Especialista alerta para 'caos informacional' gerado pela IA em ano de eleição: 'Tornar coisas banais em espetaculares'
Sérgio Amadeu avalia que período eleitoral será marcado pela forte presença de deepfakes
O uso de inteligência artificial se tornou essencial nas campanhas eleitorais, potencializando tanto a desinformação quanto práticas positivas, mas com impacto negativo prevalecendo, segundo o especialista Sérgio Amadeu.
Em ano de eleições e em tempos de inteligência artificial (IA) cada vez mais avançada, é inevitável que, muito em breve, seremos bombardeados por propagandas políticas, especialmente na internet e nas redes sociais. É fundamental estar de olhos e ouvidos abertos para reconhecer as fake news, deepfakes e outros adventos que podem confundir o eleitor.
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O cientista político e pesquisador de Cibercultura Sérgio Amadeu, que integrou o Comitê Gestor da Internet no Brasil, aponta que atualmente é impossível fazer uma campanha política sem estar presente na internet, já que as propagandas têm grande financiamento e partidos contratam agências especializadas.
“Não há mais campanha eleitoral praticamente, principalmente para campanhas majoritárias, sem o uso da internet, sem o uso das redes digitais, sem o uso de mensageiros instantâneos”, avalia.
“É muito difícil uma agência de publicidade não utilizar algum tipo de inteligência artificial para essas candidaturas”, completa.
Segundo Amadeu, a disputa eleitoral, hoje em dia, acontece majoritariamente pelas redes sociais, de forma digital, já que 90% da população brasileira usa aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. Esse ambiente cria condições ideais para a disseminação de conteúdo feito por IA generativas em larga escala.
Espalhar desinformação fica mais fácil
Dessa forma, a IA pode elevar o patamar da desinformação eleitoral, de acordo com o especialista. Isso porque a inteligência artificial é capaz de criar conteúdos extremamente realistas, como falas, imagens, vídeos, que depois podem ser atribuídos a pessoas reais que nunca disseram ou fizeram aquilo. Ainda que a desinformação seja desmentida, o dano maior já foi causado, uma vez que a disseminação é mais rápida do que a contestação.
“Você consegue colocar um adversário num lugar onde ele não esteve falando coisas que ele nunca disse”, pontua. Como a contestação só acontece depois que o estrago já foi feito, ela pode acabar sendo insuficiente.
Amadeu reconhece que a desinformação circula com mais velocidade, engajamento e impacto emocional do que o desmentido. “A checagem de fatos é fundamental, mas ela vai sempre estar atrás”.
“Caos informacional”
Para Amadeu, o sucesso da desinformação não se dá apenas pelo radicalismo, mas pela capacidade de transformar conteúdos em um espetáculo. A IA é capaz de potencializar a lógica, tornando as mensagens ainda mais chamativas e com potencial para viralizar. “A espetacularização é fundamental nessas plataformas digitais para gerar engajamento. O que chama a atenção é tornar coisas banais em espetaculares”.
Com a viralização de conteúdo enganoso, a desinformação passa a se tornar uma estratégia central para destruir o debate baseado em fatos. Nesse contexto, a IA generativa é uma ferramenta capaz de criar confusão, ruído e descrédito da informação, segundo avalia Sergio Amadeu, que nomeia a situação: “caos informacional”.
Como usar a IA de forma positiva nas eleições?
Amadeu reconhece que a IA pode ser usada de forma positiva, inclusive pela Justiça Eleitoral e por campanhas, para detectar desinformação ou produzir conteúdos legítimos. No entanto, ele avalia que o impacto positivo tende a ser menor do que o negativo no contexto atual.
“Você pode usar um modelo de IA para fazer alguma solução que beneficia o eleitor. A própria IA vai ser utilizada para detectar uma produção de desinformação, mas veja, o grau de positividade dela tende a ser inferior ao grau de toxicidade que ela vai trazer”, pondera, destacando que a tecnologia é ambivalente.
Ele reforça que a tecnologia não está acima das disputas da sociedade. A IA será apropriada de formas distintas por diferentes grupos políticos, refletindo interesses, ideologias e estratégias específicas. “Essa tecnologia não está acima das contradições da sociedade. Ela vai ser apropriada de modo diferente de ambos os lados”, finaliza.
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