Berlim 1989, a Queda do Muro

1 nov 2019
18h08
atualizado em 4/11/2019 às 09h52
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O muro de Berlim – uma parede de concreto e pedra, protegida por arames farpados eletrificados e ninhos de metralhadoras - começou a ser erguido em 12-13 de agosto de 1961, como resultado do crescente desentendimento entre a URSS e os EUA, em razão do acirramento da Guerra Fria. Desde 1945, ambas as superpotências, vitoriosas na 2ª Guerra Mundial (1939-45), haviam dividido a Alemanha entre si, no acerto que fizeram nos tratados de Yalta e Potsdam. Também concordaram em partilhar a sua capital, Berlim. Ocorre que a antiga sede do Reich alemão ficou inteiramente do lado soviético, obrigando a quem desejasse alcançá-la ter que percorrer território controlado pelos russos.

Foto: Reprodução

O início da Guerra Fria

O desacerto entre os dois aliados da 2ª Guerra Mundial iniciara-se em 1947, quando os Estados Unidos anunciaram a Doutrina Truman (política de contenção mundial ao comunismo) e o Plano Marshall (auxílio econômico às nações atingidas pela guerra), para diminuir a possível influência dos comunistas no mundo do pós-guerra. A URSS considerou-se agredida pelas intenções norte-americanas e lançou-se numa onerosa corrida armamentista que, bem mais tarde, revelou-se a responsável pela estagnação econômica do regime soviético. Com a crescente rivalidade dos dois colossos, ambos trataram de reerguer economicamente “a sua parte” da Alemanha, permitindo-lhe uma relativa autonomia política.

As duas Alemanhas

Em 1949,  os EUA concordaram com a formação da RFA (a República Federal Alemã, ou Alemanha Ocidental), enquanto a URSS estimulou a fundação da RDA (a Republica Democratica Alemã, ou Alemanha Oriental). A primeira passou a fazer parte da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), do complexo de segurança que os norte-americanos montaram na Europa. A segunda, por sua vez, foi integrada, juntamente com as demais democracias-populares do Leste europeu, no Pacto de Varsóvia (a resposta soviética à criação da OTAN pelos americanos). Dez anos depois era evidente a enorme diferença entre o bem estar e o padrão de vida entre uma parte e a outra. No começo dos anos 60, a Alemanha Ocidental já se perfilava - graças ao chamado “milagre alemão”, resultante do dinheiro do Plano Marshall -, entre as nações mais prósperas do mundo, deixando longe sua vizinha comunista (hoje a Alemanha ocupa a posição de 3ª nação mais rica do mundo, com um PNB de mais de 3 trilhões de dólares, só atrás dos EUA e do Japão). Esse desequilíbrio entre elas, entre a parte ocidental e a oriental, é que vai ser a causa direta da construção do muro.

Berlim, novembro de 1989.
Berlim, novembro de 1989.
Foto: Reprodução

O fracasso em deter o fluxo

Até a construção do muro, Berlim, uma cidade de pouco mais de 3 milhões de habitantes, estava divida formalmente entre quatro zonas de ocupação: a zona americana, a inglesa e a francesa, na metade ocidental, e a zona russa na outra metade da cidade. Com a prosperidade da parte capitalista, calculou-se que mais de 200 mil trabalhadores do lado oriental transitavam, indo e vindo, todo os dias para a outra parte da cidade. Berlim ocidental também se apresentava como uma porta aberta por onde, até iniciar a construção do muro, 2,5 milhões de pessoas de outras partes da Alemanha Oriental passaram em busca de oportunidades de emprego e salários mais elevados do lado capitalista. Muitos deles eram técnicos de alto nível e de boa formação que procuravam melhores condições profissionais. A evasão dessa mão-de-obra qualificada parecia não ter mais fim. As autoridades comunistas, soviéticas e alemãs, sem condições práticas de evitar esse fluxo para o lado ocidental, decidiram-se então por uma solução radical: pelo erguimento de um muro.

O impacto negativo

Quando o muro começou a tomar forma, o seu mentor Nikita Krushev, primeiro-ministro da URSS, não levou em conta a propaganda negativa que foi para o regime comunista aquela construção. Justificou-a dizendo que era um instrumento para deter a “ameaça fascista”, difundindo contra todas as evidências a ideia de que a Alemanha Oriental achava-se na eminência de um ato de agressão. As fugas espetaculares que então se sucediam do lado oriental serviram como um poderoso instrumento de propaganda contra o comunismo: 5 mil pessoas conseguiram escapar nos primeiros tempos da edificação daquela parede insensata, enquanto estima-se que outros 5 mil foram presos ao tentar alcançar o lado ocidental; 191 deles porém,  tiveram pior sorte, pois foram mortos pelos Vopos, os temíveis guardas orientais. A parte ocidental por sua vez, sentindo a carência da mão-de-obra que tanto precisava, deu impulso para que trabalhadores turcos viessem a ocupar os lugares dos berlinenses orientais. Em 1962, o presidente John Kennedy, em visita à cidade, apontou o muro como um sinal indelével do fracasso do comunismo, pois aquele regime tinha que erguer uma linha de  concreto e reforçá-la com policial armados, arames mortíferos e possantes faróis, para que as pessoas não fugissem.

Mapa das Alemanhas Ocidental e Oriental.
Mapa das Alemanhas Ocidental e Oriental.
Foto: Reprodução

A glasnost e a perestroika

Em 1986 assumiu a liderança do governo soviético um novo primeiro-ministro, um político jovem e surpreendente para os padrões soviéticos, até então caracterizado por uma gerontocracia, um líder que não tinha ligações com a era stalinista, chamado Mikhail Gorbachov. Não demorou para que ele, consciente das dificuldades econômicas da URSS, exaurida pelos gastos feitos durante a Guerra Fria, se decidisse por uma reforma radical: a glasnost, a política da transparência. Era o principio do fim da URSS. Em seguida, ele as ampliou para o campo econômico, adotando a perestroika, a reestruturação. Os acontecimentos a partir de então se aceleraram. Um dos seus assessores chamou a nova política externa adotada pela URSS de “doutrina Sinatra”, inspirada no grande sucesso do cantor, a canção “My Way”, “Meu Caminho”, dizendo que dali em diante os países vinculados ao bloco soviético estavam livres para escolherem qual o destino que desejariam trilhar no futuro.

A queda do comunismo

O ano de 1989 foi impressionante. Quase toda a estrutura comunista no Leste europeu desabou. Uma imensa revolução pacifica (na Tchecoslováquia chamaram-na de “revolução de veludo”) pôs abaixo, sem grandes violências, uma ditadura que completara mais de quatro décadas, e que na URSS durava desde 1917. Os governos comunistas caíram na Polônia, na Tchecoslováquia, na Hungria, na Romênia (onde ouve violência, culminando no fuzilamento do ditador Ceausescu), na Bulgária, e na Alemanha Oriental. A Iugoslávia, por sua vez, apesar de nunca ter pertencido ao bloco soviético, mergulhou numa violenta guerra civil, enquanto que a URSS, dissolvida e convertida em seguida na Federação Russa, por pouco não teve o mesmo destino.

Quando a  vizinha Hungria permitiu que alemães orientais passassem pelo seu território para fugir para a Áustria, e dali para a Alemanha Ocidental, o regime comunista de Hoenecker sentiu o impacto. Ao mesmo tempo milhares de pessoas começaram a manifestar-se em Leipzig e em Berlim oriental, em meetings gigantescos, clamando por liberdade e pelo direito de viajar: “Nós somos o povo!”, gritavam eles. Na noite de 9 de novembro de 1989, depois de uma confusa notícia oficial sobre a liberação para viagens ao ocidente, milhares de alemães orientais marcharam em direção às passagens do muro. As cancelas foram abertas pela polícia comunista atônita. A odiosa construção de 45 km de concreto começou a ser desmantelada naquela noite mesmo. Quase que simultaneamente terminou o comunismo e, com o seu fim, encerrou-se a Guerra Fria.

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Fonte: Especial para Terra
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