Bolchevismo, um repto de um dissidente

13 abr 2013
06h17
atualizado em 29/9/2013 às 21h20
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Cartaz exaltando o proletariado
Cartaz exaltando o proletariado
Foto: Reprodução

No final das contundentes páginas (A Century Of Violence in Soviet Union, Yale University, 2002) contra a política extremista adotada pelos bolcheviques e comunistas na União Soviética (URSS), ao longo do seu domínio de 70 anos, o ex-diplomata e ex-integrante do PCURSS, Alexander N. Yakovlev, cobra responsabilidades. Tido como um dos idealizadores da Glasnost de Gorbachev, ele encerra a terrível síntese histórica sobre o Poder Bolchevique pressionando os derradeiros chefes e militantes, que ainda hoje atuam ou estão em altos cargos, para que assumam publicamente a responsabilidade por uma série de erros trágicos cometidos por suas lideranças durante a "ditadura do proletariado".

Ao contrário de outros críticos antissoviéticos, Yakovlev não credita as desgraças do totalitarismo apenas a Joseph Stalin. Para ele, desde os começos, as principais ordens que levaram à violência dos fuzilamentos, aos expurgos, prisões e deportações em massa, condenações extrajudiciais e à abertura dos campos de concentração (que mais tarde vieram a compor o GULAG) partiram, primordialmente, de Vladmir Lenin, até hoje muito respeitado no país. Stalin apenas seguiu o roteiro do seu mestre na férrea implantação de um estado totalitário essencialmente criminoso, pela simples razão, diz Yakovlev, de que um regime apoiado num banho de sangue sempre será tentado a derramá-lo de acordo com suas necessidades táticas ou estratégicos.

Fuzilamentos, assassinatos, condenações aos trabalhos forçados, desterros de grupos étnicos e a punição extrajudicial eram práticas rotineiras de agir dos chefes que imperavam, no Kremlin, em Moscou, sob o pretexto da proteção ou avanço da revolução. Diz ele, na página 236: "Estou convencido de que o bolchevismo não pode escapar da responsabilidade de ter..."

 

Pelo golpe de 25 de outubro de 1917, os bolcheviques dissolveram a Assembleia Constituinte e sepultaram as possibilidades da Rússia vir a ser um estado democrático de modelo ocidental, baseado numa coligação entre os partidos de esquerda e os liberais. Na verdade, impuseram uma ditadura do proletariado - exercida pelo Partido Comunista em nome dele - que nada mais foi senão uma nova versão do ‘despotismo asiático’, tornando Stalin uma espécie de versão moderna de Gengis-Cã.

 

Uma ditadura que promoveu um profundo ódio ao individualismo, que resultou em ações criminosas que levaram à morte mais de 6 milhões de pessoas, sendo uma espécie de antecipação do fascismo. Ela, a ditadura bolchevique, assumiu-se como a principal força genocida do seu próprio povo. Calcula-se que a população média anual da Administração Central dos Campos, o GULAG (rede de campos de concentração), era de 2 milhões de indivíduos (homens, mulheres e crianças) e que, no transcorrer do século 20, de 17 a 28 milhões de pessoas foram, em algum momento, enclausuradas ou condenadas ao trabalho forçado. O que levou o poeta Alexandre Tvardovski, caído em desgraça, a afirmar no poema Tyorkin no Outro Mundo, de 1962, que o Inferno era muito similar à URSS.

 

De terem provocado uma guerra civil que, entre 1918-1921, devastou o país, na qual além de sangrentas batalhas, provocou a destruição de 13 milhões de pessoas (por morte na guerra, de fome ou por serem obrigados a se exilarem no exterior). Isto fez com que as lideranças soviéticas fossem atacadas por aguda e permanente paranoia, percebendo inimigos em qualquer canto (milhares foram condenados à morte ou aos campos de concentração acusados como contra-revolucionários, sabotadores, inimigos do povo, antissoviéticos etc.).

O Politburo, órgão central do regime, situado no Kremlin em Moscou, sentia-se como uma fortaleza sitiada de onde partiam surtidas para reprimir barbaramente a população. A sensação permanente na URSS é que o país vivia numa interminável guerra civil. Por conseguinte, jamais poderia haver um afrouxamento, anistia ou conciliação.

Justamente esta foi a razão da enorme importância que adquiriu a Polícia Política Secreta (Cheka-OGPU-NKVD) dentro do aparato de poder, tornando-se um segundo estado junto à administração oficial, controlando todo o aparelho repressivo e punitivo, bem como os campos de concentração (GULAG). Mostrou-se hábil em criar complôs inexistentes para agradar Stalin e manter o povo aterrorizado.

 

Entendendo que a maior parte dos camponeses - especialmente os remediados, os kulaks - eram inimigos do regime soviético, trataram de destruir aqueles elementos mais ativos e empreendedores no meio rural: os médios proprietários e fazendeiros bem-sucedidos. Não apenas pela coletivização forçada dos anos de 1930, mas também por instigar a luta de classes (mujiques pobres x kulaks), seguida de medidas de expulsão de milhares de kulaks para regiões longínquas (Sibéria ou Cazaquistão). Política que fez com que o setor agrícola sofresse um enorme desastre humano e produtivo, reduzindo drasticamente a tonelagem de grãos e a criação de gado em geral. O antigo mundo rural russo foi totalmente desbaratado e nunca mais foi recomposto. Consta que a aplicação da coletivização na Ucrânia teria causado a dispersão ou morte de 6 milhões de mujiques e kulaks.

 

Não se limitaram a julgar e fuzilar em massa membros do clero ortodoxo (arcebispos, padres de aldeia, seminaristas monges e monjas), como fecharam ou vandalizaram as igrejas, os mosteiros e os conventos, assim como as escolas religiosas. Nesta ação destrutiva também não foram poupadas as mesquitas e as sinagogas. Política liquidacionista que causou uma irrecuperável destruição e pulverização de obras de arte (esculturas, ícones, candelabros, castiçais etc.), visto que muitos templos foram saqueados pela populaça. Milhares de sacerdotes foram fuzilados ou condenados aos campos de prisioneiros. Os crentes igualmente foram perseguidos, detidos e condenados aos trabalhos forçados. O caso exemplar foi o do escritor Varlam Chalamov (Contos de Colima, escritos a partir de 1958), que foi detido e condenado por ser filho de um padre ortodoxo.

 

Todos integrantes da antiga hierarquia social da Rússia que não seguiram para o exílio foram exterminados por fuzilamentos, fome ou epidemias quando recolhidos aos campos de concentração (oficiais do antigo regime, nobreza, mercadores, banqueiros, comerciantes, a intelligentsia, os acadêmicos, os integrantes da comunidade científica e os artistas).

 

Por meio de julgamentos e acusações espúrias, ou por simples ações extrajudiciais, aplicaram sentenças de dimensão desconhecida na história, incluindo sequestro de crianças mantidas como reféns. Tornaram as torturas e demais tormentos numa prática policial comum, como nos tempos medievais. Métodos que direta ou indiretamente levaram a 20 milhões de mortos.

 

Com a eliminação dos partidos democratas (cadetes, mencheviques, socialistas-revolucionários e outros), seguiu-se a proibição da imprensa de oposição e qualquer outra manifestação de descontentamento ou crítica. A liberdade de palavra tornou-se uma reivindicação suspeita, uma afronta ao regime soviético. Dando seguimento a isto, Lenin tratou de expulsar da Rússia a maior parte da intelligentsia (acadêmicos, cientistas, escritores etc.).

 

A atitude inepta e inoperante dos governantes comunistas, a começar por Stalin, que desprezou todos os avisos da iminente invasão nazista (22 de junho de 1941), levou às catastróficas perdas humanas e materiais. Somente o sacrifício de 13 milhões de cidadãos russos salvou a nação da subjugação a Hitler.

 

Todos aqueles soldados e civis soviéticos capturados pelos invasores, entre 1941 e 1944, e que depois de 1945 foram trazidos de volta à URSS, terminaram jogados em campos de trabalho forçado, fazendo com que um número exagerado deles perecesse de fadiga (somente foram anistiados em 1995).

 

Uma aberta ação de "limpeza étnica" foi praticada contra cidadãos soviéticos de etnias minoritárias que caíram na desconfiança do regime, mesmo antes da invasão de 1941 (alemães, poloneses, tártaros, chechenos, ingushes, coreanos, balkars, kalmucos, armênios, búlgaros etc.), num total de 2.070.000 de desterrados. Yakovlev acusa Stalin e seus próximos de democídio, de livrar-se de povos inteiros pela internação em lugares de difícil condição de sobrevivência devido aos rigores do clima. Bem poucos tiveram autorização para retornar a sua terra natal depois da morte de Stalin.

 

As diversas perseguições a que desencadearam contra os acadêmicos, os escritores, os cineastas, a gente do teatro e da música, os doutores e tantos outros mais que foram relegados ao ostracismo, utilizando-se de motivos falsos ou espúrios: ideológicos, genéticos ou cibernéticos, provocando um colossal prejuízo à nação. Sem esquecer a expulsão em massa da intelligentsia dos tempos pré-revolucionários, determinada por Lenin em 1922 e 1923.

Segundo a pesquisadora inglesa Lesley Chamberlain (in A guerra particular de Lenin, 2006) aproximadamente 220 pessoas altamente qualificadas, embarcando no "Navio da Filosofia", foram banidas para sempre do país. Entre elas o famoso filósofo Berdiaev, um ativista cristão-socialista, que pelo menos não pereceu num campo de presos.

 

Organizando tribunais racistas para condenar judeus suspeitos de atividades antissoviéticas, que se intensificaram desde a fundação do Estado de Israel. Os judeus foram acusados de duplicidade: de fidelidade a Israel e potencial infidelidade à URSS.

Viram-se atacados frontalmente quando integrantes do Comitê Antifascista Judaico fundado para auxiliar a URSS na sua luta de vida e morte contra o nazismo. Uma das mais famosas destas campanhas foi a do "Complô dos Médicos", entre 1952 e 1953, ocasião em que vários doutores judeus foram acusados de tentar matar os principais líderes do regime (a partir da morte de Andrey Zdhanov, alto integrante do regime, denunciada pela MVD como erro médico proposital).

 

Sistemática caça aos dissidentes políticos ou a qualquer indivíduo que de alguma forma não demonstrasse adesão plena ao regime. Para tanto, a NKVD utilizou-se de uma rede nacional de informantes e estimulou em todos os meios a prática da denuncia anônima: "Todo comunista tem o dever de denunciar..."

Muitos dos apontados foram internados em asilos psiquiátricos, entendendo-se que todo o dissidente do regime soviético era um psicótico. Costume cruel que levou o psiquiatra Semyon Gluzman a escrever O Manual Psiquiátrico do Dissidente para opor-se a tal prática.

 

A pretexto de defender a URSS de possível ataque partindo do Ocidente, a sociedade soviética viu-se totalmente militarizada. As necessidades básicas da população foram ignoradas em favor dos orçamentos militares e da competição espacial. O país inteiro vivia num estado de guerra não declarada, tendo que suportar uma enorme carência de bens e alimentos.

 

Em agosto de 1991, a velha guarda comunista, descontente com a política da Glasnost/Perestroika, conduzida por Mikhail Gorbachev, tentou um levante contra o governo, visando a impedir a continuidade da abertura e da democratização da URSS, iniciada em 1986.

 

BIBLIOGRAFIA:

APPELBAUM, Anne - Gulag - uma história dos campos de concentração de prisioneiros soviéticos. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 2002.

CHALAMOV, Varlam - Relatos de Kolimá. Barcelona: Mínima, 2010, 4 v.

CHAMBERLAIN, L. A Guerra Particular de Lenin - A Deportação da Intelectualidade Russa pelo Governo Bolchevique. Rio de Janeiro: Record, 2008.

CONQUEST, Robert - O Grande Terror - Os expurgos de Stalin. Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura, 1970.

MOCHULSKY, Fyodor V. - Gulag boss, a soviet memoir. Oxford USA Professional, 2010.

MONTEFIORE, Simon Sebag - Stalin, a corte do czar vermelho. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

SOLJENÍTSIN, Alexander - O Arquipélago Gulag. São Paulo-Rio de Janeiro: Difel/Difusão Editorial S.A, 1976, 2 v.

YAKOVLEV, Alexander N. - A century of violence in Soviet Russia. New Haven-Londres: Yale University Press, 2002.

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Fonte: Especial para Terra
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