A grande crise e a revolução de 1930

16 out 2020
17h21
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O anúncio do desastre veio com a  quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Assim num nada, do dia para noite bilhões de dólares em ações  viraram apenas papel. Uma foto impressionante, tirada certamente em 30 ou 31 de outubro de 1929, mostra garis varrendo o entulho deixado cair pelos corretores no famoso salão de Wall Street.  O poderoso capitalismo americano , provocando uma pandemia econômica universal,  como que se derretera. Até hoje vários cálculos foram feitos na tentativa de precisar o quando em dólares se evaporou, mas a perda de $30 bilhões parece ser a quantia  incinerada mais próxima da realidade.

Gaúchos amarram cavalos no obelisco (1930)
Gaúchos amarram cavalos no obelisco (1930)
Foto: Reprodução

O Brasil, então um fazendão produtor de sobremesas (açúcar, café, cacau, frutas, etc.) foi atingido em cheio. O café, maior grão nacional então exportado, teve uma redução do preço para 1/5. 

As principais capitais tiveram suas ruas lotadas de gente desesperada. O golpe da bolsa falida bateu frontalmente com os produtores de São Paulo e com isso, como se viu, assinalou durante muitas décadas  o fim da hegemonia política do grande estado. 

O presidente Washington Luís, ainda que nascido em Macaé no Rio de Janeiro, tentou numa manobra desastrada salvar a situação apoiando o paulista Julio Prestes para sua sucessão, ao invés de um mineiro (no caso, o governador Antonio Carlos Ribeiro de Andrada).

Numa outra foto esta tirada no dia mesmo do levante de Três de Outubro de 1930, vemos a mesa dos revolucionários no Grande Hotel, no centro do Porto Alegre. Formavam a fina flor do neo-patriciado gaúcho estreitamente ligado ao presidente Getulio Vargas. Lá estavam Osvaldo Aranha, Mauricio Cardoso, Flores da Cunha, Batista  Luzardo, João Neves da Fontoura, e tantos outros mais. Almoçavam na mais santa das tranqüilidades. Se o governo federal soubesse do que viria a seguir os prendendo, matava no berço a revolução.

Num certo momento Osvaldo Aranha se levantou ascendeu o infalível cigarro e, elegante como sempre, começou a caminhar pela Rua da Praia em direção ao setor dos quartéis. Alcançando as proximidades do QG da 3ª região militar sob comando do general Gil Cardoso, deu a ordem do ataque. Vários policiais em roupas civis, fingindo-se de trabalhadores arrumando os canos e esgotos, saíram das trincheiras e não demoraram muito em render as guarnições. Ao anoitecer do dia quatro de outubro não havia nenhum tipo de resistência. Dominada a capital a base da arrancada estava pronta para a conquista do poder nacional. (*) 

Quando a notícia do levante do Rio Grande do Sul chegou à capital federal, os cariocas decidiram derrubar o regime por suas próprias mãos. Jornais governistas (quase todos) foram empastelados, enquanto o Palácio do Catete era cercado por multidão raivosa. Três generais liderados por Tasso Fragoso (eminente historiador) levam a Washington Luís o ultimato. Para tanto, contaram com os préstimos do cardeal-arcebispo D. Sebastião Paes Leme que acompanhou o presidente caído em desgraça e logo banido do país. No Recife, capital célebre pela insurgência desde os tempos coloniais, o povo insubmisso liquidou com a republica em questão de horas.  

O anúncio da prisão do Presidente fez cessar a batalha de Itararé (infamada pelo Barão de Itararé, como “a batalha que não houve”) travada na fronteira do Paraná com São Paulo e que deixou muitos mortos e mais de cem feridos (em 1934 se desenterraram os ossos de uns 30 ou 40 passo-fundenses, abatidos numa das fazendas vizinhas). O comandante Miguel Costa obteve a rendição do coronel Paes de Andrade visto que Washington Luís já estava detido no Forte de Copacabana. Tinham-se passado apenas dez dias do manifesto getulista anunciando a revolução.

Quais eram afinal as bases dos insurgentes? O “núcleo duro” da revolta era composto pelos herdeiros do Castilhismo (antiliberal e autoritário) tendo Getúlio Vargas à frente. Colado a ele perfilavam-se os “tenentes”, jovens militares em amotinamento anti-oligárquico constante desde 1922. Em São Paulo, foi o Partido Democrático, dissidência dos republicanos paulistas aberta em 1926 quem abraçou a rebeldia. De Minas, alinhou-se a força pública do presidente Olegário Maciel, e no Norte-Nordeste uma coluna liderada pelo capitão Juarez Távora deslocou-se para o Sul. Vargas de uniforme, embarcado num trem em direção ao Rio de Janeiro, foi por todo o trajeto recebido em triunfo. 

Cercado por todos os lados, abandonado em função do exército ter-se dividido (o fato de João Pessoa, parceiro de chapa de Vargas, ter sido assassinado – ainda que sem que motivos ligados ao governo fossem responsáveis – afrontou o legalismo da maioria dos oficiais) ao presidente nada mais restou senão aceitar o fato consumado.

Bem poucos regimes de então conseguiram sobreviver ao desastre de 1929-30 (na América do Sul, Argentina, Peru e Bolívia por igual sucumbiram aos golpes). A democracia foi soterrada por estados-fortes que, ao tratarem de cicatrizar os efeitos nocivos de Wall Street, terminaram por jogar os países numa nova guerra mundial. 

(*) Luis Carlos Prestes, asilado em Buenos Aires e convertido ao marxismo, famoso pela liderança da Coluna Prestes (1924-26), foi procurado pelos varguistas para comandar a marcha da revolução. Não aceitou, como lançou um manifesto, distinto do getulista, repudiado pelos tenentes, clamando por uma revolução comunista.  No final, a chefia recaiu para o tenente- coronel Góes Monteiro, oficial que dominaria o cenário político-militar nos decênios seguintes.
 

 

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Fonte: Especial para Terra
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