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Gás! Alarma! Ai vem o gás!

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25 abr 2017
07h30
atualizado às 17h25
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Com o advento da poderosa indústria química no século 19 foi inevitável que na Guerra de 1914-18 se usasse o gás venenoso como uma arma de combate. Depois de duas experiências sem resultados feitas no fronte ocidental  ainda em 1915, o exército alemão, seguido dos franceses e ingleses, fez largo uso do gás de cloro e de mostarda a partir de 1916.

Assim, os soldados conheceram mais um abominável instrumento de morte. O pavor dos atingidos pela núvem mortífera foi total.  Desde então,  nada provocou no homem contemporâneo tamanha fobia do que vir a morrer inalando gás venenoso. Tanto assim que, depois da Grande Guerra assinou-se um acordo em Genebra, em 1925, no qual a maioria dos países assumiu o compromisso de não usá-lo.

Tropa de assalto em meio a um ataque de gás (Otto Dix, 1924)
Tropa de assalto em meio a um ataque de gás (Otto Dix, 1924)
Foto: Reprodução

O gás no fronte de batalha

Registra-se o dia 3 de janeiro de 1915 como a data fatídica em que pela primeira vez os alemães abriram cilindros de gás venenoso sobre as trincheiras inimigas, operação, diga-se, inutilizada pelas baixas temperaturas do inverso Europeu. Mas logo que o tempo melhorou com a primavera, em 25 de  abril de 1916, a situação foi outra. Nos dias  seguintes, na região de Langemarck, perto de Ypres, uma densa névoa verde-cinza, típica do gás  de cloro, expelida de 520 cilindros, começou a soprar em direção às linhas  de um regimento franco-argelino que sustentava a posição nas trincheiras em frente.

Quando os soldados  viram aquele vapor tóxico vindo na direção deles envolvendo tudo, adentrando por todo os lados, provocando-lhes uma violenta náusea,  foi um salve-se quem puder. Era o sopro do dragão. O pânico fez com que eles, deixando as armas e as mochilas, corressem como loucos para as linhas da retaguarda em busca da salvação. Tiveram que improvisar algumas máscaras na hora, mas sem grandes resultados.

Nas trincheiras e nos campos, jogados ao leu, encolhidos, espumando, ficaram os que não conseguiram escapar. Psicologicamente foi um sucesso. O inimigo desertara em massa. A  notícia logo se espalhou de boca em boca pelos corredores das trincheiras e dos valos onde milhares de homens se encontravam -  um diabo em forma de nuvem fétida estava solto pelos campos de batalha.

Banalização do uso do gás

Em setembro daquele mesmo ano de 1915, os ingleses deram a sua resposta ao ataque de gás em Ypres, jogando sobre os alemães entrincheirados perto de Loos uma substantiva quantidade de gás de cloro. Se nos começos desse tipo de recorrência ao gás mortífero era costume utilizar grandes cilindros para despejar veneno ao sabor da direção em que o vento soprava, em seguida avançaram para o uso de um cartucho próprio , o The Projetor, capaz de lançar cápsulas de gás venenoso a enorme distância.

A partir do ano de 1916, especialmente durante a longa batalha de Verdun, travada entre alemães e franceses, o gás entrou em cena de vez. E desta feita foi a estréia de novo gás muito mais mortífero em seus efeitos do que o cloro – o chamado gás de mostarda (dichlorethylsulphide). De cor amarelada forte, ele mostrou ser capaz de devastar as linhas adversárias mesmo em meio às tropas equipadas com máscaras antigases. Em contato direto com qualquer parte da pele da vítima, de imediato, ele levantava bolhas amareladas, atacando em seguida os olhos e as vias respiratórias. Além disso,  tinha a capacidade de permanecer fazendo efeito durante um tempo bem superior do que os outros, como o gás lacrimogêneo ( lachrymator), não-mortal,  e o de cloro, seja ele fosfogênico ou  difosgênico.

Desde então, pelos doias anos seguintes, até 1918, a paisagem da guerra das trincheiras foi toldada pela presença sistemática dos vapores do gás de mostarda que, utilizado por ambos os lados, passou a ser o manto sombrio e enfumaçado da morte asfixiante que cobria os soldados em seus últimos momentos de vida. Tamanha foi sua presença nas batalhas que no ano final da guerra, em 1918, ¼ dos obuses lançados pela artilharia eram de gás venenoso.

Ataque com gás: uma paisagem aterradora
Ataque com gás: uma paisagem aterradora
Foto: Reprodução

O testemunho de um poeta

Vários escritores testemunharam ou eles mesmos passaram pela terrível experiência do envenenamento por gás durante a Grande Guerra de 1914-18. Uma das descrições mais impressionantes de um ataque por gás contra uma patrulha foi deixada em versos pelo poeta britânico Wilfred Owen, que antes de ser abatido pela metralha alemã uma semana antes do final da guerra, no dia 4 de novembro de 1918.

Wilfred Owen (1893-1918)
Wilfred Owen (1893-1918)
Foto: Reprodução

Owen deixou seu testemunho no célebre poema Dulce et decorum est (1917) :

Totalmente encurvados como se fossem velhos mendigos em fila, joelhos dobrados, tossindo como bruxas, andávamos sobre a maldita lama
Até o momento em que os insistentes sinalizadores nos fizessem voltar
Então, na distância que nos restava percorrer, começamos a nos arrastar

Alguns marchavam tontos de sono. Muitos deles haviam perdido suas botas, mancando, com os sapatos ensanguentados
Todos estavam estropiados, todos cegos: bêbados de fadiga, surdos mesmo aos alarmes de que um cartucho de gás havia estourado ali perto.

Gás! Gás! Rápido rapazes! Num êxtase mal ajeitado, todos tentam colocar a máscara ainda a tempo. Mas alguém continuava gritando alto e tropeçando, como um homem em meio ao fogo ou a lama.
Confuso, como se estive metido numa densa e enevoada vidraça de luz verde, como se estivesse num mar verde, eu o vi se afogando

Em todo os sonhos que tive depois dessa desamparada cena, ele aparecia precipitando-se sobre mim, derretendo-se, sufocado, afogado
Não sei se com esses enfumaçados sonhos você também conseguirá ter paz

Atrás do vagão em que o jogamos, atentei para o branco dos olhos dele convulsionando-se no  seu rosto
A sua cara de enforcado, como se fosse um diabo vomitado pelo pecado
Você podia escutar, a cada solavanco, o sangue saindo, gorgulhante, dos seus pulmões corrompidos

Obsceno como um câncer, amargo como fel. Quão vil e incuravelmente inflamado em línguas inocentes
Meu amigo você não vai querer este tipo de prazer elevado
Tão ardentemente infantil em querer alcançar tal glória desesperada

É uma velha mentira: Dulce et decorum este Pro patria mori (Quão doce e honrado é morrer pela pátria)

Soldados ingleses cegos pelo gás
Soldados ingleses cegos pelo gás
Foto: Reprodução

Uma tela impressionante

Mal terminado o conflito, assinado o Armistício em 11 de novembro de 1918, o Comitê do Memorial da Guerra de Londres encomendou uma tela ao pintor norte-americano John Singer Sargent para vir ilustrar o Hall  of Remembrance, o Salão da Recordação, que iram construir para homenagear os milhares de mortos na Grande Guerra. Sargent que estivera no fronte, resolveu retornar às linhas abandonadas da França,  em 1919, em busca de uma inspiração direta. Então lembrou-se das filas dos soldados atingidos pelo gás venenoso que o impressionaram muito.

A partir daí, recorrendo às imagens dos frisos greco-romanos das procissões sagradas, fez uma série de estudos para depois juntá-los num impressionante painel, em cor pastel,  da desolação humana. O resultado da obra de Sargent foi estarrecedor, parecendo-se uma atualização da  “Parábola dos Cegos”, tela  de Pieter Brueghel, pintada no século 16, um dos mais impressionante flagrantes do desamparo que a cegueira provoca.

É significativo de que a cena de sofrimento que mais comoveu aquela geração de combatentes não tenha sido o padecimento e as doenças nas trincheiras, nem a morte estraçalhada pelos obuses da artilharia, nem os ventres abertos pela metralha e pela baioneta, ou os corpos horrivelmente carbonizados pelo lança-chamas, mas sim a consternação provocada em todos pelos soldados gaseados.

A parábola dos cegos (Brueghel)
A parábola dos cegos (Brueghel)
Foto: Reprodução
A marcha dos gaseados  (John Singer Sargent)
A marcha dos gaseados (John Singer Sargent)
Foto: Reprodução

Comentário de uma enfermeira

Os horrores dos ferimentos provocados por um ataque por gás mereceram também o registro da enfermeira Vera Brittain que,  logo em seguida ao término da guerra , deixou o seu testemunho no   A testament of youth, de 1918,  de onde retirou-se o seguinte comentário:

“Eu gostaria que uma dessas pessoas que dizem querer levar a guerra até suas conseqüências finais que vissem os soldados envenenados pelo gás de mostarda. Grandes bolhas cor de mostarda, cegos, todos eles agarrando-se uns aos outros, lutando desesperadamente para respirar, com vozes que são um sussurro, dizendo que a garganta deles está se fechando e que logo eles vão sufocar-se.”

Um testemunho literário

Num dos mais famosos romances da literatura francesa do século 20, “Os Thibault”, de Roger Martin du Gard, nos capitulos derradeiros  encontra-se uma detalha descrição do efeito que o envenenamento faz sobre um dos personagens, o médico Antoine Thibault que, internado num sanátorio, vai aos poucos fenecendo até o desenlace fatal.

Imagem da fachada do campo de concentração Auschwitz II Birkenau,  localizado no oeste de Cracóvia, na Polônia, diz "Sing Arbeit macht frei" (O trabalho libera)
Imagem da fachada do campo de concentração Auschwitz II Birkenau, localizado no oeste de Cracóvia, na Polônia, diz "Sing Arbeit macht frei" (O trabalho libera)
Foto: iStock

Tipos de gases

O gás de cloro (Cl2) foi o primeiro deles. Desde então, muitas outras substâncias já o suplantaram. Podemos classificar as armas químicas de acordo com o modo como atuam. Nesse critério, os principais tipos são os seguinte:

Agentes asfixiantes: atuam nos pulmões, causando-lhes sérias lesões e dificultando a respiração. Podem provocar a morte por asfixia. Exemplos: Cl2 (gás cloro), COC2 (fosfogênico) e Cl3C-NO2 (cloropicrina).

Agentes que atuam no sangue: também matam por asfixia, mas por meio de outro mecanismo. São substâncias que se combinam com a hemoglobina, tornando-a incapaz de transportar o O2 para as células do organismo. Exemplos: HCN (gás cianídrico), ClCN (cloreto de cianogênio)
BrCN (brometo de cianogênio) - usados nas câmaras de gás e nas sentenças de morte ainda hoje nos EUA.

Agentes causadores de feridas: provocam irritações nos olhos e na pele. Dependendo da quantidade, causam feridas, náuseas e vômitos. A irritação dos pulmões pode matar por asfixia. Exemplos: Cl-CH2CH2-S-CH2CH2-Cl (gás mostarda), Cl-CH2CH2-N(CH3)-CH2CH2-Cl (mostarda de nitrogênio), ClCLCHAsCl2 (Lewisita).

Agentes lacrimogêneos: provocam uma forte irritação nos olhos. Exemplos: H3CCOCH2Cl (cloro-acetona), H3CCOCH2Br (bromo-acetona) e H2CCH-COH (acroleína).

Agentes nervosos: das armas químicas são as mais perigosas. Normalmente não têm cor nem cheiro. Atuam sobre o sistema nervoso, bloqueando a transmissão dos impulsos nervosos de uma célula (neurônio) para outra. Matam em minutos por parada cardíaca ou respiratória. Exemplos de agentes nervosos são: (H3C)2NPO(CN)OCH2CH2 (tabun), H3CPOFOCHCH3CH3 (Sarin) e H3POFOCHCH3CCH3CH3CH3 (agente VX).

Fonte: dados fornecidos pela professora Margot Andras (Mestre-Unicamp)

Mortes provocadas pelo gás na Grande Guerra (1915-18)

Fonte: Gas Death in The First World War [learn.co.uk]
País Total de atingidos Número de Mortos
Grã-Bretanha 188.706 8.109
França 190.000 8.000
Estados Unidos 72.807 1.462
Itália 60.000 4.627
Rússia 475.340 56.000
Império Alemão 200.000 9.000
Áustria-Hungria 100.000 3.000
Outros 10.000 1.000
Total 1.296.853 91.198

Nota: ainda que o percentual de mortos seja pequeno em relação aos que foram atingidos pelo efeito do gás venenoso (7% do total) é de se observar que a intenção do seu uso era mais provocar o pavor e o pânico coletivo das tropas do que realizar grandes baixas. O gás foi usado para dissolver as linhas de frente da batalha, para provocar um corre-corre geral que permitiria o avanço daqueles que o lançavam.

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Especial para Terra

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