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Brasil chega ao 2º turno entre Flávio e Lula com a eleição mais imprevisível da história

Diferença histórica no primeiro turno, debates e mobilização nas ruas e nas redes marcam reta final da eleição presidencial

24 out 2026 - 05h00
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Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT), candidatos à Presidência da República
Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT), candidatos à Presidência da República
Foto: Estadão Conteúdo

O Brasil chega ao segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo, 25, com uma das disputas mais acirradas desde a redemocratização. Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecem tecnicamente empatados nas pesquisas mais recentes, após uma primeira etapa em que o senador terminou à frente do presidente por uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual.

Acompanhe em tempo real neste domingo todos os resultados da apuração da Eleição 2026

A campanha também foi marcada por embates judiciais, acusações de corrupção, manifestações nas ruas, mobilização de artistas e influenciadores e questionamentos sobre a atuação das plataformas digitais. Para Karolina Mattos Roeder, professora de Ciência Política da Uninter, a combinação entre polarização e margem estreita torna o resultado difícil de antecipar.

“A disputa é imprevisível porque reúne polarização estável e margem mínima. As pesquisas do segundo turno apontam empate técnico. Nesse cenário, qualquer variação pequena de comparecimento ou de voto nulo e branco pode decidir o resultado”.

Pesquisas apontam empate técnico

O levantamento mais recente da Quaest, divulgado em 21 de outubro, mostra Flávio com 45% das intenções de voto e Lula com 44%. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa ouviu 2.154 pessoas entre os dias 17 e 20 de outubro e foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-08535/2026.

Outros levantamentos divulgados na reta final também apontam uma disputa acirrada. A pesquisa PoderData/Aya, publicada em 22 de outubro, indicou Flávio com 51% das intenções de voto, contra 49% de Lula. Já o levantamento do Instituto Indexa, divulgado também no dia 22, mostrou o senador com 50,6% dos votos válidos no segundo turno, ante 49,4% do presidente.

Veja as diferenças das manifestações de Lula e Flávio sobre a quebra dos sigilos:

O cenário reflete uma disputa que já começou acirrada. No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula. A diferença de 1,87 ponto percentual, equivalente a cerca de 2,2 milhões de votos, foi a menor entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.

Para Karolina, as pesquisas têm limitações para antecipar o resultado de uma disputa tão acirrada. Além de não indicarem com precisão quem efetivamente comparecerá às urnas, os levantamentos enfrentam dificuldades para estimar a transferência de votos dos candidatos derrotados no primeiro turno.

“As pesquisas medem intenção declarada, sem saber quem comparecerá, sofrem com o viés de não resposta em um eleitorado polarizado, não captam bem o voto envergonhado e estimam a transferência de votos de terceiros colocados com amostras pequenas e alta incerteza. Soma-se a isso o horizonte curto do segundo turno, em que eventos de última hora têm efeito desproporcional”.

Sabatina, debate e disputa por acusações

A reta final da campanha também foi marcada por sabatinas e debates entre os candidatos. Lula participou de uma entrevista do SBT na segunda-feira, 19, enquanto Flávio recusou o convite da emissora. A campanha do senador justificou a ausência com compromissos de agenda. Os dois, porém, participaram de sabatinas promovidas pela TV Globo.

‘Nós vamos tirar das emendas parlamentares’, diz Lula sobre recursos para PEC do transporte gratuito:

No domingo, 18, Lula e Flávio se enfrentaram no primeiro debate do segundo turno, promovido pela Band. O encontro foi marcado mais por acusações mútuas de corrupção e questionamentos sobre familiares do que pela apresentação de propostas. Segurança pública, saúde, economia, endividamento e o fim da escala de trabalho 6x1 também estiveram entre os temas discutidos.

Lula cobrou explicações sobre os R$ 134 milhões que Flávio pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro (PL). O senador, por sua vez, questionou o presidente sobre suspeitas envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a investigação sobre fraudes no INSS. Os dois também trocaram acusações relacionadas a patrimônio e corrupção.

Outro momento que repercutiu foi o embate sobre a abertura dos sigilos. Durante o debate, Lula se dispôs a abrir os próprios dados bancários e telefônicos e desafiou Flávio a fazer o mesmo, para que os eleitores pudessem avaliar as suspeitas levantadas durante a campanha. A discussão ultrapassou o confronto na Band e se transformou em uma disputa entre as campanhas sobre quais informações deveriam ser disponibilizadas e quem deveria ser incluído no procedimento.

O presidente Lula (PT)
O presidente Lula (PT)
Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

'Guerra' pela abertura dos sigilos

A disputa pela abertura dos sigilos se transformou em um embate formal na Justiça Eleitoral. Nesta última semana, Lula apresentou ao TSE um requerimento autorizando a abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, além dos dados da primeira-dama, Janja Lula da Silva, e dos cinco filhos, caso Flávio fizesse o mesmo.

Nesta quinta-feira, 22, as campanhas chegaram a um acordo para disponibilizar informações fiscais e telemáticas dos candidatos. A negociação foi marcada por divergências sobre quais dados e pessoas ligadas aos presidenciáveis deveriam ser incluídos. Um dos pontos de conflito envolveu a empresa de Willer Tomaz, advogado amigo de Flávio e investigado pela Polícia Federal. A campanha de Lula também concordou em ampliar a autorização para incluir o Instituto Lula, um assessor do presidente e o cartão corporativo de Janja.

Tarcísio discursa em ato de apoio a Flávio Bolsonaro realizado em Guarulhos na última quarta-feira, 21
Tarcísio discursa em ato de apoio a Flávio Bolsonaro realizado em Guarulhos na última quarta-feira, 21
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

Segundo as campanhas, os dados seriam disponibilizados em um site indicado pela Justiça Eleitoral, mas o acordo ainda dependia de aprovação do ministro André Mendonça. A iniciativa, que começou no debate entre os candidatos, tornou-se um dos principais embates da reta final da campanha.

TSE e Meta entram no centro da disputa

A Justiça Eleitoral também tomou decisões sobre conteúdos de campanha e mobilização digital. O caso do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones (Rede-MG) para mobilizar apoiadores do presidente, gerou questionamentos sobre a atuação do tribunal. Com milhões de seguidores, o canal foi alvo de decisões conflitantes do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e do corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva.

Nunes Marques determinou a suspensão do canal por falta de registro formal, enquanto Cueva derrubou uma das decisões e autorizou a continuidade do funcionamento. Após a regularização do registro, a retomada das publicações foi autorizada, com previsão de um prazo de 48 horas. O episódio provocou uma crise interna no TSE e críticas de aliados de Lula, além de acusações de favorecimento à campanha adversária.

Por decisão de Nunes Marques, canal ‘Exército do Lula’ sai do ar por 48 horas; Janones protesta:

A Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, também passou a ser alvo de questionamentos. Nesta quinta-feira, 22, a plataforma retirou do Instagram um teaser de um episódio da série jornalística Revelando, apresentado por MC Cabelinho e crítico à trajetória política de Flávio.

A empresa afirmou que a restrição seguia as regras eleitorais para conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial (IA) nas 72 horas anteriores à votação. A produção negou ter utilizado a tecnologia no vídeo, que foi publicado novamente algumas horas depois. Foi a segunda vez que um conteúdo do Revelando crítico a Flávio foi retirado pela Meta. No episódio anterior, relacionado a outro conteúdo da série que abordava o Banco Master, a Meta alegou que houve um erro e pediu desculpas.

Meta derruba vídeo de MC Cabelinho no Revelando
Meta derruba vídeo de MC Cabelinho no Revelando
Foto: Reprodução/YouTube

Mobilização nas ruas: atos de Lula e o “Bloco do 22”

As campanhas também disputaram a capacidade de mobilizar apoiadores nas ruas. Em 11 de outubro, a manifestação “Marcha pela Democracia”, em defesa da reeleição de Lula, lotou a Avenida Paulista, em São Paulo. O ato reuniu movimentos sociais, estudantes, torcidas organizadas, comunidades de fãs de artistas internacionais e famosos. Lula participou do evento, organizado por grupos independentes e marcado pela presença de artistas e influenciadores. Ao longo do segundo turno, outras manifestações espontâneas de estudantes em apoio ao presidente também foram realizadas em diferentes partes do País.

Com gritos de 'sem anistia' e coro contra Flávio, apoiadores de Lula se reúnem na Avenida Paulista:

Uma semana depois, em 18 de outubro, Flávio promoveu o ato “Bloco do 22”, também na Avenida Paulista. A estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da organização More in Common foi de 71,9 mil participantes no pico, às 12h20, com margem de erro de 12%. O evento reuniu lideranças da direita, entre elas o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e foi organizado após a repercussão do ato em apoio a Lula.

Flávio Bolsonaro reúne milhares de apoiadores na Avenida Paulista ao lado de Tarcísio e Nikolas Ferreira:

Redes sociais e o “Exército do Lula”

A disputa digital ganhou força depois do primeiro turno. O canal “Exército do Lula” passou a organizar ações coordenadas, com mensagens, áudios e orientações para que os seguidores compartilhassem publicações, comentassem conteúdos e ampliassem o alcance de materiais favoráveis ao presidente. Criado por Janones, o espaço chegou a reunir milhões de participantes em poucos dias, tornando-se uma das principais iniciativas de mobilização da campanha petista.

Ao mesmo tempo, artistas e influenciadores ganharam visibilidade na disputa, com publicações em seus perfis para declarar apoio aos candidatos.

Para Karolina, a mobilização digital, o desempenho nos debates e o comportamento dos eleitores que escolheram candidatos derrotados no primeiro turno estão entre os fatores que ainda podem influenciar o resultado até este domingo.

“Até o dia da votação, pesam fatores como o destino dos votos de Cury, Caiado, Zema e Renan Santos, o desempenho nos debates, notícias judiciais de última hora, a mobilização digital das duas campanhas, a atuação de artistas e influenciadores e a abstenção diferencial entre regiões e faixas de renda”.

Bolsa Família entra na disputa eleitoral

A declaração de Daniella Marques, coordenadora do plano econômico de Flávio Bolsonaro, sobre a criação de uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que consigam emprego formal ou abram um negócio provocou repercussão nas redes sociais. Aliados de Lula criticaram a proposta, e o senador publicou um vídeo para negar que pretenda acabar com o programa.

Flávio afirmou que a ideia é permitir que os beneficiários continuem recebendo o auxílio por até dois anos após conseguirem outra fonte de renda, com retorno em caso de demissão ou fracasso do negócio. A proposta, porém, se sobrepõe à regra de transição já existente no Bolsa Família, que permite às famílias que aumentam a renda continuar recebendo 50% do benefício por até 18 meses, desde que atendam aos critérios do programa. 

No mesmo dia, o governo Lula anunciou a antecipação dos pagamentos de outubro, que foram concluídos até quarta-feira, 21, antes do segundo turno, marcado para domingo, 25. A medida também será aplicada aos calendários de novembro e dezembro.

Flávio Bolsonaro e Daniella Marques em lançamento do plano Brasil por Elas
Flávio Bolsonaro e Daniella Marques em lançamento do plano Brasil por Elas
Foto: @flaviobolsonaro via Youtube/Reprodução / Estadão

Uma disputa que pode ser decidida por poucos votos

Para Rogério Baptistini, professor de Sociologia e cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a imprevisibilidade da eleição não se resume às pesquisas. O especialista chama atenção para o peso das decisões judiciais, da influência internacional e da desinformação no ambiente eleitoral.

“Os fatores que ainda podem alterar o resultado até domingo são, infelizmente, de gravidade ímpar e é exatamente por isso que tornam esta eleição diferente. Estão em jogo as decisões do TSE; as ingerências externas no processo eleitoral brasileiro, das declarações de Trump ao ‘esquerdista ladrão’ de Milei; a naturalização da mentira; e o modo como a imprensa equilibra imparcialidade e checagem dos fatos”.

Canal Exército do Lula foi criado por André Janones e tem como foto de perfil uma imagem do deputado ao lado de Lula
Canal Exército do Lula foi criado por André Janones e tem como foto de perfil uma imagem do deputado ao lado de Lula
Foto: Reprodução/WhatsApp/Exército do Lula

O cientista político também pondera que as pesquisas não medem o comparecimento às urnas e podem não captar integralmente o comportamento de grupos organizados nas redes. Para ele, a diferença entre intenção de voto e participação efetiva pode ser determinante em uma disputa tão apertada.

“As pesquisas fotografam o eleitorado de ontem; a urna revelará o eleitorado de domingo. Entre uma e outra, atuam o púlpito, o algoritmo e o medo, de ambos os lados. A imprevisibilidade de 2026 não é um defeito metodológico da nossa ciência eleitoral. Creio que é o retrato fiel de um país dividido ao meio, que escolherá seu presidente por um punhado de votos e viverá quatro anos com a metade que perder a padecer a vitória da outra. Isso é um péssimo presságio para a sociedade política brasileira”.

Fonte: Portal Terra
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