Na Unicamp, pai solteiro garante moradia estudantil e creche para filha
Além da Unicamp, universidades como USP e UFSM incentivam a permanência de alunos com filhos nas residências estudantis
Enquanto a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) decidiu impedir, no mês passado, que uma estudante do curso de história continue na residência estudantil depois de ter dado à luz a uma menina, em outras instituições do País a permanência de estudantes com seus filhos nas moradias é incentivado, tudo para que os jovens não desistam da vida acadêmica. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um estudante de doutorado garantiu, além de um estúdio para morar com a filha de 4 anos, o auxílio creche.
O estúdio concedido ao doutorando Igor Silva Figueiredo, 27 anos, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por meio do Programa de Moradia Estudantil (PME), tem todos os itens básicos para uma pessoa viver: cama, mesa, cadeiras, fogão, geladeira e banheiro. Ao lado da televisão adquirida pelo estudante, há bonecas, brinquedos e roupas de menina. São os pertences de Amélie, 4 anos, filha de Igor.
Pai solteiro, Igor Silva Figueiredo, 27 anos, conquistou a vaga na residência e na creche em 2010, depois de enfrentar problemas na hora da renovação da matrícula da filha Amélie, que inicialmente tinha sido inscrita pela mãe, aluna da instituição até 2009. "Sem a moradia, não diria que seria impossível (estudar), mas teria sido muito mais difícil", afirma Igor, que, em 2010, estava no segundo ano de mestrado em sociologia. A barreira foi o regimento interno da Divisão de Educação Infantil e Complementar (Dedic), setor que coordena as creches da Unicamp. O documento cita que o benefício é oferecido apenas a "filhos de alunas matriculadas" na instituição, além de funcionários de ambos os sexos.
Igor só conquistou uma exceção depois de protestar e reivindicar a permanência da filha. "Consegui, mas ainda assim não é uma política universalizada. O pai não tem direito", contesta. Após o episódio, o estudante tem renovado a matrícula da filha anualmente sem empecilhos, mas a decisão não abriu precedentes - segundo ele, três pais tiveram o pedido negado.
Para estimular a permanência de mães na instituição, o programa oferece estúdios equipados para receber as famílias, em um bloco distinto dos outros estudantes, além de transporte entre a moradia e o campus e vagas em creche. O responsável pelo Dedic, Rinaldo Gimenes, afirma que as creches foram criadas inicialmente para atender a demanda de servidores e funcionários, permitindo a matrícula de crianças entre 6 meses e 10 anos.
A extensão do auxílio às alunas ocorreu posteriormente, com destinação de 20% do total de vagas. "Em razão da limitação da capacidade de atendimento, o mesmo benefício ainda não contempla alunos do sexo masculino", informa Gimenes. No caso de Igor, a solicitação "foi atendida em caráter excepcional" e concedeu a permanência porque a criança ingressou na creche quando a mãe era aluna da Unicamp.
Incompatibilidade de horários
As vagas do PME são divididas conforme o nível socioeconômico dos alunos e das famílias. Segundo o coordenador do programa, Luiz Antonio Viotto, são 226 casas e 904 vagas para solteiros (quatro alunos por unidade) e 27 estúdios para famílias, sem limite de idade para as crianças. Para quem fica de fora da seleção, a Unicamp ainda oferece 10 bolsas externas para ajudar no aluguel. Estudantes grávidas permanecem nas casas regulares até darem à luz e, então, pleiteiam um dos estúdios.
No início do ano passado, a estudante de pedagogia Mariana Lima foi contemplada com a vaga em um dos estúdios e se mudou para lá com o companheiro e o filho, hoje com três anos. Antes da notícia, havia se transferido de Belo Horizonte para uma casa de aluguel na Vila Olímpia, em Campinas, que custava R$ 250 por mês, e precisava de três ônibus para cumprir o trajeto até o campus - uma jornada de pelo menos uma hora e 20 minutos. A conquista da bolsa desonerou o orçamento já minguado da família (apenas o companheiro de Mariana trabalha, já que ela estuda e é bolsista durante o dia). Sem o respaldo da universidade, ela acredita que o sonho de estudar teria permanecido distante.
Entre as dificuldades da sua rotina, estão os horários. A creche funciona das 7h às 19h30, mas a permanência da criança é limitada a nove horas por dia, com horários pré-estabelecidos. O período mais adequado encontrado por Mariana não é ideal, mas não há alternativa. Sua aula começa às 8h, mas ela deixa o filho na escolinha às 8h30 para poder buscá-lo às 17h30, horário também incompatível, já que sua aula se estende até as 18h. Como o pai trabalha em um bairro distante, levar e buscar a criança é atribuição da universitária.
"Não existe regulamento a respeito dos alunos que são pais. A cada semestre, tem que conversar com os professores", relata. Até hoje, os docentes se mostraram solidários à situação, mas ela reclama do constrangimento que é ter de provar que, mesmo com uma hora a menos em classe, vai conseguir acompanhar a matéria.
Apesar dos empecilhos, Mariana apostou todas as suas fichas na Unicamp, mesmo tendo sido aprovada em universidades federais. "Fiz uma pesquisa de quais tinham esse programa de permanência. Investi tudo onde eu sabia que aceitava (crianças), mesmo que demorasse", afirma. Ela comenta que se mostrou surpresa com a decisão da UFRGS de expulsar da moradia estudantil a aluna que havia dado à luz. "A gente pensa que poderia ser com a gente. Nossa luta é pela abertura para outras famílias", diz.
UFSM e USP também recebem filhos nas moradias
Viotto, coordenador do PME da Unicamp, afirma que a permanência do estudante é uma das prioridades da instituição. Para isso, a universidade dedica parte de sua verba de custeio para moradia, transporte, alimentação e bolsas especiais, a fim de eliminar empecilhos à continuidade dos estudos. Mas, apesar das vagas já distribuídas, o PME reconhece que não consegue suprir toda a demanda. A divisão não divulga números, mas a diretora de Assistência Estudantil do DCE e uma das responsáveis pelo Conselho de Gestão da Moradia da Unicamp, a aluna Lunara Francini, estima que pelo menos 72 pessoas aguardam o benefício familiar. Ela também reivindica moradias estudantis nos campi de Limeira e Piracicaba.
Além da Unicamp, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, também abriga filhos de estudantes de fora da cidade, sem limite de idade, para que possam continuar os estudos. O pró-reitor de Assuntos Estudantis, Ubiratan Tupinambá da Costa, informa que todas as Casas de Estudantes Universitários (CEUs) estão abertas a essa possibilidade. Hoje, a instituição conta com cinco unidades (três em Santa Maria, uma em Frederico Westphalen e uma em Palmeira das Missões), e há pelo menos dez crianças alojadas nesses campi.
O benefício favorece todos os alunos que têm filhos. A UFSM se responsabiliza por alocar o pai ou a mãe com a criança em um quarto individual, mas o berço ou a cama extra deve ser providenciado pelo estudante. Caso haja necessidade de assistência médica, é possível recorrer à clínica infantil do Hospital Universitário ou ao posto de saúde próximo ao campus. O objetivo agora, segundo Costa, é resolver a questão da creche. A instituição mantida pela UFSM que atendia as crianças desde o berçário foi convertida em escola infantil e recebe apenas os que têm quatro anos ou mais. "Estamos fazendo uma verificação no entorno do campus para ver quanto custa. A solução deverá ser um auxílio-creche em torno de R$ 315", adianta o pró-reitor.
Costa acredita que investir recursos da universidade na moradia é uma forma importante de garantir a permanência dos alunos e evitar a evasão, principalmente em casos de estudantes que são pais. "A gente fala muito em ingresso, mas não basta. Temos que oferecer apoio a despeito do que ocorrer", destaca.
Na Universidade de São Paulo (USP), o regimento do Conjunto Residencial (CRUSP) não estende as vagas de estudantes a seus dependentes. Mas, segundo o professor Waldyr Antonio Jorge, superintendente de Assistência Social, a demanda fez com que a instituição destinasse dez apartamentos para acomodar provisoriamente alunas moradoras que têm filhos. "Essa destinação está em fase de estudo para regulamentação", informa.