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Marxismo e Vanguarda - Parte II

Marxismo e Vanguarda

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Voltaire Schilling

Portas fechadas
A exaltação do Realismo fora motivada igualmente por outra percepção dele: a obra de vanguarda não penetrava no coração das maiorias. Era apreciada por uma minoria de leitores excêntricos ou de esnobes. Não ajudava em nada aos homens comuns libertarem-se da alienação em que viviam e muito menos insuflar-lhes ardor de rebeldia qualquer.

Enquanto os autores comprometidos com o Realismo - que escancaram suas portas para infinitas possibilidades - vendiam seus romances e novelas para milhares de leitores (caso de Cervantes, Shakespeare, Balzac, Tolstoi ou Gorki), uma porta estreitíssima conduzia à obra de James Joyce e aos demais expoentes da vanguarda.

Este fato, por si só, impedia que 'amplas massas populares pudessem aprender' alguma coisa com aquele tipo de experimentação. Entre outras razões, porque 'nesta literatura falta realidade, obrigando o leitor a aceitar um tipo de vida estreita e subjetivista'.

Sua incompreensão amplia-se devido às deformações e desfigurações propositais da realidade. Isto impede que o homem do povo possa traduzi-la para 'a linguagem das suas próprias experiências vitais'. A ausência na literatura vanguardista de uma relação viva com a vida popular e com o desenvolvimento progressivo das experiências das massas é que fazia com que ela fugisse da grande missão da literatura.

Além disto, ela teimava em 'apagar o rosto dos seus personagens a ponto de reduzi-los a uma espécie de sombras', ou a mania que os vanguardistas tinham de 'destruir os seus contornos ou de limitar a um único plano, ou ainda de coagulá-las em fantasmas, em imagens de sonho, desprovidas de qualquer racionalidade.'

Como, por exemplo, encontrava-se nas novelas de John dos Passos ('Franz Kafka ou Thomas Mann' in Realismo crítico hoje, 1969.)

No entender dele, o Realismo era a única linguagem capaz de orientar o leitor para o despertar de 'uma nova vida politicamente ativa'. Sua tarefa maior era denunciar 'os fenômenos de decadência política, cultural e artística', abrindo caminho ao que era significativamente popular. E, entre estes fenômenos negativos estava a luta travada pela vanguarda no sentido de 'uma liquidação cada vez mais enérgica do Realismo'.

Assim sendo, longe de ser a indicadora das novas tendências, a obra modernista era expressão do declínio social e cultural da sociedade capitalista. Uma espécie de fuga, contribuindo ainda mais para o isolamento da literatura e da arte, e não para o esclarecimento e emancipação das massas da opressão em que viviam. O experimentalismo estava associado à decomposição e ao descompromisso e não à contribuição positiva para uma nova visão do mundo.

Arma de luta

Lukács via a literatura realista como uma revelação, algo ligado diretamente à consciência política do homem comum. O escritor, para ele, tinha a função similar ao do indivíduo relatado por Platão no mito da caverna, aquele que, liberto das correntes, percebe a existência exterior de um outro mundo, muito melhor do que os que estão agrilhoados lá no fundo da caverna e desce de volta para esclarecê-los. Para ele não havia entretenimento nem diversão na leitura. A literatura devia ser uma arma de luta, jamais de lazer.

O grande embate no mundo das letras se dava entre o clássico x moderno, mas se a obra escrita contribui ou não para a desalienação do homem, se ela representa 'o progresso da literatura atual'.

Exaltação do patológico

Mas as diferenças entre a posição de Lukács e a vanguarda não estavam circunscritas a (in) eficácia da prosa ou da sua (in) compreensão. Havia também um desacordo na questão filosófica: na visão do Homem. O pensador húngaro reclamou que os vanguardistas haviam abandonado a percepção aristotélica do homem que o definia como ser social, isolando-o do restante da sociedade, como se esta nada tivesse a haver na configuração do personagem. Para o vanguardista, o individuo 'limita-se a sua existência', nada existe que possa agir efetivamente sobre ele.

Substituiu a realidade de fato pela possibilidade abstrata, incorrendo na dissolução do homem e na dissolução do mundo. Denunciou a influência negativa de Kierkegaard sobre os modernistas, pois para o filósofo dinamarquês 'cada homem vive num incógnito impenetrável aos outros homens e nada pode rompê-lo.'

O protesto que a vanguarda ensaia termina recaindo não sobre as injustiças sociais e outras anomalias concretas que cercam o personagem, mas sobre a patologia. E esta fuga em direção à patologia desemboca num vazio... 'na fuga para a doença'.

Em parte, a responsabilidade disto deveu-se a influencia crescente de Freud, cujos retalhos de pensamento e observações do cotidiano alimentaram a imaginação dos vanguardistas os conduzindo a entender o normal pela psicologia do anormal, bem ao contrário dos clássicos que trataram as paixões como expressões de homens normais e não como de excêntricos ou neuróticos.

O gosto que os vanguardistas demonstraram pelo aviltamento patológico do homem, da perversidade e da idiotia, fez da anomalia e da bizarria a verdadeira 'condição humana'.

A percepção de Gottfried Benn de o humano ser visto como um 'pequeno monte viscoso no morno pântano' é degradante, senão que infamante. Revela, antes de tudo, a perigosa tendência da vanguarda em se posicionar como anti-humanista.

Oscilando entre a mediocridade burguesa e a excentricidade patológica, ela termina por traçar caricaturas da personalidade humana, rejeitando como Franz Kafka e Robert Musil, qualquer perspectiva futura para o homem.

Esta perda da esperança que se junta ao tédio termina por gerar 'o homem monstro'(exemplo: o homem-inseto do conto 'A metamorfose' de F.Kafka). A uma sensação de completo abandono frente a um temor inexplicável.

Entre outros perigos que ele denunciou na vanguarda foi que a obsessão dela em romper completamente com as formas tradicionais produziu um efeito muito mais radical do que o esperado: o desaparecimento de qualquer forma literário, o que conduziu inevitavelmente à 'autodestruição da estética'.

Crítica ao Expressionismo

Ainda que a maioria dos artistas expressionistas alemães fossem ativistas um simpatizantes da esquerda, eles não se viram poupados por Lukács. Atribuiu a eles a função de 'ideólogos' atuando entre os dirigentes e as massas. Mesmo que as convicções políticas deles fossem sinceras, apresentavam-se 'confusos e obscuros'.

Na prática, arte expressionista 'projetava vacilações e proposições contra-revolucionárias'(ideologia da não-violência, crítica abstrata da burguesia, caprichos anarquistas. Etc.). Representava as indecisões típicas de uma ideologia de transição (entre a ordem burgueses abalada e a revolução que se encaminhava para a vitória), o que fazia com que o expressionismo se visse de fato impedido de ser uma verdadeira estética da revolução.

Os defeitos do expressionismo

O primeiro defeito que Lukács observou no expressionismo foi sua ambição de conceber-se eterno, quando era fruto de circunstâncias históricas bem determinadas (a decadência da sociedade burguesa na transição do século XIX para o XX). Além disto, o predomínio do anti-realismo impediu o controle e a superação das tendências falsas que se abrigavam em seu meio, o que prejudicara ¿ a captação profunda da realidade¿.

A forma confusa, caricata, e por vezes excessivamente complexa com que se relacionavam com o público, terminou criando obstáculos para o processo da necessária clarificação ideológica revolucionária daqueles a quem influía. As massas sentiam-se embaralhadas frente aquele tipo de arte, tornando-a inútil para a mobilização radical.

Quanto ao desaparecimento do expressionismo como movimento estético singular, para Lukács isto não se deveu à política contra-revolucionária desencadeada pelos próprios sociais-democratas alemães, em 1919 (a violenta política repressiva anti-espartaquista de Noske, o ministro do interior da recém proclamada República de Weimar, que culminou no assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebcknecht, líderes da extrema esquerda, em janeiro de 1919, em Berlim).

No entender do pensador húngaro, foi a Revolução Bolchevique de 1917 com seu enorme impacto sobre a realidade européia e mundial quem transformou em fumaça a estética expressionista.

Concluiu então que, 'quanto mais se aprofundava o socialismo na URSS mais ainda foi sendo abandonada a Arte de Vanguarda na Rússia', por conseguinte foi a crescente maturidade das massas revolucionárias quem impingiu a 'derrota do expressionismo'.

Nota: uma boa síntese sobre o ponto de vista marxista mais recente sobre a relação do Realismo com as vanguardas encontra-se na série de artigos publicados por Carlos Nelson Coutinho, em 1967, onde se encontra um capitulo especial intitulado 'O Realismo como categoria central da crítica marxista'(in 'Literatura e Humanismo', pág. 95-136), na qual o autor remete a outras posições sobre o entendimento do Realismo (Galvano Della Volpe, Leandro Konder, Roger Garaudy, etc.)

Bibliografia

Coutinho, Carlos Nelson - Literatura e humanismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967.

Fischer, Ernst - A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966.

Konder, Leandro - Os marxistas e a arte. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.

Lukács, George - Materiales sobre el realismo. Barcelona- Buenos Aires- México, Grijalbo, 1977.

Lukács, George - La novela histórica. Barcelona: Grijalbo, 1977.

Lukács, Georg - Realismo crítico hoje. Brasília: Coordenada-editora de Brasília, 1969.

Tertulian, Nicolas - Georg Lukács - etapas do seu pensamento estético. São Paulo: Editora UNESP, 2008.

Vedda, Miguel - Lukács: Etapas de su pensamiento estético y político. (IPS) Instituto del Pensamiento Socialista Karl Marx. Buenos Aires, septiembre de 2005.

Williams, Raymond - Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1979.

Fonte: Especial para Terra
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