Veterinário pode ser homeopata, acupunturista e até psicólogo
- Cartola - Agência de Conteúdo
- Especial para o Terra
Quando você pensa na rotina de um veterinário, provavelmente imagina um clínico. Porém a profissão oferece uma série de carreiras possíveis.
Entre as opções, está a homeopatia. Cideli Coelho trabalha nessa área desde 1999, quando percebeu que tinha que lidar com uma grande quantidade de mortes entre os animais silvestres. "Pelas necropsias, comecei a perceber que muitos morriam pela intoxicação ou por efeitos colaterais dos próprios remédios utilizados, principalmente as aves. Então procurei uma maneira mais leve de tratá-los", afirma.
Cideli diz também que, com as gotas e os glóbulos homeopáticos, não há dificuldade para fazer o bicho receber a medicação. "Eles tomam com gosto, sem brigar, porque tem gosto doce."
Apesar de a homeopatia ser bastante comum no Brasil, muitos ainda acham estranho misturá-la com veterinária. "Nossa, mas existe homeopatia para bicho?", ouviu Cideli muitas vezes ao longo dos anos - para ela, ainda há poucos veterinários que abraçaram a ideia.
Para ser veterinário homeopata, é necessário fazer uma especialização, que dura de dois a três anos. São oferecidos cursos focados em animais e outros mistos, em que se estuda também com médicos, farmacêuticos, dentistas etc. Porém, nesse caso, a parte teórica é ensinada para todos, e o módulo prático é destinado à área específica, explica a profissional, que também leciona na área.
Acupuntura em animais
Parte da cultura oriental há milênios, a acupuntura chegou à veterinária brasileira há cerca de 25 anos. Porém ainda assim causa estranheza nas pessoas. Como enfiar agulhas em um animal? A presidente da Associação Brasileira de Acupuntura Veterinária, Márcia Scognamillo, conta que há mais surpresa que preconceito em relação ao assunto, especialmente quando começou a trabalhar com isso, em 1988. Atualmente, no País, não é necessário o título de especialização para fazer acupuntura em animais, basta ser médico veterinário. "Isso em tese, porque, na prática, o profissional precisa de formação", diz Márcia, que aprendeu a técnica na época em que não havia cursos, com um colega.
Por incrível que pareça, o bicho não precisa ser sedado para receber as agulhas. Depois de realizar um exame minucioso, para saber exatamente onde o animal sente dor, são colocadas as agulhas. "A inserção é rápida e, no decorrer da sessão, com a liberação de substâncias como endorfina e serotonina, a maioria dos pacientes fica quieta", explica. Assim, é possível tratar de gatos a cobras, de vacas a cavalos.
Porém, há casos em que o animal é muito agitado, muito alegre e não para de se mexer, o que torna o processo mais trabalhoso porque tem que recolocar a agulha a todo momento. Outro caso mais complexo é quando o animal é agressivo, como cães de guarda. Aí ele deve usar focinheira e o proprietário tem que ficar ao lado, já que esses animais costumam respeitar o dono. Porém, se nem quem está acostumado ao cachorro consegue controlá-lo, a situação complica. "Uma só vez eu não consegui fazer a acupuntura por causa de agressividade", diz Márcia.
Psicologia
Mas nem só de gotas e agulhas vive a "veterinária alternativa". Ceres Faraco é formada em veterinária, tem mestrado e doutorado em psicologia e desde 2003 trata distúrbios comportamentais de cães e gatos. A profissão é até conhecida, a "psicóloga de cachorro", mas é raro conhecer quem faça esse trabalho.
Presidente da Associação Médico Veterinária Brasileira de Bem-estar Animal, Ceres teve que buscar conhecimento fora do País - foi acompanhar pessoas que trabalham com psicologia e comportamento animal na Espanha e na Inglaterra. "Quando eu tratava como clínica de pequenos animais, percebia a influência dos animais nas pessoas e como as pessoas influíam nos animais. E vi que existia uma vasta área de desconhecimento nisso."
Os indicadores da psique dos animais, explica a veterinária, são comportamentais. Quando se trata de animal, é ainda mais complicado alcançar o estado subjetivo do paciente. O diagnóstico é realizado a partir da compreensão do contexto do animal, conhecendo sua casa e sua família. E as dificuldades do bicho são demonstradas a partir de manifestações de agressão, atitudes fora do comum ou compulsivas e até a automutilação. Muitas vezes o problema está relacionado com o dono.
Ceres afirma que não há formação específica em psicologia animal no Brasil, apesar da demanda forte. "Muitos veterinários, biólogos e psicólogos querem se especializar na área, mas não existe uma oferta de cursos." Por isso, ela pretende oferecer cursos online a partir do seu site, para facilitar esse processo.