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Na educação infantil, 55% das turmas não separam tempo para leitura de histórias para crianças

Estudo é da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com pesquisadores da USP; só 1/4 dos grupos analisados estão perto do ideal que é previsto pelos documentos curriculares para creche e pré-escola

10 jun 2022 10h11
| atualizado às 11h48
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Em pouco mais da metade (55%) das turmas de educação infantil, não há um momento de leitura de livros de histórias para as crianças como rotina, e 90% delas não oferecem aos alunos o acesso livre aos livros. Os dados são de um estudo com 3.467 turmas em 1.807 unidades de educação infantil, públicas e conveniadas, de todo o Brasil.

O levantamento, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) em parceria com o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social (Lepes) da Universidade de São Paulo (USP), incluiu pesquisa em campo em 12 cidades de todas as regiões do País, em 2021. Do total de turmas visitadas, 1.683 eram de creche e 1.784, de pré-escola.

Segundo a FMCSV, evidências científicas das áreas da neurociência, pedagogia, psicologia e economia provam a importância da educação e dos cuidados com a primeira infância (até os sete anos) para o desenvolvimento saudável do indivíduo ao longo de toda a sua vida, com impactos cognitivo, físico e socioemocional, especialmente entre as crianças mais vulneráveis.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento do Ministério da Educação que serve como referência obrigatória para os currículos escolares de todas escolas públicas e privadas do País, inclui várias previsões para uma educação de qualidade, segundo os pesquisadores. Tendo a BNCC em vista, o levantamento aponta que um quarto das turmas analisadas parece estar em um bom caminho.

"Claro que 25% ainda está longe do ideal, mas mostra que já houve um progresso em relação à 2009, quando o cenário era bem mais pessimista", diz o segundo o economista Daniel Domingues, pesquisador do Lepes que admite esperar resultado ainda mais negativo. Por outro lado, entre 10 e 15% das turmas têm práticas que destoam muito do que é proposto pela BNCC. "Essas escolas necessitam de atenção urgente."

Para Domingues, o que parece ter mais espaço de melhora é a atuação pedagógica. "É a interação entre adultos e crianças, esse papel de mediação dos professores", avalia. Dentro dessas práticas pedagógicas, o que mais chama a atenção do pesquisador, de forma negativa, é que ainda há muitas turmas onde, em 3h30 de observação direta, não houve contação de histórias e o "brincar livre". "São dois tipos de oportunidades que deveriam estar presentes na rotina de todas as turmas, todos os dias", constata.

Domingues explica que a brincadeira é a forma mais efetiva de aprender para uma criança. "Ela socializa, se movimenta, pratica a linguagem, ou seja, é um espaço de interação quase completo para o desenvolvimento da criança", afirma ele, que também é membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância.

O estudo mostrou também que, entre as turmas de pré-escola visitadas, 36% não promoviam experiências com teatro, dança e música. Nas creches, o percentual caiu para 18%. Já em relação a momentos de brincadeira livre, a oportunidade não foi observada em 46% das turmas de pré-escola e 38% das creches.

Ele reforça ainda a importância de se promover o protagonismo das crianças. "É fundamental que elas, em algum grau, escolham as atividades dentre as propostas", afirma. "O protagonismo aumenta o engajamento da criança e faz com que ela construa significado na aprendizagem, desperte a sua curiosidade e veja sentido no que está sendo proposto. Uma consequência posterior é a criança gostar de aprender", completa.

Por outro lado, ele destaca a presença de boas estratégias de acolhimento às crianças e boa mediação de conflitos. "No geral, a maioria dos professores parece ter repertório para lidar com essas situações. Ainda que em 10% das turmas tenha havido algum tipo de interação negativa dos professores com os alunos. Na maior parte dos casos, não é interação física, é verbal, como humilhação, exposição, ou o 'cantinho do pensamento', por exemplo. E 10% é um número alto", avalia.

Acesso caminha, mas qualidade ainda fica para trás

O Plano Nacional da Educação (PNE), de 2014, estipulou que o País deveria ter pelo menos metade das crianças matriculadas em creche até 2024. Já para a pré-escola (4 e 5 anos), a meta era ter todas as crianças matriculadas até 2016. O Brasil tem 94,1% das crianças na pré-escola, conforme os dados de 2019. Para Domingues, essa cobertura pode ser considerada satisfatória e atingir os 100% é um problema mesmo para nações desenvolvidas.

O mesmo não é verdade para o acesso a creches - com 37,5% das crianças matriculadas, em 2019 -, que está mais distante da meta. "É um problema, porque além de estarmos longe da meta, é um acesso muito desigual. Algumas cidades apresentam 10% das crianças nas creches, e outras já estão quase nos 50%", afirma.

Para ele, além do acesso, a preocupação com a qualidade é essencial. "O Brasil teve movimento importante de aumento do acesso ao ensino, mas em relação à qualidade temos menos informações. Os estudos mostram que só o acesso, sem qualidade, não garante o direito da criança a oportunidades importantes na educação infantil", diz.

Crianças mais estimuladas se tornam alunos mais interessados

O Colégio Rio Branco, na região central de São Paulo, busca justamente dar aos alunos possibilidades de interação com leituras e diversas formas de arte. Sueli Marciale, diretora assistente da escola, conta que as crianças da educação infantil têm, todos os dias pela manhã, um momento de acolhimento e ampliação de repertório. "Tem o dia de contação de histórias, o dia de falar sobre artistas ou cientistas, o dia de atualidades, o dia do relaxamento", enumera.

Os alunos também vão à biblioteca e pegam livros para ler na escola ou levar pra casa. Depois, fazem uma roda em que apresentam argumentos aos colegas sobre o porquê deveriam ler aquele livro também, promovendo a oralidade e a argumentação das crianças. "A educação infantil é um espaço de letramento, com leitura de diferentes repertórios. Isso favorece o desenvolvimento da alfabetização e possibilita que ela argumente e defenda seu ponto de vista", avalia a diretora.

Sueli destaca dois projetos da turma do Infantil 5 (crianças entre 4 e 5 anos) que promoveram a autonomia e criatividade dos alunos. "Eles se inspiraram em Gaudí (arquiteto espanhol estudado em sala de aula) e quiseram pintar e decorar a casinha com desenhos e materiais reciclados", conta. "Foi um trabalho tão significativo que as crianças não esquecem mais até hoje".

"Outras crianças tinham lido sobre fotógrafos, como eles olhavam para a natureza, e quiseram tirar fotos. Então os professores ensinaram como fotografar e eles desenvolveram um projeto sobre como cuidar da escola, colocando banners ensinando a fazer isso", lembra a diretora. "Nosso objetivo é formar crianças que pensem, critiquem, reflitam - diferente da nossa época. E aprender brincando torna a aprendizagem intencional e significativa", conclui.

Estadão
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