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Conheça a única mulher eleita prefeita de uma capital

Ao 'Estadão', a chefe do Executivo de Palmas conta sobre sua trajetória, tumultuada pela coordenação de campanhas políticas e marcada por passagens pelo hospital por causa da família

4 dez 2020 11h50
| atualizado às 12h13
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No dia 15 de novembro, Cinthia Ribeiro (PSDB) foi reeleita prefeita de Palmas, no Tocantins. Única mulher escolhida nas eleições 2020 para comandar uma capital, ela conta que, no dia da votação, estava "muito nervosa", mas conseguiu se conter e não deixou isso transparecer. Aos que perguntavam, ela explicava a aparente serenidade - seu "coração de mãe", afirma, "já foi testado de tudo que é jeito". Aos 43 anos de idade, Cinthia tem uma trajetória tumultuada pela coordenação de campanhas políticas e marcada por passagens pelo hospital por causa da família.

'Conservadora e feminista': Cinthia Ribeiro é a única mulher eleita em 2020 para comandar uma capital
'Conservadora e feminista': Cinthia Ribeiro é a única mulher eleita em 2020 para comandar uma capital
Foto: Edu Fortes/Divulgação / Estadão Conteúdo

O ano de 2020 foi o primeiro em que a prefeita se lançou como cabeça de chapa. Em 2014, concorreu a vice-governadora de Tocantins pelo PTN (Atual Podemos), sem sucesso. Já em 2016, foi eleita vice-prefeita da capital pelo PSDB, na chapa de Carlos Amastha (PSB). Assumiu o cargo em 2018, depois de Amastha renunciar ao posto para concorrer ao governo do Estado - e perder. Neste ano, foi reeleita com 36,24 % dos votos válidos no primeiro turno - Palmas tem menos de 200 mil eleitores e, portanto, não conta com a segunda etapa da disputa.

Mais velha entre três irmãs, Cinthia é filha do comerciante Antônio José Caetano com a dona de casa Niclair Alves Caetano. Fonoaudióloga de formação, ela conta que se aproximou da política por causa do senador João Ribeiro, com quem foi casada. Ele faleceu em 2013, vítima de leucemia.

Cinthia conheceu Ribeiro em Brasília, no final da décade de 90. Recém mudada para a cidade com a família, onde seu pai trabalhava com vendas, ela teve sua época de "concurseira" - estudava "de manhã, è tarde, à noite e de madrugada". Mas foi por meio de uma empresa terceirizada que acabou num posto de ajudante administrativa no gabinete da liderança do PPB (atual PP) no Senado Federal, sendo posteriormente contratada como assessora. Ela deixou o cargo quando o marido, que até então era deputado federal, foi eleito senador pelo Tocantins, em 2002.

Foi com João Ribeiro que Cinthia teve seu único filho, João Antônio, de 13 anos. A mãe, que diz encampar a luta por mais representatividade feminina, guarda para o filho as frases no diminutivo, e afirma que foi com por causa da criança que passou os momentos mais difíceis de sua vida - e também os mais bonitos.

João Antônio realizou sua primeira cirurgia aos 21 dias de vida. Nasceu com uma cardiopatia rara e precisou fazer uma intervenção para colocar uma espécie de stent na válvula pulmonar, explica Cinthia. A segunda operação veio antes do primeiro ano de idade. "Aos 11 meses, ele fez aquela cirurgia grandona, extracorpórea, que abre o peitinho, tira o coração, opera e depois devolve para o lugar de novo", conta ela. É também ao falar do filho que sua voz treme ligeiramente. "Falar sobre isso hoje é facil, mas nao época nao conseguia. Ainda hoje eu me emociono um pouquinho."

Depois do nascimento de João Antônio, que precisava de cuidados, ela se dedicou exclusivamente ao filho por um tempo. Chegou a administrar também as empresas da família - uma faculdade em Paraíso do Tocantins e um laboratório de lentes para óculos. Atualmente, a faculdade é a única que continua em sua propriedade. Depois, atuou ainda nas campanhas do "João pai". Em 2010, quando ele concorreu à reeleição como senador, ela conta que andou por "139 municípios, no dedão". Foi também com Ribeiro que Cinthia passou a morar em Tocantins - eles dividiam o tempo entre Palmas e Brasília.

Quando seu filho João Antônio chegou aos sete anos, já depois do falecimento do pai, surgiu uma nova complicação. "Descobrimos que ele tinha na cabeça a mesma malformação com que nasceu no coração", relata Cinthia. "Foi necessário fazer uma cirurgia muito grande e complexa. Dessa vez, foi necessário abrir a cabecinha", relembra. No pós operatório, ainda com o rosto inchado e sem conseguir abrir os olhos, o menino pronunciou a palavra "mamãe". Foi quando Cinthia soube que estava tudo certo. "Foi um dos dias mais lindos da minha vida", diz ela. "Como se ele tivesse nascido de novo". O menino passou pela cirurgia no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, mesmo lugar onde o pai, João Ribeiro, lutou pela vida durante um ano.

'Uma mulher moderna, conservadora e feminista'

Cinthia se define como "uma mulher moderna". Católica, ela conta que namora um pastor, Eduardo Mantoan, há dois anos e meio. "Ele me fez mais evangélica do que católica, embora eu ainda não seja batizada na igreja evangélica". Ela diz que é "de centro", "muito feminista" e "conservadora" - o último adjetivo, afirma, não tem a ver com uma agenda de costumes, mas antes com a opção por preservar traços da política tradicional. "Não existe velha e nova política, existe a boa política", diz ela.

Como marca de seu novo mandato à frente de Palmas, ela quer eficiência, obras e "protagonismo dos cidadãos". Cinthia diz ainda que, embora "não faça parte de movimentos de esquerda", entende a " necessidade de participação de mais mulheres na política", uma luta que ela afirma ser suprapartidária.

Mesmo tendo dito que era "impossível não se emocionar" quando assistiu à posse de Jair Bolsonaro como presidente da República, Cinthia rejeita o adjetivo de bolsonarista. "As pessoas deram o recado claro de que o queriam como presidente. Temos uma defesa em comum, que é por uma capital melhor, que conte com o apoio do governo federal", diz ela "mas dizer que somos aliados é extremo". Já em relação à pandemia e às queimadas que assolam o Brasil, ela afirma: "não sou de negar que uma situação existe".

Para Cinthia, sua reeleição foi um marco importante, mas também mostra que "ainda é necessário avançar mais". Em relação à representatividade feminina, ela conclui: "este é um mandato para chamar de nosso".

Estadão
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