Lincoln: o poeta e o presidente
15 jan
2013
- 15h05
Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho. (Walt Withman)
Uns dias antes de ser baleado, o presidente Lincoln, que estava longe de ser o caipira santarrão da lenda popular, contou a seu secretário, John Hay, um estranho sonho. Na verdade, um pesadelo. Nele vira várias pessoas correndo em direção ao Salão Leste da Casa Branca, onde foi encontrar seu próprio corpo estirado e ouviu vozes dizendo “Lincoln está morto”. Nas vésperas do atentado, na noite de 13 de abril de 1865, teve ainda outro. Aparecia como o comandante de um navio que, em meio a uma tormenta, se aproximava do porto de destino, mas sua sensação era de que não concluiria a viagem.
Ninguém faz a mínima ideia de como o poeta Walt Whitman tomou conhecimento desse sonho, que serviu de mote para que compusesse uma das mais belas elegias da língua inglesa moderna. O poeta se coloca como integrante da tripulação de um barco que, depois de terríveis desafios - a dolorosa guerra civil entre o Norte e o Sul, de 1861 a 1865 - consegue finalmente se aproximar do cais. Mas, justamente no momento da euforia, verifica que o capitão sucumbira repentinamente. Lá estava ele envolto em gotas de sangue vermelho: “Where on the deck my Captain lies/Fallen cold and dead.” Por mais que tente reanimá-lo, não mais lhe responde. Não escuta mais a multidão que exulta lá fora. Ignora o toque dos clarins e os ramalhetes de flores, nem vê a bandeira içada em sua honra.
Enquanto o povo ainda desconhece o ocorrido e comemora o fim da aventura, o poeta-marinheiro Whitman anda com tristeza pelo convés onde jaz seu capitão, caído, frio e morto.
Curioso que estes dois grandes americanos, Abraham Lincoln e Walt Whitman nunca se cruzassem. Um emancipou os negros da escravidão; o outro a poesia americana dos cânones europeus. Mas não ocorreu a ninguém apresentá-los. Whitman ainda chegou a ver Lincoln quando o presidente, recém-eleito, fez uma visita à Nova Iorque, em fevereiro de 1861. Ao deparar-se com aquela magnífica feiura, vestido de preto e com uma imensa cartola negra, hostilizado pela multidão, o poeta teve um mau pressentimento.
Tiveram ainda outra oportunidade de se aproximar, pois Whitman passou quase todo o período da guerra contra o Sul em Washington. Seu irmão George havia sido ferido na batalha de Fredericksburg, nos finais de 1862, e Walt resolveu sair de Nova Iorque para cuidar dele. Não era nada sério. Whitman comoveu-se profundamente ao visitar aquelas barracas-hospitais, vendo o sofrimento e a agonia da juventude americana devorada pela luta fratricida. Só na capital nortista encontravam-se 38 hospitais, o que o levou a batizá-la como “o grande sepulcro branco.” Tornou-se visitante inveterado daqueles depósitos de padecimento humano, levando recados aos soldados feridos ou escrevendo cartas aos seus parentes, consolando-os de suas terríveis dores.
Desde que, por conta própria, publicara seu Leaves of grass (Folhas de relva), em 1855, Whitman começara a fazer não só nome na literatura americana como se tornou uma verdadeira legenda. Sua poesia, de versos soltos e livres, sem compromissos, não contemplava nenhum tipo de herói em particular. Foi o cantor das virtudes da América e da democracia. Enobreceu o linguajar coloquial e privilegiou o “americanismo” e a gente comum, bem como o sexo, o corpo e até o amor homossexual, o que lhe valeu a perda de um emprego público.
Em 1873 sofreu um ataque que o aleijou. Retirou-se então para Camden, Nova Jersey, onde passou a morar na casa do irmão. Cultivando uma longa barba profética, tornou-se um dos patriarcas e sábios da nascente cultura americana. Lá morreu em 26 de março de 1892. Mas se o leitor abrir as páginas da maior parte da poesia atual, bem como boa parte da prosa de hoje, facilmente verificará que o velho Walt continua por aí, vivíssimo.
Ó Capitão! Meu Capitão!
Capitão! Terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que buscávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos, toda a gente está exultante,
Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas. Ó meu capitão sangra!
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.
Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te, a bandeira agita-se por ti, o clarim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas, para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.
O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.
Bibliografia
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Whitman, Walt – Poestry and prose.Complete Poetry and Completed prose. Nova York: Libraria of America, 1982
Fonte: Terra
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