Entenda em 4 pontos os impactos para o bolsonarismo da fuga de Flávio para os EUA
Especialistas avaliam como a saída do senador para os EUA pode enfraquecer sua liderança e abrir espaço para outros nomes da direita
O candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) se autodeclarou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” nesta quarta-feira, 28, voltou atrás pouco depois e disse ser "o líder" do País. A declaração ocorreu três dias após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais e consta em uma carta divulgada depois de o parlamentar fugir do Brasil e chegar aos Estados Unidos.
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A declaração não tem validade jurídica. Pela Constituição Federal, a eleição presidencial é definida pela maioria dos votos válidos no segundo turno, e cabe à Justiça Eleitoral apurar os votos e proclamar o resultado. O ministro Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reconheceu a vitória de Lula.
A saída de Flávio do País, porém, pode ter consequências para o futuro do bolsonarismo. Cientistas políticos ouvidos pelo Terra apontam que o episódio pode, ao mesmo tempo, reforçar o discurso de perseguição política entre os apoiadores mais fiéis e enfraquecer a posição do senador dentro do grupo, favorecendo a reorganização da direita.
Veja quatro possíveis impactos:
1. A saída pode reforçar a narrativa de perseguição política
Entre os apoiadores mais fiéis do bolsonarismo, a ida de Flávio aos Estados Unidos pode ser interpretada como mais um episódio de perseguição à família Bolsonaro. A avaliação é da cientista política Flávia Bozza, professora de Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Segundo ela, esse grupo tende a incorporar a saída do senador ao discurso de que a família é vítima de um sistema que tenta impedir sua atuação política. A narrativa pode ganhar força especialmente entre os eleitores mais alinhados ao bolsonarismo, mas não necessariamente convencer quem votou em Flávio por considerá-lo uma alternativa a Lula.
“Para os bolsonaristas raiz, os bolsonaristas fortes, eu acredito que essa imagem é facilmente digerida por ser a ideia de uma pessoa que está se exilando, se autoexilando por se sentir vítima de um sistema”, afirma Flávia.
A reação, contudo, pode ser diferente entre eleitores que apoiaram o senador sem necessariamente se identificarem com o bolsonarismo. Para esse grupo, a decisão de deixar o País pode levantar questionamentos sobre a postura do candidato após a derrota.
"Para os que votaram nele e não são bolsonaristas raiz, não é tão palatável essa saída dele. Deixa uma pulga atrás da orelha, do tipo: 'nossa, ele falou que não iria fazer isso. Por que ele fez?'. [Para eles] parece que Flávio não teve palavra, e [gera o questionamento] 'será que tem coisa suja atrelada ao nome dele?'. Então eu vejo que tem aí um percentual de pessoas que tem essa imagem do fugitivo e de quem não deve, não teme”, diz a cientista política, ao resumir as possíveis dúvidas desse eleitorado.
2. Flávio pode perder espaço como liderança da oposição
Embora o senador possa continuar influenciando o debate político pelas redes sociais, a distância dos acontecimentos cotidianos no Brasil tende a dificultar sua articulação com aliados. Para Luiz Domingos, cientista político e professor da Uninter, a saída representa um enfraquecimento organizacional do bolsonarismo.
“De um ponto de vista organizacional, esquecendo um pouco das redes, a ida dele claramente enfraquece o bolsonarismo. Porque ele era uma liderança aqui, um articulador das demais lideranças que afloraram em todo o país desse campo e que agora estão dependendo de uma liderança como o senador Rogério Marinho, que tem um papel político no congresso muito importante, mas não tem a face pública que o Flávio tem”, avalia.
Domingos ressalta que Flávio teve papel importante na articulação de lideranças do campo conservador durante a campanha presidencial. Fora do País, o senador pode perder parte dessa capacidade de coordenação, enquanto outros integrantes do grupo passam a ocupar o espaço deixado por ele.
Flávia também considera que a distância pode reduzir a influência política do parlamentar. Além de não estar presente nos acontecimentos diários, Flávio encerra seu mandato no Senado em dezembro, o que pode diminuir sua exposição institucional.
“A política vai se reacomodando. Não existe vácuo na política”, afirma a professora da ESPM.
3. Michelle e Tarcísio podem ganhar espaço na direita
A saída de Flávio também pode abrir espaço para outras lideranças disputarem protagonismo no campo conservador. Entre os nomes citados pelos especialistas estão a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Na avaliação de Domingos, manifestações recentes de dirigentes do PL e de Tarcísio, que reconheceram o resultado eleitoral, contrastam com a postura de Flávio e indicam uma possível reorganização do grupo. O cientista político também destaca uma publicação de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, ao lado de Michelle, na qual o dirigente mencionou o futuro do partido. "Portanto, apontando para uma liderança que, de alguma forma, foi antagonista do Flávio dentro da própria cúpula do PL", diz o especialista.
Para ele, os movimentos sinalizam uma redução do espaço do senador nas articulações internas e a possibilidade de outras figuras assumirem posições de destaque.
Flávia, por sua vez, vê em Tarcísio uma liderança com potencial para se fortalecer por meio de uma atuação mais voltada à gestão pública. Segundo ela, o governador procura equilibrar a relação com o bolsonarismo e a preocupação com resultados administrativos.
A cientista política pondera, porém, que a disputa por espaço não significa necessariamente o fim da influência da família Bolsonaro. A narrativa de perseguição pode continuar mobilizando seus apoiadores ao mesmo tempo que outras lideranças buscam se consolidar.
4. Aliados podem se afastar do bolsonarismo mais radical
Outro possível efeito é o distanciamento de políticos e partidos que compartilham parte da agenda conservadora, mas precisam preservar sua atuação institucional. Para Flávia, integrantes do chamado Centrão podem reavaliar a relação com o bolsonarismo após o resultado eleitoral e diante da postura de Flávio.
A professora afirma que partidos tradicionais têm interesse em manter espaço político próprio e evitar que a extrema direita concentre ainda mais poder. Nesse contexto, a saída do senador pode contribuir para que aliados priorizem suas agendas e mandatos, em vez de seguir integralmente as orientações da família Bolsonaro.
"Durante muito tempo o Centrão ganhou com a ideia de estar alinhado ao bolsonarismo. Esse ano com o resultado das urnas foi diferente. Temos um grupo do Centrão que já está fortemente conversando com o governo, já pensaram até em rediscutir a questão das emendas parlamentares, por um receio de que essas emendas vão cair todas nas mãos de deputados e senadores do PL. Eles estão com medo de serem substituídos na política por somente esses atores da extrema direita", diz a cientista política.
A reação de dirigentes do PL e de Tarcísio, que reconheceram o resultado das urnas, é apontada pelos especialistas como um sinal dessa possível reorganização. Domingos também avalia que a saída de Flávio pode acelerar a redistribuição de posições dentro do bolsonarismo, com outras lideranças assumindo funções que antes eram exercidas pelo senador.
"Todos esses sinais apontam para uma reorganização da extrema direita e do próprio bolsonarismo. Eu acho que a tendência agora é o Flávio ir saindo de cena e outras figuras ocuparem as posições superiores do grupo. Michelle, Tarcísio e outros tantos que estão aí prontos para ocupar esse papel", aponta ele.
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