma avaliação sobre todas as áreas da educação. No ensino fundamental, o Estado é o 18.º no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), ou seja, Pernambuco se recolhe à sua competência (o ensino médio) e diz que tem a melhor educação do Brasil.

Pretendo trazer o modelo que o Ceará implantou, em que o governo estadual ajuda os municípios com um incentivo no repasse do ICMS. Por causa dessa ideia de cooperação, a maioria das cem melhores escolas públicas do Brasil são do Ceará.

Na sua avaliação, o governo Paulo Câmara foi prejudicado pela crise que atingiu todo o Brasil?

Quando se tem um processo de crise, mais do que nunca governar se torna a arte de escolher prioridades. Houve falta de clareza em relação ao que era prioridade, e isso se comprova com as diversas obras em várias áreas que se arrastam, muitas nem sequer saíram do papel.

É o caso das barragens da zona da mata sul: das cinco prometidas só uma foi concluída. Na saúde, os hospitais regionais prometidos não foram entregues, as UPAs estão funcionando de forma precária, vários leitos de UTI foram fechados, a fila de cirurgias eletivas só cresce e faltam medicamentos de uso contínuo.

Os corredores de BRT da região metropolitana do Recife não foram concluídos. Para onde você olhar, é possível identificar que o governo não foi capaz de fazer as entregas, porque não deu prioridade às obras mais importantes e às áreas mais sensíveis.

Muitas das obras que o sr. citou dependem de recursos do governo federal. O Planalto também teria uma parcela de culpa, na sua opinião?

Pontualmente, pode ter, mas quando se tem um cenário adverso e tudo é prioridade, nada é prioridade. Problemas de licenciamento ou com empresas é natural no processo de qualquer obra pública em qualquer tempo, o governo (estadual) é que tem que ter agilidade e coordenação para resolver. Por exemplo, nessa questão das obras hídricas que dependem de recursos federais, Pernambuco concorre com outras demandas da região.

O Cinturão das Águas, no Ceará, recebeu mais recursos do que nós aqui - e olhe que o Paulo apoiou (o presidente Michel) Temer (MDB), o PSB ajudou a fazer o impeachment da (presidente cassada) Dilma (Rousseff, do PT).

Portanto, eles (o governo Câmara) ajudaram a constituir o governo Temer e, mesmo assim, não conseguiram até hoje contratar uma operação de financiamento com o BNDES. No início do governo Temer, eles diziam que foi culpa do governo Dilma não ter contratado o financiamento, pois bem, estamos no segundo ano da gestão Temer, e Pernambuco ainda não conseguiu.

O sr. foi ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior de Dilma, e os deputados Bruno Araújo (PSDB) e Mendonça Filho (DEM), que votaram pelo impeachment da presidente cassada, estão agora no seu palanque. O sr. vê alguma contradição nisso? O eleitor não vai estranhar essa aliança?

Não há nenhuma contradição. Estamos fazendo uma aliança por Pernambuco e mostrando que, neste momento, forças de origem distintas do ponto de vista político, que até algum tempo atrás eram adversárias, são capazes de se juntar pelo Estado. A nossa história política local registra largamente esse processo.

Quem não se lembra da aliança que Jarbas Vasconcelos (PMDB) fez com o antigo PFL, e isso era impossível de se imaginar. Eduardo Campos, em 2014, foi buscar todas as forças, mais do que isso, fez aliança com Jarbas. Então, isso não é estranho a vida política de Pernambuco. Agora, temos requisitos como o fato de que é preciso ter a mesma visão sobre os desafios do Estado, e outra condição muito importante é que sejam pessoas idôneas com princípios e valores.

É por causa desses critérios que o PT, que apoiou da sua candidatura em 2014, não está na sua chapa este ano?

O PT optou por um movimento que pareceu ser de uma candidatura própria, repudiando as alianças. Eu votei (no Senado) por algumas reformas, aí, alguns setores (do partido) me hostilizaram, mas, para nossa surpresa, o PT agora cogita fazer uma aliança com o PSB que votou pelo impeachment. Isso sim será difícil de explicar para a população.

Eles tiveram uma atitude hostil em relação a um aliado histórico, mas, ao mesmo tempo, querem reeditar uma aliança com um partido que atuou pela destituição da presidente Dilma, apoiou Aécio Neves (PSDB) na eleição de 2014 e ficou contra Lula (PT).

O sr. é a favor da candidatura de Lula?

O presidente Lula evidentemente está submetido a essa situação que o alcançou, aí, há os ditames da lei, mas ele tem o direito como cidadão de esgotar todas as possibilidades que estiverem ao seu alcance. Se Lula fosse candidato a presidente, eu votaria nele, porque Pernambuco tem uma dívida com ele, todo crescimento dos últimos anos teve a ação de Lula. Isso não significa, porém, que esse compromisso se estenda a alguém que não seja o presidente Lula.

Estadão Conteúdo

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