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Clãs Sarney, Calheiros e Magalhães se reinventam em 2022 para tentar manter poder

No Maranhão, Roseana Sarney disputará vaga na Câmara e enfrenta dificuldade para fechar lista de candidatos no Estado; Renan Filho tentará Senado enfrentando grupo de Collor e Lira. Na Bahia, ACM Neto quer ser governador

18 abr 2022 - 16h55
(atualizado às 19h24)
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BRASÍLIA - Em outubro deste ano, três famílias tradicionais da política nordestina terão de adotar novas estratégias para manter um poder que possuem há décadas. No Maranhão, Roseana Sarney (MDB) tentará voltar a Brasília como puxadora de votos de seu partido na disputa pela Câmara dos Deputados; em Alagoas, o ex-governador Renan Filho (MDB) concorrerá ao Senado contra Fernando Collor (PROS), que conta com o apoio do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), líder de outro clã forte no Estado. A situação mais tranquila é a do ex-prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (União Brasil), que busca conquistar o governo baiano com recursos milionários de seu partido e sem um oponente de peso no PT, que hoje ocupa o Palácio de Ondina.

Roseana Sarney é filha do ex-presidente e escritor José Sarney (1985-1990). Foi governadora do Maranhão por quatro mandatos (1995 a 2002 e 2009 a 2014) - mas, este ano, deve concorrer a uma vaga como deputada federal. A dificuldade na disputa pelo Senado pesou na decisão, disse ela ao Estadão. A vaga na Casa terá páreo duro este ano, com a entrada na corrida do ex-governador do Estado, Flávio Dino (PSB), e, possivelmente, do atual detentor da cadeira, Roberto Rocha (PSDB).

"Decidi mesmo sair para deputada federal porque eu gostaria de voltar (a Brasília). Já fui deputada federal (1991 a 1994), já fui senadora (2003-2009) e governadora, e queria voltar a ter essa experiência de deputada. E eu também acho que, no Congresso, as coisas começam lá na Câmara. O impeachment, o Orçamento da União. Além da dificuldade também da candidatura para o Senado. Eu preferi ir para a Câmara", afirmou Roseana Sarney.

A presidência nacional do MDB funciona em uma ampla casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Na sala de reuniões, bandeirinhas dos Estados brasileiros e fotos de caciques como Michel Temer, Jader Barbalho e Romero Jucá. No mês passado, Roseana esteve no local para apresentar ao presidente nacional da legenda, o deputado federal Baleia Rossi (SP), uma parte dos candidatos que tentará trazer para a capital federal em 2023, como puxadora de votos do MDB na eleição para a Câmara dos Deputados.

No momento, ela luta para concluir a lista de candidatos do MDB à Câmara e à Assembleia Legislativa - fechar a nominata é "um aperreio", nas palavras de Roseana. Para se manter competitivos, os partidos buscam lançar o máximo possível de candidatos aos cargos proporcionais. No Maranhão, são necessários 19 postulantes à Câmara dos Deputados.

"Quando você já tem deputados eleitos (na sua legenda), ninguém quer sair candidato. Dizem que não vão servir para eleger outra pessoa. Em todos os partidos há essa confusão", disse ela. Roseana afirmou que havia "uma tendência" de o MDB apoiar o candidato de Flávio Dino ao governo do Estado, seu ex-vice e atual governador, Carlos Brandão Junior (PSB). No entanto, as conversas não foram adiante. Uma decisão sobre o assunto só será tomada mais tarde.

Alagoas

Em Alagoas, o ex-governador Renan Filho (MDB) tentará a vaga no Senado, e a disputa promete ser dura: ele enfrentará o ex-presidente Fernando Collor (PROS), que busca a reeleição com o apoio do atual presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas). Nos últimos anos, o comandante da Câmara levou centenas de milhões de reais para Alagoas por meio do orçamento secreto, conquistando o apoio de prefeitos em todas as regiões do Estado. A dupla Lira e Collor vai oferecer no Estado o palanque a Bolsonaro, enquanto o clã Calheiros apoiará o ex-presidente Lula (PT), repetindo a disputa presidencial no âmbito alagoano.

Renan Filho deixou o cargo de governador no início do mês para disputar a cadeira de senador pelo Estado - a desincompatibilização é uma exigência da lei eleitoral. Até agora, não tem um sucessor: em outubro de 2020, o então vice-governador, Luciano Barbosa (MDB), rompeu com o clã dos Calheiros e se elegeu prefeito de Arapiraca (AL), segundo maior município do Estado. Por isso, caberá à Assembleia Legislativa alagoana escolher o governador e o vice para um mandato tampão, até o fim do ano, numa eleição entre os deputados estaduais.

Há a possibilidade de o Palácio Floriano Peixoto acabar nas mãos do grupo político de Arthur Lira: o chefe da Câmara dos Deputados teria, de saída, pelo menos 9 dos 27 integrantes da Assembleia como aliados, segundo apoiadores. Uma reviravolta do tipo colocaria a máquina do governo estadual nas mãos de adversários do ex-governador, criando uma dificuldade a mais.

O MDB de Renan Filho terminou bem a janela partidária do mês de março: a sigla tem agora 17 dos 27 deputados estaduais, número suficiente para eleger o governador-tampão. O candidato dos Calheiros é o estadual Paulo Dantas (MDB), que nos últimos dias tem rodado o Estado acompanhado de Renan Filho fazendo aparições em eventos.

Apesar das dificuldades, o senador Renan Calheiros se diz tranquilo. "Arthur Lira é um típico caso daquelas pessoas que têm influência em Brasília e não têm voto popular no Estado. Quando você coloca (nas pesquisas) o apoio dele para qualquer candidato a governador, o candidato perde voto. Então, é essa a circunstância. A gente aqui não tem preocupação quanto à participação dele (Lira)", afirmou Calheiros, que é adversário declarado do deputado.

"O pai dele (Benedito de Lira, o Biu) era senador, perdeu a eleição para o governador Renan Filho no primeiro turno (em 2014). E em 2018 (Benedito) teve a metade dos meus votos na eleição para o Senado. Perdeu. Nós não temos muita preocupação. Ele exagera na coisa do orçamento secreto, mas não tem dinheiro em nenhuma obra estruturante no Estado, que ajude no desenvolvimento local. É tudo custeio para hospitais privados, para prefeituras. Sabe lá Deus a que preço. A eleição dele (Arthur) é provável como deputado federal. Mas a influência dele nas eleições majoritárias é negativa", declarou Renan Calheiros.

Bahia

Na Bahia, o ex-prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (União), o ACM Neto, tentará o governo do Estado - posto que seu avô, Antônio Carlos Magalhães, exerceu por três vezes nas décadas de 1970 a 1990. No fim de fevereiro, ACM Neto recebeu uma boa notícia: o senador e ex-governador Jaques Wagner (PT) desistiu de disputar o Palácio de Ondina. Wagner era o segundo colocado nas pesquisas. Em seu lugar, o PT indicou o atual secretário de Educação do governo de Rui Costa (PT), Jerônimo Rodrigues, que mal pontua nos levantamentos mais recentes de intenção de voto.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 22 de março mostra ACM Neto muito à frente dos demais pré-candidatos: o herdeiro do carlismo tem entre 66 e 69% das intenções de voto na pesquisa estimulada, em que os nomes dos candidatos são apresentados ao eleitor. O ex-ministro da Cidadania João Roma (PL) aparece com 5%; Jerônimo Rodrigues tem entre 4 e 6%, e Kleber Rosa (PSOL), de 2 a 3%.

As boas notícias para ACM Neto, no entanto, terminam por aí, diz o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest. "Existem hoje na Bahia dois pólos: um é o do ACM Neto, que está muito bem avaliado e tem um alto recall (reconhecimento) no Estado. Do outro lado tem o grupo político do PT, com o governo do Estado também bem avaliado, e uma força política do Lula gigantesca. Só que essa força do PT não aparece na pesquisa, porque o Jerônimo é um cara altamente desconhecido", explicou. "ACM Neto aparece com quase 70% no primeiro turno, mas eu não acho que este é o quadro final. O governo bem avaliado de Rui Costa vai transferir votos para o Jerônimo, assim como o apoio de Lula." Procurado, ACM Neto não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A pesquisa espontânea, em que não são fornecidos os nomes dos pré-candidatos, mostra que 59% de eleitores ainda não decidiram o voto. E que 53% dos baianos declaram que preferem um governador "mais ligado a Lula (PT)", ante 29% que preferem um político que não esteja ligado nem ao ex-presidente petista e nem a Jair Bolsonaro, como é ACM Neto.

Estadão
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