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'Todo mundo acha que o seu lado é inteligente e o outro é ignorante', diz Pinker sobre polarização

Psicólogo e linguista de Harvard é um dos palestrantes da São Paulo Innovation Week, que ocorre em maio; em entrevista ao Estadão, falou ainda da tendência de assistir vídeos em vez de ler textos

19 abr 2026 - 05h40
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Vivemos um paradoxo: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento — da inteligência artificial às vacinas — e, ainda assim, o debate público parece mais confuso, emocional e dividido. Para Steven Pinker, psicólogo cognitivo, linguista e professor da Universidade Harvard, o problema não é falta de inteligência, mas a forma como usamos a razão.

"A polarização definitivamente torna as pessoas irracionais", afirmou em entrevista ao Estadão. Segundo ele, um dos mecanismos centrais é o chamado "viés do meu lado". "Todo mundo tende a acreditar que o seu próprio lado é moral, esperto, inteligente, e que o outro é estúpido e ignorante."

Considerado um dos intelectuais mais influentes da atualidade, Pinker virá ao Brasil para participar da São Paulo Innovation Week, o maior festival global de inovação, promovido pelo Estadão, em parceria com a Base Eventos, entre os dias 13 e 15 de maio. Ele é autor de livros como Tábula Rasa, Os Anjos Bons da Nossa Natureza, O Novo Iluminismo e Racionalidade.

O evento será realizado na Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), com mais de 2 mil palestrantes. Assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não-assinantes podem acessar este link.

"Queremos que a nossa posição vença, como nos esportes, é uma tendência humana, mas vai contra o objetivo de buscarmos a verdade e as melhores políticas", afirma. Para o professor de Psicologia, isso ajuda a explicar por que até quem é altamente instruído pode interpretar dados de forma enviesada. "Mesmo pessoas boas em Matemática podem cometer erros ao analisar números quando o tema envolve uma posição que elas defendem."

Em alguns casos, acrescenta, a mesma proposta é avaliada de forma oposta dependendo da visão política: "Você apresenta uma política pública e muda apenas o partido que a propõe, e as opiniões se invertem."

Parte desse cenário, segundo Pinker, vem de mudanças sociais mais amplas. Ele afirma que a convivência com pessoas diferentes diminuiu nos últimos anos porque organizações que antes reuniam vários perfis, como igrejas, o exército e até ligas de boliche, perderam popularidade. "As pessoas não estão mais interagindo com quem pensa diferente."

"As discussões não deveriam ser sobre quem vence, mas sobre encontrar pontos em comum, coisas que todos querem, como segurança, prosperidade e educação", completa. Nesse contexto, a mídia pode tanto agravar quanto ajudar a resolver o problema, afirma ele, que defende um debate menos competitivo e mais orientado a soluções.

Já as redes sociais agravam o cenário porque não têm qualquer mecanismo para garantir veracidade às informações, afirma. Para comparar, ele cita os jornais, que têm checagem, busca por fontes confiáveis, edição, e o sistema judiciário, em que há obrigatoriamente a acusação e a defesa. "Nas redes sociais, qualquer pessoa pode dizer qualquer coisa, e sabemos pela história que, sem mecanismos institucionais de verificação, a informação tende a se deteriorar. Ela será dominada por erro, rumores e fake news."

Vídeos versus texto

O linguista de Harvard, que ficou conhecido por seus estudos que mostram que a linguagem é uma capacidade biológica da mente humana, falou também sobre a tendência atual de assistir a vídeos em vez de ler textos. Pessoalmente, ele diz preferir algumas frases sobre como, por exemplo, resolver um problema na impressora, do que assistir a alguém dizer: "assine e curta o meu canal".

Mas explica que o modo natural de processar informação é pela fala e pela visão - e não pelo texto. Para ele, não há necessariamente um risco cognitivo grande em preferir os vídeos, trata-se de uma questão de esforço.

"As pessoas mais educadas acham que ler é fácil, mas não é, exige esforço, e muitas pessoas preferem vídeo. Mesmo assim, para conteúdos complexos, o sistema educacional deve incentivar a leitura, porque vale o esforço", afirma.

"O texto tem vantagens, permite mais atenção, releitura, complexidade, e você precisa encorajar isso, mas é mais artificial. Com a tecnologia tornando o vídeo acessível, as pessoas naturalmente migram para isso."

As escolas, segundo ele, devem ainda priorizar "princípios de racionalidade". Isso inclui ensinar lógica, probabilidade e como interpretar dados. "Se for uma escolha ensinar trigonometria ou probabilidade, a probabilidade é muito mais útil."

Mais do que conteúdos, diz, é preciso ensinar como pensar e debater: evitar falácias, avaliar argumentos e focar nas ideias, não em desclassificar quem as defende. "Ao discordar de alguém, não atacar a pessoa, mas focar nas ideias. Não se distrair com a origem da ideia, se veio de um grupo de esquerda, de direita, religioso ou secular. Isso não tem nada a ver com ser uma boa ou má ideia."

O avanço da inteligência artificial não muda esse diagnóstico. Para Pinker, a tecnologia pode ampliar capacidades humanas, desde que seja usada criticamente. "Precisamos garantir que as pessoas saibam pensar, pesquisar e avaliar fontes, e usar essa tecnologia para ampliar sua inteligência."

Para o cenário desafiador da polarização, que atinge toda a sociedade, Pinker rejeita respostas fáceis, mas acredita que é preciso haver mudanças simultâneas na educação, na mídia e na cultura.

Existe, porém, um ponto de partida comum: "Todos queremos mais prosperidade, mais segurança, melhor educação, melhor qualidade de vida". O desafio é recolocar essas metas no centro da conversa pública.

No fim, para ele, o problema não é que estamos menos inteligentes — mas que, em um mundo cada vez mais polarizado, usamos nossa inteligência não para buscar a verdade, e sim para defender o nosso lado.

Estadão
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