Lula consegue virada inédita, derrota Flávio Bolsonaro e está eleito presidente do Brasil pela 4ª vez
Aos 80 anos, petista conseguiu derrotar bolsonarismo em campanha marcada por crise no Judiciário e escândalos do Banco Master e do INSS
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está eleito presidente do Brasil. O petista conseguiu uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro (PL) e conquistou o mandato de presidente da República pela quarta vez, aos 80 anos. Essa foi a primeira vez na história em que um candidato conseguiu vencer a eleição presidencial após terminar o primeiro turno em desvantagem.
No primeiro turno, após Flávio receber cerca de 3 milhões de votos a mais, além das mais de 33,4 milhões de abstenções, a campanha de Lula mudou o tom. Apoiadores do petista chamaram o eleitorado para ir às ruas, com uma campanha de esquerda e direita contra o bolsonarismo. O foco passou a ser virar votos –e deu certo.
Em sua volta ao Palácio do Planalto após anulação da condenação pelo processo da Lava Jato, Lula teve um mandato marcado pela relação difícil com o Congresso, a aproximação com o STF, idas e vindas nas negociações com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, além da alta taxa de juros e o endividamento da população brasileira.
A vitória, apertada, aconteceu em meio a um cenário político marcado por uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF) em paralelo ao desenrolar das investigações do escândalo do banco Master e do INSS.
A disputa digital ganhou força depois do primeiro turno. O canal “Exército do Lula” passou a organizar ações coordenadas, com mensagens, áudios e orientações para que os seguidores compartilhassem publicações, comentassem conteúdos e ampliassem o alcance de materiais favoráveis ao presidente. Criado por Janones, o espaço chegou a reunir milhões de participantes em poucos dias, tornando-se uma das principais iniciativas de mobilização da campanha petista.
Com isso, jovens deram início a grandes mobilizações em todas as regiões do Brasil. O petista passou a contar com atos em alguma capital do País praticamente todos os dias. Ontem, na véspera da eleição, Lula arrastou uma multidão patra a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e ocupou mais de 14 quarteirões na Avenida Paulista, em Sõa Paulo.
Falta de alianças
Lula, que se manteve como a única candidatura de peso da esquerda, não teve apoio de nenhum dos principais candidatos à Presidência que disputaram o primeiro turno das eleições – diferente de Flávio Bolsonaro, que passou a ter ao seu lado Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Zema (Novo). Renan Santos (Missão) se manteve neutro. Após ficar à frente no segundo turno, Flávio também atraiu apoios de partidos do Centrão que ainda não haviam se posicionado a seu favor – como PP, Republicanos e União Brasil.
Lula manteve Geraldo Alckmin (PSB) como vice-presidente e atuou com a coligação ‘Brasil Pronto para Mais’, que reuniu PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PSB e PDT. Além disso, sua estratégia política passou por uma aproximação com o Centrão na reta final da definição das candidaturas, após dificuldade de aprovar projetos na Câmara e no Senado durante todo o terceiro mandato.
INSS, Master, STF e soberania
Escândalos em torno do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do banco Master, de Daniel Vorcaro, refletiram diretamente na corrida eleitoral deste ano. E mais que isso: revelações e investigações colocaram o Supremo Tribunal Federal em foco, fazendo a Corte atravessar uma crise sem precedentes. E isso, em consequência, impactou nas eleições.
Por mais que essas questões tenham respingando no petista, Lula não foi diretamente envolvido. Diferente de Flávio Bolsonaro, que se viu no olho do furacão – como com revelações de conversas do senador com Vorcaro, questões de investimentos para o filme Dark Horse, que conta a história do pai, e encontros depois da prisão do banqueiro.
No caso de Lula, em junho, Jaques Wagner, senador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) na Bahia, líder do governo no Senado e aliado histórico de Lula, foi alvo da Polícia Federal em nova fase da Compliance Zero, operação que investiga supostos envolvimentos em crimes do caso Master. Após isso, Wagner deixou o posto de liderança em comum acordo com Lula.
Em paralelo, o próprio filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é investigado em três inquéritos pela Polícia Federal, sob suspeita de corrupção e tráfico de influência em órgãos federais no caso do INSS. Lula foi relembrado, e questionado sobre a questão, ao longo de toda a corrida eleitoral – tanto por adversários, quanto pela imprensa. Assim como no caso de Wagner, ele repetiu todas as vezes: se fez algo de errado, deverá pagar por isso.
Sobre a crise no STF, Lula defende que haja uma reforma no Judiciário e que todos sejam investigados, sem blindagem. "A democracia precisa de instituições fortes e respeitadas. Fica claro que nossos sistemas políticos e Judiciário precisam de reformas profundas. É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer", defendeu ao se pronunciar sobre o caso no início de setembro.
Outro assunto que marcou a campanha do petista foi a bandeira da soberania nacional –que vem sendo defendida antes mesmo de ele se lançar candidato para essa eleição. O discurso se inflou frente às tarifas aplicadas por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e tentativas de intervenção no Brasil. Lula repetiu diversas vezes, ao longo dos últimos meses, que o Brasil não é colônia, que defender a soberania é defender a democracia e que as decisões e que ninguém afastará o país de sua soberania.
2º turno teve primeiros debates, pacote de bondades e Exército de Lula
No domingo, 18, uma semana antes das eleições, Lula e Flávio se enfrentaram no primeiro debate do segundo turno, promovido pela Band. O encontro foi marcado mais por acusações mútuas de corrupção e questionamentos sobre familiares do que pela apresentação de propostas. Segurança pública, saúde, economia, endividamento e o fim da escala de trabalho 6x1 também estiveram entre os temas discutidos.
Outro momento que repercutiu foi o embate sobre a abertura dos sigilos. Durante o debate, Lula se dispôs a abrir os próprios dados bancários e telefônicos e desafiou Flávio a fazer o mesmo, para que os eleitores pudessem avaliar as suspeitas levantadas durante a campanha. A discussão ultrapassou o confronto na Band e se transformou em uma disputa entre as campanhas sobre quais informações deveriam ser disponibilizadas e quem deveria ser incluído no procedimento.
TSE e Meta entram no centro da disputa
A Justiça Eleitoral também tomou decisões sobre conteúdos de campanha e mobilização digital. O caso do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones (Rede-MG) para mobilizar apoiadores do presidente, gerou questionamentos sobre a atuação do tribunal. Com milhões de seguidores, o canal foi alvo de decisões conflitantes do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e do corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva.
Nunes Marques determinou a suspensão do canal por falta de registro formal, enquanto Cueva derrubou uma das decisões e autorizou a continuidade do funcionamento. Após a regularização do registro, a retomada das publicações foi autorizada, com previsão de um prazo de 48 horas. O episódio provocou uma crise interna no TSE e críticas de aliados de Lula, além de acusações de favorecimento à campanha adversária.
A Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, também passou a ser alvo de questionamentos. Nesta quinta-feira, 22, a plataforma retirou do Instagram um teaser de um episódio da série jornalística Revelando, apresentado por MC Cabelinho e crítico à trajetória política de Flávio.
Bolsa Família entra na disputa eleitoral
A declaração de Daniella Marques, coordenadora do plano econômico de Flávio Bolsonaro, sobre a criação de uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que consigam emprego formal ou abram um negócio provocou repercussão nas redes sociais. Aliados de Lula criticaram a proposta, e o senador publicou um vídeo para negar que pretenda acabar com o programa.
No mesmo dia, o governo Lula anunciou a antecipação dos pagamentos de outubro, que foram concluídos até quarta-feira, 21, antes do segundo turno, marcado para domingo, 25. A medida também será aplicada aos calendários de novembro e dezembro.
De líder sindical a três vezes presidente
Lula já foi presidente da República três vezes. Uma das suas promessas de campanha na eleição passada, em 2022, foi de que não tentaria a reeleição – mas sem ter preparado um sucessor na esquerda com força política o suficiente para substituí-lo em um novo pleito, foi candidato novamente neste ano na busca pelo tetra.
Agora, eleito para mais quatro anos, Lula está diante da reta final de sua carreira política como presidente. Isso porque, querendo ou não, não poderá concorrer novamente nas eleições de 2030, visto que a Constituição Federal permite apenas uma reeleição subsequente. Se quiser tentar novamente, apenas em 2034, ano em que completará 84 anos.
Lula entrou no jogo político como líder sindical e metalúrgico, sendo um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) na década de 1980. Antes de ser presidente da República pela primeira vez, perdeu três eleições (1989 1994 e 1998). Foi na mudança para uma figura ‘Lulinha paz e amor’ e articulações para retomada econômica que ele conseguiu conquistar o eleitorado.
Em 2002, o Brasil enfrentava uma crise econômica, com alta inflação e desconfiança do mercado financeiro, após o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Na chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, na época, Lula falava sobre resgatar a soberania do país, realizar uma reforma tributária, combater a miséria e fazer uma reforma trabalhista.
No mandato de 2002, ele não conseguiu erradicar a fome, uma de suas promessas. Mas o Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014, durante o mandato de Dilma Rouseff (PT). Depois, durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL) e a pandemia de covid-19, o País retornou à listagem. E em 2025, com Lula presidente novamente, o Brasil voltou a ficar de fora do mapeamento.
Outra bandeira levantada nesse primeiro mandato era a de redução da jornada de trabalho --na época, com a discussão de reduzir de 44 horas semanais para 40 horas sem diminuir os salários. Na época, ele não teve força política frente ao Congresso para fazer a mudança geral. Anos depois, o tema segue em debate. E, agora, o tema segue vivo na busca do petista pelo fim da jornada 6x1.
A meta de gerar 10 milhões de empregos de 2002 a 2005 também não foi cumprida. O mercado melhorou, mas a meta foi cumprida quase que pela metade --com em torno de 4,6 milhões de empregos formais tendo sido criados no seu primeiro mandato. A reforma tributária, por sua vez, também veio a ser resolvida só agora, com aprovação durante seu terceiro mandato.
Em 2006, Lula venceu a disputa contra Geraldo Alckmin, que na época era o representante do principal partido da oposição, o PSDB. O mesmo Alckmin que, agora, está sendo oficializado mais uma vez como seu vice-presidente. Na época, foi um mandato que se deu em contexto de desgaste político por conta do escândalo do Mensalão. Em paralelo, o mundo também lidou com uma grande recessão em 2008.
As metas propostas por Lula neste segundo mandato não foram tão específicas quanto às do mandato anterior. Mesmo assim, por exemplo, o petista conseguiu cumprir acelerar o crescimento econômico com investimentos em infraestrutura e expandiu o Ensino Público Superior e Técnico.
O que ele não fez foi conseguir realizar uma reforma política. No caso, ele defendia a criação de uma Assembleia Constituinte exclusiva para uma reforma política e levava isso como uma das promessas de campanha. A ideia de Lula encontrou resistência no Congresso Nacional e a proposta não chegou a ir para frente.
Depois da reeleição de Lula, Dilma Rousseff seguiu o projeto petista no poder – sendo presidente de 2010 a 2016, quando sofreu impeachment após ser reeleita. Lula retornou à presidência em 2022, após derrotar Jair Bolsonaro em uma tentativa de reeleição. Agora, na reta final de seu terceiro mandato, ainda há promessas de campanha pendentes.
O 'Lula 3’ conseguiu cumprir metas significantes: como fazer a tão discutida reforma tributária, zerar o Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, recriar ministérios de Cultura, Previdência Social e abrir o de Povos Originários, e não privatizar o Banco do Brasil, nem os Correios e a Petrobrás.
O plano de governo de Lula também trazia como compromisso propor uma nova legislação trabalhista de proteção social -- algo que, de forma ou outra, sempre fez parte das promessas do petista. Em meio a isso, o governo articulou o fim da escala 6x1, aprovada na Câmara em maio deste ano e no Senado na reta final da eleição.
Além de descumprir sua palavra de que não disputaria nas eleições de 2026, também não conseguiu universalizar a banda larga em escolas, nem zerar filas geradas pela pandemia que foram acumuladas no Sistema Único de Saúde (SUS), nem recriar o Ministério de Segurança Pública, outras promessas da última campanha.
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