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Alexandre Kalil, de 'antipolítico' carrancudo a mais votado em Belo Horizonte

Filho de Elias Kalil, de quem herdou a paixão pelo Clube Atlético Mineiro, Alexandre Kalil foi reeleito prefeito de BH em primeiro turno, superando 60% dos votos

2 dez 2020
12h00
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BELO HORIZONTE - Carrancudo — fez questão de aparecer assim até na fotografia de candidato —, famoso pelas respostas ríspidas a perguntas incômodas de repórteres, visto como alguém que não dá vida boa a aliados, e vencedor em primeiro turno, com mais de 60% dos votos, da disputa pela reeleição à prefeitura de Belo Horizonte. Um olhar superficial pode dar a Alexandre Kalil (PSD) motivos para ser chamado de um antipolítico. Tudo o que ele não é.

Alexandre Kalil (PSD) foi vencedor em primeiro turno, com mais de 60% dos votos, da disputa pela reeleição à prefeitura de Belo Horizonte
Alexandre Kalil (PSD) foi vencedor em primeiro turno, com mais de 60% dos votos, da disputa pela reeleição à prefeitura de Belo Horizonte
Foto: Instagram/Alexandre Kalil / Estadão

A participação de Kalil no programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira, 30, provocou repercussão no mundo político e o levou aos temas mais comentados nas redes sociais. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, chamou o prefeito de Belo Horizonte de "ditador" devido à sua postura sobre restrições na pandemia do novo coronavírus. Kalil afirmou que se os casos da doença aumentarem, ele determinaria o fechamento do comércio mais uma vez.

"Seguidores da lei são cidadãos de segundo escalão para ditadores como Kalil. Repugnante postura. É quase dizer 'cometa um crime e seja beneficiado'", escreveu Eduardo. "Parabéns BH, pela reeleição deste belo projeto de ditador, ou melhor, prefeito." Horas depois, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) defendeu Kalil, a quem chamou de "melhor prefeito". "Nenhum destes idiotas corruptos (Bolsonaros) têm moral para calçar o sapato do melhor prefeito de capital do Brasil que é o Kalil!", declarou.

O atual prefeito da capital mineira até tentou parecer um antipolítico, principalmente em sua primeira disputa pela prefeitura, em 2016. À época filiado ao PHS, gostava de dizer que não sabia o endereço da sede da legenda. Na campanha de quatro anos atrás, chegava a posto de saúde da cidade e perguntava ao atendente se estava faltando remédio. As imagens iam para a propaganda eleitoral na televisão. Prometia que não prometeria nada.

Com esse discurso, e aproveitando o esgarçamento dos rivais PT e PSDB, as duas principais forças políticas na cidade até então, deixou o partido do ex-presidente Lula pelo primeiro turno e foi para a segunda etapa de votação com os tucanos. Venceu a eleição de virada, batendo o deputado estadual João Leite, apoiado pelo então senador, Aécio Neves (PSDB), hoje deputado federal.

Na porta de sua casa, no dia da vitória, disse que havia acabado a era dos "mortadelas" e dos "coxinhas", termos usados à época para petistas e tucanos, respectivamente. E que, dali pra frente, seria o tempo da esfirra e do kibe, uma menção às origens de sua família.

Em seu governo, porém, colocou Maria Caldas, uma das principais referências do PT na área do urbanismo, como secretária de Políticas Urbanas, e Fuad Noman, ex-secretário de Fazenda de Aécio Neves quando governador de Minas, para o mesmo cargo no plano municipal. Noman é, inclusive, vice de Kalil na chapa vencedora no domingo, 15.

Apesar de seu "esforço", Kalil nunca se encaixaria na figura de um não político. Filho de Elias Kalil, um empreiteiro apaixonado pelo Clube Atlético Mineiro, o prefeito herdou empresa e paixão pelo time. Assim como o pai, presidiu a equipe de futebol, tarefa impossível para quem não quer se meter com política.

Antes de disputar a primeira eleição para a prefeitura, Kalil já havia sido filiado ao PSB e chegou a articular disputa por vaga na Câmara dos Deputados em 2014. Acabou desistindo. Atualmente mantém próximos pelo menos dois políticos de alcance nacional. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT), que apoiou na eleição presidencial de 2018.

Na campanha pela reeleição, Kalil não teve mais que 20 agendas. Todas foram encontros rápidos com representantes de entidades. A justificativa foi a pandemia do novo coronavírus. Também não compareceu ao único debate realizado entre os candidatos, ocorrido na rede de TV Band. Na propaganda eleitoral em rádio e televisão, ele afirmava que, se o povo achava que a vida tinha melhorado um pouco, que votasse nele. Citou algumas obras, como a construção e reforma de postos de saúde e projetos para evitar enchentes na cidade.

O prefeito não só venceu a disputa, com 63,36% dos votos, como viu ficar em terceiro lugar o candidato com maior tempo no horário eleitoral e seu principal crítico na disputa, o deputado estadual João Vítor Xavier (Cidadania), que teve 9,22% dos votos. O parlamentar relembrava as chuvas do início do ano na cidade, que mataram 13 pessoas, e dizia que Kalil não mantinha bom relacionamento com os governos estadual e federal.

O segundo colocado foi o também deputado estadual Bruno Engler (PRTB), um bolsonarista que sequer conseguiu atrair partidos para uma coligação e, por falta de representatividade de sua legenda no Congresso Nacional, não teve direito a participar da propaganda política em rádio e televisão.

Aproximação com partidos

Um aliado de Kalil desde o início do primeiro mandato afirma que, independentemente do estilo pessoal, nervoso ou não, o prefeito se considera "meio paizão" da população, sobretudo a mais carente, e investiu em serviços como postos de saúde, creches e escolas. Segundo esse interlocutor, o prefeito se beneficiou também de um "governo sem escândalos". Sobre o estilo "brigão", o amigo diz que Kalil passa longe disso.

O professor Robson Sávio Reis Souza, coordenador do Núcleo de Estudos Sócio-Políticos (Nesp) da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) afirma que Kalil, depois de se eleger como alguém de fora da política, se mostrou hábil ao se cercar de assessores e técnicos de partidos que tinham um eleitorado na cidade, e de se aproximar de movimentos populares na Capital. Um exemplo citado pelo professor é o da Ocupação Izidoro, onde vivem cerca de 30 mil pessoas. A região é cobiçada por construtoras. "Kalil prometeu aos moradores da área que ela não será entregue de qualquer maneira às empreiteiras".

Souza diz ainda que o discurso do prefeito agrada o eleitorado. "É um político que fala que tem o problema e afirma que vai resolver. Às vezes não consegue, como é o caso, por exemplo, do transporte público na cidade. Porém, não deixa de citar o que precisa ser feito", analisa o professor. Em seu primeiro mandato, Kalil disse que abriria "a caixa preta" da BHTrans, se referindo aos cálculos para formação do preço da tarifa de ônibus na capital — uma das mais caras do País — pelas empresas concessionárias.

Kalil agiu assim também durante as chuvas do início do ano. "O prefeito nem estava na cidade quando começaram. Estava viajando, de férias. Voltou, disse que a cidade tinha um problema histórico neste aspecto e montou um gabinete de emergência. Com isso consegue um grau de simpatia que vai da esquerda à direita. Com certeza tivemos muitos simpatizantes do PT e do PSDB que votaram no Kalil nesse primeiro turno das eleições 2020", sintetiza o professor.

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Estadão
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