Eleições: campanha fria e digital aumenta incerteza sobre resultado das urnas
Cientista político que desenvolveu teoria sobre o presidencialismo de coalizão analisa os difíceis prognósticos para as eleições majoritárias deste ano e os riscos de seus resultados para a governabilidade e a democracia
A eleição presidencial caminha para um desfecho apertado e incerto entre Lula e Flávio Bolsonaro, cenário alimentado por uma campanha fria, polarizada nas redes e com alto índice de indecisos na reta final. A disputa reflete a falta de empolgação do eleitorado e a crise do presidencialismo de coalizão, agravada pelo poder das emendas parlamentares sobre o Congresso. A definição dependerá dos votos voláteis, dos independentes e do impacto da abstenção sobre o futuro da governabilidade.
Faltando menos de duas semanas para ir às urnas, o Brasil vive uma campanha eleitoral para a Presidência da República bem mais fria do que se imaginava, e com poucas mudanças de cenário, pelo que mostram as mais recentes pesquisas.
No momento, não acho seguro fazer análises com base em simulações de segundo turno, pois cerca de 30% dos eleitores ainda se mostram indecisos para o primeiro, como revelam as pesquisas espontâneas. E são elas, as pesquisas espontâneas, que indicam um número de indecisos mais próximo do real.
A média das últimas 18 pesquisas feitas até o dia 22 de setembro dá 39,4% para Lula e 33,6% para Flávio Bolsonaro. Não é muita diferença com relação à última pesquisa Quaest isolada, divulgada neste dia 21 de setembro, que encontrou 37% para Lula e 33% para Flávio Bolsonaro.
Examinados na perspectiva de um percentual médio, os números dessas 18 pesquisas indicam a existência de 27% de eleitores indecisos, segundo as respostas espontâneas. A Quaest encontrou um valor maior: 35% de indecisos. Digamos, então, que os indecisos estejam no intervalo entre 30% e 35%. É um grau elevado de indecisão, faltando tão pouco tempo para as eleições.
Assim, trabalho com a hipótese de que essa relativa estabilidade das pesquisas, oscilando em torno da margem de erro, e esse grande percentual de indecisos, indicam uma campanha muito fria. E de fato, não se vê muita movimentação nas ruas, não se vê bandeiras, não se vê adesivos como se via em campanhas anteriores.
Razão para a frieza pode estar nas plataformas digitais
Tenho duas hipóteses adicionais para explicar essa frieza. A primeira é que nem Lula nem Flávio Bolsonaro estão empolgando os eleitores. Mesmo nas bolhas de cada um, há muitas dúvidas.
A segunda é que a campanha eleitoral em 2026 migrou para as plataformas digitais. E uma campanha majoritariamente online é mesmo mais fria. Diminui o corpo a corpo, reduz o calor das improvisações nos comícios. O eleitor se pergunta se o que vê nas redes é a realidade ou apenas a seleção dos algoritmos. As redes têm essa faculdade de formar bolhas cristalizadas, que engessam o debate.
Isso aparece com nitidez nas pesquisas quando elas expõem as intenções de voto por orientação político-eleitoral. Entre os lulistas, 91% escolhem Lula. E, entre os bolsonaristas, 90% apontam Flávio Bolsonaro.
Na esquerda não lulista, 78% dizem que votarão em Lula. Na direita não bolsonarista, 67% são por Flávio Bolsonaro. Os que se dizem independentes estão divididos. É o que apontam os números da última pesquisa Quaest. Na estimulada, quando perguntados se a escolha pode mudar, 79% respondem que suas decisões são definitivas, e 21% dizem que ainda podem trocar de candidato.
Esses 21% que podem mudar o voto anunciam a probabilidade de que a volatilidade seja alta este ano, e que muitos eleitores deixarão para decidir na boca da urna. O que deverá manter o ambiente de incerteza que marca a atual campanha presidencial até o último minuto.
Mas há um dado adicional que pode afetar essa incerteza. Quando perguntados quem deve ganhar as eleições, 55% dizem Lula e 30% dizem Flávio. Os 55% para Lula ultrapassam em muito as intenções de votos declaradas para o presidente, enquanto os 30% que apontam Flávio coincidem com o patamar de intenções de voto nele.
A hipótese do voto no vencedor
Essas informações dão uma ideia aproximada da possibilidade de que os votos do grupo de eleitores que historicamente tende a votar no candidato vencedor terminem por favorecer Lula. O presidente pode se beneficiar, também, das escolhas pragmáticas: entre o pouco conhecido Flávio Bolsonaro e o muito conhecido Lula, presidente no exercício do mandato que já está com a mão no leme e reserva poucas surpresas à frente. Flávio Bolsonaro, porém, pode explorar o sobrenome, a memória do pai, e o cansaço de muitos eleitores com a longa permanência do PT e de Lula no governo.
De certo, mesmo, o que se pode dizer é que esta será novamente uma eleição apertada. E provavelmente definida pelos eleitores independentes, no momento ainda muito divididos entre os dois principais candidatos.
O resultado das urnas sofrerá também o efeito da alienação eleitoral. Quando maior a abstenção e os votos inválidos, maior o impacto no resultado final.
Embora tão próximo, ainda há muito chão até o segundo turno
E o segundo turno? Como cientista político, sempre trato o segundo turno como uma nova eleição, com uma campanha curta e concentrada que tende a ser mais quente que a do primeiro. Mas não faço previsões sobre isso antes de saber o resultado da primeira votação. A realidade brasileira é volátil. Há muita informação comprometedora no bojo de inquéritos em curso, como o do Banco Master. O desfecho da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) também poderá influenciar as escolhas eleitorais - ou não.
As pesquisas também não parecem interessadas em saber como os episódios de 8 de janeiro de 2023 e toda a trama golpista que os antecederam influenciam a memória do eleitor. Se estiverem vivas, ou se forem resgatadas na campanha, podem ser também um fator de decisão. Sobretudo porque Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema prometem anistia aos condenados.
A crise do presidencialismo de coalizão
O quadro atual de candidaturas também é revelador de vários componentes da crise do presidencialismo de coalizão, que se instalou a partir do governo Bolsonaro. O fator-chave para isso são as emendas parlamentares, que mudaram de trajetória e valor com a criação do orçamento secreto, negociado pelo ex-presidente com o então presidente da Câmara, Arthur Lira.
As emendas de dezenas de bilhões de reais e os fundos partidário e eleitoral, que juntos somam R$ 6,2 bilhões, deram aos parlamentares da Câmara e do Senado autonomia para irrigar seus redutos sem necessidade de autorização do Executivo. O resultado foi a redução dos incentivos para apoiar candidatos à Presidência e o interesse em participar da coalizão de governo. Nos últimos anos, houve sérias distorções na alocação desses recursos, que tolheram a implementação de políticas públicas mais equânimes.
O eleitor não entende bem o mecanismo que regula as relações entre o Executivo e o Legislativo no presidencialismo de coalizão. E por isso pouco se importa, talvez, com as emendas e com a própria crise do modelo de governo. Tendem a ver as emendas como uma forma de patronagem.
Em parte são mesmo. Mas, em outra parte, são também um modo legítimo de valorizar políticas públicas para estados e municípios. Antes do governo Bolsonaro, esse era o incentivo para que os partidos aceitassem fazer parte de uma coalizão de governo. Como esses incentivos foram muito reduzidos pela apropriação direta das emendas, ficou muito mais difícil manter uma harmonia entre os poderes Executivo e Legislativo.
Mas essa crise tem diretamente a ver com o voto. Não apenas para presidente, mas para a Câmara e o Senado. Uma nova regra para as emendas dependerá da aprovação do Congresso. E só o voto popular pode alterar a correlação de forças que hoje dá maioria legislativa a um conjunto de partidos invertebrados e muito irresponsáveis, autodenominado centrão.
A importância da eleição para o Congresso
Se o voto para Câmara e Senado mantiver o status quo atual, dificultará muito a formação de uma coalizão efetiva e responsável entre o Congresso e o Governo Federal, disposta a mudar as atuais regras das emendas para ajudar na governabilidade do país.
Portanto, há muito em jogo nessas eleições. Da reafirmação da democracia à defesa da governabilidade, em risco pelo efeito negativo que as emendas exercem sobre a propensão dos partidos a entrar na coalizão governamental. É um desafio, também, de gestão política da Presidência da República.
Atualmente, Lula tem sido acusado de ser mau gestor dessa coalizão. Mas ele tem todos os atributos necessários para esse manejo. É político experiente, muito bom negociador, conhece as necessidades de Chefe do Executivo e entende a dinâmica política no Congresso.
Esta é uma eleição que pode ter forte impacto no futuro da democracia e do bem-estar da sociedade brasileira. Mas esses temas não têm empolgado o eleitorado. E a campanha fria eleva esse grau de incerteza.
Sergio Abranches não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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