O bolchevismo e o militarismo: contradições da URSS

1 mai 2013
06h17
atualizado em 29/9/2013 às 21h19
  • separator
  • 0
  • comentários

Há muitos sempre pareceu haver enorme contradição entre as intenções libertárias da Revolução Bolchevique de 1917 e a verdadeira situação da URSS.

1917: Vladimir Ilyich Lenin (1870-1924) e Leon Trotsky (1879-1940) durante a revolução bolchevique
1917: Vladimir Ilyich Lenin (1870-1924) e Leon Trotsky (1879-1940) durante a revolução bolchevique
Foto: Getty Images

O que teria transformado de maneira tão poderosa e irreversível o ideário da engendração do Homem Novo, que tinha como meta a emancipação do proletariado e do mujique russo do domínio autocrata e semifeudal do Czarismo, num Estado Militarista e violentamente opressor?

A URSS, durante quase todo o transcorrer do século 20, foi antes de tudo um campo de batalha. Sobre nenhuma outra parte da terra as paixões ideológicas desabaram com tal violência, intensidade e crueldade, tal como previra, aterrado, Fiodor Dostoievski no seu profético romance Biezi (Os Possessos, de 1872).

Quando encarcerado por Mussolini, Antonio Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI), deixou várias anotações nos Lettere dal cárcere (Cadernos do Cárcere), nos quais procurou entender qual a razão do sucesso da revolução comunista da Rússia e o seu total fracasso nos países ocidentais, inspirando-se nas manobras estratégicas que ocorreram durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

O pensador ítalo-marxista foi um dos primeiros a captar que as táticas e programas de luta dos liderados de Lenin e Trotsky estavam condicionados pela lógica e jargão militar e não pelo político. Ou melhor, herdeiros do conflito mundial, os bolcheviques haviam militarizado a política de tal modo que não poderiam mais voltar atrás. De certo modo, agiram ao revés do dito de Clausewitz sobre a guerra ser a continuação da política por outros meios.

Para eles, e para Stalin, que os sucedeu, em 1924, qualquer tipo de opositor era imediatamente classificado de inimigo e não de adversário. E, para inimigo, como se sabe, não se dá quartel.

Os sentimentos de fraternidade e compaixão que muitos revolucionários advogavam evaporaram-se. Os bolcheviques, com quadros partidários proporcionalmente insignificantes (estima-se que seu número andava ao arredor de 350 mil na época da Revolução de 1917, entre uma população de 150 milhões do Império Russo), estavam em guerra permanente desde que ascenderam ao poder em 25 de outubro de 1917 (8 de novembro pelo calendário atual).

Enfrentando os contra-revolucionários, outros agrupamentos da esquerda (mencheviques, social-democratas e anarquistas), ou ainda repelindo a intervenção militar estrangeira (14 exércitos ocuparam partes da Rússia entre 1918-1920, num total de 255 mil homens), o militarismo penetrou profundamente na psicologia deles. Pode-se até considerar que as denominações das novas instituições soviéticas (Gosplan, Tcheka, Sovnarkom, Kolkoz, Gulag, etc.) estão mais vinculadas às abreviaturas ligadas à estratégia militar do que do vocabulário civil.

Superados aqueles formidáveis inimigos dos anos 1920, a liderança soviética nos anos de 1930 caçou os próprios membros do partido por meio da Bolshaya tchistka (os expurgos e os julgamentos de Moscou dos anos 1936-1938). As pessoas comuns na Era do Terror, por sua vez, eram acusadas de "sabotadoras", de "inimigas do povo" e, após passarem por tribunais sumários, eram enviadas para a Katorga (campos de prisioneiros e trabalhos forçados), onde eram tratados como párias.

1919: líder soviético Joseph Stalin (1879-1953) com os políticos Nikolai Ivanovich Ryzhkov, Grigori Zinoviev (1883-1936) e Lev Borisovich Kamenev (1883-1936) a caminho de uma reunião
1919: líder soviético Joseph Stalin (1879-1953) com os políticos Nikolai Ivanovich Ryzhkov, Grigori Zinoviev (1883-1936) e Lev Borisovich Kamenev (1883-1936) a caminho de uma reunião
Foto: Getty Images

A Grande Guerra e a Guerra Civil entre "vermelhos e brancos", que a sucedeu, forjaram para sempre o destino e as práticas do governo soviético. Jamais o alto escalão, os integrantes do Politburo, deixou de se sentir sitiado como numa fortaleza cercada.

Este é o motivo de Stalin, o verdadeiro chefe do Estado Soviético, aparecer quase sempre uniformizado e terminar seus dias, em 1953, com o posto de Marechal da URSS.

[quote]R|301x226|77ab9e5cX0eb5X4f29XaeeaX4afd1135bba0cfdf||Num artigo profético de Leon Trotsky, intitulado Naschi Politicheskie Zadachi*, além de associar os métodos de Lenin ao de "caricatura trágica do jacobinismo", previu uma possível situação na qual o partido é substituído pela organização do partido, a organização do partido pelo comitê central e, finalmente, o comitê central pelo ditador.[/quote]

Os efeitos das guerras
Duas monumentais infelicidades, quase que consecutivas, que flagelaram o país, a Grande Guerra e a Guerra Civil, fizeram com que a URSS padecesse por seis anos de devastação (1914-1920). Com o agravante que a luta anticontra-revolucionária e anti-intervencionista estrangeira, subsequente ao fim da guerra de 1918, causou um dano ainda mais destrutivo porque se estendeu por amplas regiões do país que não haviam até então sido atingidas pela calamidade. O tifo, por exemplo, retirou-se das trincheiras e espalhou-se por tudo.

Chegou-se, inclusive, a lutar na Sibéria até Vladivostok, nos portos árticos de Arcangel, Murmansk, e pela posse da Criméia no Sul, com os portos de Sebastopol e Odessa. Leon Trotsky, comandante do Exército Vermelho, mobilizou 3 milhões de soldados para espalhá-los por 16 frontes. Quando a guerra se encerrou, em 1920, os mortos "vermelhos" somaram cerca de 350 mil homens, e a população civil foi atingida com mais de 1,5 milhão de baixas, entre mortos e desaparecidos. Ao redor dos sobreviventes, quase tudo estava em ruínas ou em completo abandono (fábricas, transportes, minas, comércio, escolas, aldeias, isbás, etc.).

A política do assim dito "comunismo de guerra", adotada por Lenin durante a Guerra Civil para expropriar os recursos da lavoura, provocou uma fome despovoadora e com ela surtos epidêmicos de toda ordem que invadiram as cidades. Os campos russos silenciaram em 1921, fazendo as pragas reinarem. Lenta foi a recuperação.

Dali para diante, como Orlando Figes anotou:

[quote]C|301x226|bdfdab2dX9679X4c5dXb57aX16c967521b4882cc||The ruling mentality of the Bolsheviks was based in the military techniques of the war[/quote]

O Leviatã vermelho
O pior ainda estava por vir. Em 1928, Stalin, executando seu projeto do "Socialismo Num só País", se decide pela aplicação do Primeiro Plano Quinquenal (1928-1932), que associava a planificação da economia por meio da criação de hidroelétricas e fundação de indústrias pesadas, simultâneas à coletivização forçada da propriedade rural. Milhares de Kulaks (camponeses de classe média) foram removidos das suas aldeias e fazendas e desterrados para a parte asiática da URSS.

A ideia que subjazia não era tanto priorizar o comunismo e sim, preferencialmente, por meio do Planejamento Econômico, restaurar o poder do Estado com objetivo de fazer da nação soviética uma potência tecno-militar. A inspiração lhes veio da política econômica do II Reich alemão adotada durante a Grande Guerra, quando todo aparato produtivo (composto por empresas privadas) sujeitou-se a uma orientação e objetivo comum: vencer os inimigos.

A reação extremamente hostil que a Revolução de 1917 engendrou, tanto interna como externa (quarentena, surgimento do nazi-fascismo, etc.), reforçou ainda mais a convicção da liderança bolchevique em instituir um Estado-forte, o "Leviatã Vermelho". Edificaram um colosso formado pela nomenclatura (alta burocracia), os apparachiks (funcionários do partido), os tchekistas da Tcheka/NKVD (comissariado do povo para assuntos internos) apoiado no Krasnaya armya (o "Exército Vermelho"), controlado pela mão-de-ferro do secretário-geral Joseph Stalin.

O trabalho foi igualmente militarizado. Leis draconianas passaram a imperar nas siderúrgicas, nas tecelagens, nos campos de mineração e de petróleo, obedientes a um código disciplinar vindo direto dos manuais do Exército Vermelho. Os comissários do regime apresentavam-se com indefectíveis jaquetas negras e um gorro militar que lhes serviu como uniforme durante longos anos. Mesmo o núcleo central da direção do Partido Comunista da URSS sofreu visíveis alterações.

O comitê central do partido, organizado como uma direção colegiada nos tempos de Lenin, tal como se fora um estado-maior da revolução, viu-se gradativamente usurpado pela centralização stalinista que fez por colocar a autoridade máxima nas mãos do ditador.

Para ampliar ainda mais a carga de desgraças que os soviéticos tiveram que enfrentar, foram invadidos pela Alemanha Nazista (1941-1944), potência que praticamente destruiu o território ocidental do país e, no após-guerra, tiveram que suportar a gigantesca coligação liderada pelos Estados Unidos que, jogando-se na corrida armamentista, voltou a isolar e emparedar a URSS do restante do planeta durante a Guerra Fria (1946-1989).

Nesta síntese dos desafios enfrentados pela URSS observa-se a lenta deformação das intenções originais da Revolução de 1917 e seu crescente apelo a medidas que lembram mais aquelas tomadas pelos quartéis em situação de emergência, senão que de desespero.

Nota: a admiração de Lenin pela disciplina alemã igualmente teve seu peso na sua obsessão em formar uma agremiação verticalista obediente às ordens vindas de cima. Outros apontam para o seu avô materno, Alexander Blanck, um descendente de alemães, mas inegavelmente o peso maior se deve à admiração que o líder bolchevique devotava às organizações germânicas. O partido social-democrata russo, fundado em 1898, inicialmente, procurou seguir as pegadas da SPD (a "social-democracia alemã"). Todavia, em razão da guerra e do que se seguiu, terminaram rompendo. Isto nunca significou que Lenin desprezasse as lições dos alemães. Além das doutrinas de Karl Marx e Friedrich Engels, os bolcheviques, em termos de administração, nunca abandonaram o modelo da SPD. Eram os "prussianos vermelhos".

Fonte: Especial para Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade