Lutero, o monge rebelde

31 out 2017
17h28
atualizado às 17h31
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“Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas”
M.Lutero – tese 24, 1517

O monge alemão Martinho Lutero
O monge alemão Martinho Lutero
Foto: Divulgação

Sem despertar a atenção dos passantes, um monge agostiniano, professor e doutor em teologia, rapidamente alcançou a porta da igreja do castelo de Wittenberg, situado na Saxônia. Carregava um martelo e levava nas mãos um manuscrito. Era a véspera da celebração de todos-os-santos, o dia 31 de outubro de 1517. Martim Lutero, com 31 anos, estava no auge das suas capacidades intelectuais.

Chegando ao seu destino tratou de afixar o escrito com suas 95 teses na dura madeira do templo. Certamente não tinha a mínima idéia do que iria provocar. Era o começo da Revolução Protestante que se espalhou por larga parte da Europa e América, assustando os beatos, os padres e as autoridades civis e eclesiásticas. Para eles o escrito dele era “pura peste” a ser evitada por qualquer meio, quando não  o monge era visto como a encarnação do próprio demônio.

O documento dele simplesmente afastava o papa e o corpo clerical de abrigar qualquer poder que levasse um fiel à salvação. Esta era obra exclusiva de Deus. De nada serviam as peregrinações, as obras, as missas, a vida celibatária enclausurada nos mosteiros ou a devoção aos santos. Somente através da fé no Todo Poderoso e da graça dele recebida era possível ambicionar o encontro final com a pureza dos céus.

Lutero era um barril de pólvora. Em 1521, o imperador do Sacro Império, o jovem Carlos V, temendo ver seus vastos domínios arrasados pelas chamas da heresia chamou-o para se fazer presente na Dieta de Worms (sede da assembléia imperial). Foi um encontro extraordinário.  O monge, descrito como um feixe de ossos (devido à tensão em que vivia), frente a uma platéia hostil, negou a se retratar. Assim o faria, pronunciou-se, caso alguém presente pudesse provar pelas Sagradas Escrituras que ele errara. Como ninguém se atreveu, ele exclamou:  Hier stehe ich, ich kann nicht anders. Gott helfe mir, Amen. (Eu fico por aqui, não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude, amém - Worms, 1521).

Muitos dos seus contemporâneos atribuíram a postura de Lutero como rematada loucura. Naquele salão ele, sozinho, enfrentara não somente a coroa imperial (Carlos V) como a mitra papal (Leão X), os dois mais impressionantes tronos daquela época. Mas não foi um milagre que o salvou do açoite e da fogueira, como tantos outros reformadores antes dele ( como ocorreu com John Husss, um século antes). O que lhe serviu de escudo foi o povo alemão, fascinado pela bravura e coragem daquele doutor em teologia que, saindo do nada, arriscava tudo ao combater a venda das indulgências (lugares no céu traficados por comissários papais aliados ao banqueiro da Casa Fugger).

Maquiavel numa conhecida passagem do “Príncipe” (cap.VI), afirmara que somente os ‘profetas armados venciam’, já os desarmados tinham  triste fim. E esta cobertura protetora veio-lhe do príncipe-eleitor Frederico, o Sábio apoiado a inúmeros Reichsritter ( cavaleiros do império), como Ulrich von Utten, que, com espada ativa, desejavam ver a Alemanha (então um cadinho de entidades políticas que abarcavam 240 estados) liberta das intromissões de um soberano estrangeiro e das taxações eclesiásticas. Erasmo, o famoso humanista, apelara para que a Cúria romana fosse tolerante e não tão agressiva contra Lutero. Era tarde, um ódio crescente envolveu as duas comunidades que posteriormente se agregaram à União Protestante e à Liga Católica. A Grande Guerra da Cristandade (1521-1648) iria se estender até 1648 arrastando para morte milhares de cristãos que simplesmente ignoraram o 5 mandamento: “Não matarás”.

Fonte: Especial para Terra

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