Fuvest: confira dicas e possíveis temas para a redação do vestibular da USP

Segunda fase do vestibular da USP será nos dias 21 e 22 de fevereiro; pandemia pode ser abordada na prova

20 fev 2021
10h10
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Neste domingo, 21, começa a segunda fase da Fuvest 2020, principal forma de ingresso na Universidade de São Paulo (USP), com cerca de 33 mil candidatos. Uma das provas mais temidas pelos candidatos é a Redação, que muitas vezes trata de temas abstratos e complexos no vestibular da instituição. Professores de cursinho ouvidos pelo Estadão avaliam que temas relacionados à pandemia podem aparecer, mas com recorte subjetivo, como a discussão de efeitos em comportamentos sociais causados pela crise sanitária.

A coordenadora de redação do Poliedro, Maria Catarina Bózio, diz que é importante tentar entender o estilo da prova. "Na Fuvest, nos deparamos com temas abstratos, que pedem abordagem crítica, e que têm expectativa de atuação bastante sociológica, com uma análise do comportamento social", diz. "Esse movimento de ir do abstrato para questões mais concretas é um movimento importante para argumentação na Fuvest."

Para Maria Catarina, questões relativas à pandemia podem aparecer, mas muito mais como disparadoras de análises sociais do que como tema em si. "É importante que esse candidato leia a frase temática e a coletânea com atenção e analise se é uma pergunta a ser respondida e se tem palavras-chave importantes. Além disso, fazer um esboço, planejar antes, para inserir questões autorais, e não ficar só reproduzindo senso comum é uma boa dica. O candidato deve tentar conseguir mostrar um repertório próprio de conhecimento de mundo, de referências de livros, filmes e músicas."

A professora de redação do Curso e Colégio Objetivo, Maria Aparecida Custodio, sugere que na véspera da prova, os candidatos descansem e busquem exemplos de redações com boas notas feitas em edições anteriores. "O candidato pode observar redações da Fuvest que estão disponibilizadas na internet até 2013, última edição que a instituição divulgou as que alcançaram nota oito ou superior. Isso pode dar um parâmetro do que a Fuvest avalia como adequado e textos tidos como exemplares. Os critérios e as expectativas são as mesmas de lá para cá."

Maria Aparecida alerta que o candidato não deve se confundir entre a redação da Fuvest e a do Enem. "O Enem exige que na conclusão do texto o participante contemple cinco aspectos relacionados à proposta de intervenção. Os estudantes ficam o ano todo treinando este tipo de conclusão para o Enem e, quando fazem outros vestibulares, há dificuldade na dissociação deste formato. É importante ressaltar que na Fuvest o candidato não é obrigado a propor solução para o problema. O que se espera é que o candidato conclua o texto com base no que desenvolveu, que pode ser uma conclusão com retomada da ideia inicial ou uma síntese da discussão", explica.

Coordenador de redação do Curso Etapa, Wellington Borges Costa lembra que o último vestibular da Fuvest já tratou de tema relacionado à ciência. "Sobre a pandemia, a Fuvest foi profética na última redação, pois indicou o tema do 'Papel da Ciência no Mundo Contemporâneo' e um dos textos-base tratava justamente de um paradoxo que a gente verifica hoje, de muita gente usar as mais avançadas tecnologias de informação e comunicação para propagar o negacionismo científico."

E analisa que não é o perfil da prova inserir temas atuais, mas que as últimas edições têm sido diferentes. "Não costuma ser característica da Fuvest cobrar debate público de temas contemporâneos explicitamente, embora tenha feito recentemente. O tema de 2018 foi sobre limites para arte, muito em função daquelas exposições Queer museum que estavam em alta, mas não é comum. O mais comum é a Fuvest investir em temas universais e atemporais, mas que permitam pontos de contato com a atualidade nacional."

Os professores listam possíveis temas para a redação:

1 - Arte como ferramenta de salvação da humanidade

"A arte que é transmitida de geração para geração serve como ponto de partida para a evolução das novas gerações. Dessa forma, carrega consigo conhecimentos que nos constituem enquanto sociedade civilizada e a negativa disso coloca em risco valores fundamentais da nossa civilização. Se pensarmos no momento da pandemia, a arte foi um fator fundamental para a manutenção da saúde mental nesse período, por exemplo", diz Andrea Godoy, professora de redação do Colégio Anglo.

2 - Fanatismo como ferramenta de retrocesso

"Ao discutir o fanatismo como ferramenta de retrocesso, o candidato pode ser convidado a discutir como que o fanatismo acaba servindo aos interesses de grupos de pessoas que buscam retrocesso em causas sociais já consolidadas. Isso porque o fanatico não contesta as informações apresentadas pelo seu líder, fazendo adesão cega. Mais que isso, o fanático trabalha aativamente na disseminação desses ideais e faz a defesas destes, inclusive com atos violentos como vimos no ano passado", explica diz Andrea, do Colégio Anglo.

3 - Importância das estruturas democráticas para a manutenção do estado democrático de direito

"As estruturas democráticas sólidas são o pilar para a manutenção do estado de Direito, mas, a partir do momento que vemos as grandes estruturas sendo atacadas e contestadas a todo momento, isso as enfraquece e, como consequência, pode pôr em risco a manutenção do Estado Democrático de Direito como um todo", diz Andrea Godoy, professora de redação do Colégio Anglo.

4 - Surtos e suas relações com o meio ambiente

"Há algum tempo cientistas alertam para a necessidade de revermos como cuidamos do meio ambiente. É preciso refletir como a desconsideração desses alertas pode explicar a situação que o mundo vive hoje", diz Andrea Godoy, professora de redação do Colégio Anglo.

5 - Papel das redes sociais no processo de polarização social

"O uso das redes sociais faz parte da rotina de grande parte da população brasileira. Isso se dá pela facilidade e agilidade no acesso à informação, contudo esses fatores são desastrosos quando pensamos em qualidade de informação e na formação de opinião aprofundada a respeito dos temas mais significativos. Sem dúvida, essa superficialidade, aliada ao sentimento de pertencimento a um grupo que as redes sociais causam em seus usuários, faz com que as pessoas defendam posicionamento muitas vezes de maneira irracional, diz Andrea Godoy, professora de redação do Colégio Anglo.

7 - Home office configura um avanço para as relações de trabalho?

"Com a pandemia, uma parcela significativa da população se viu obrigada a trabalhar em casa, mas será que essa 'facilidade' trouxe benefícios para o trabalhador? Ou essa nova forma de atuar profissionalmente trouxe mais perdas? Exemplifico: uma jornada de trabalho pouco delimitada, metas abusivas que interferem na quantidade e na qualidade de descanso necessário entre uma jornada e outra são aspectos que poderiam ser levantados e pensados pelo candidato", diz Andrea Godoy, professora de redação do Colégio Anglo.

8 - Individualismo e falta de senso coletivo na pandemia

"É possível aparecer um recorte temático relacionado ao senso de coletividade. E poderia discutir além da individualidade, aumento da desigualdade, o embate entre economia e saúde, isso tudo tem a ver com individualismo", diz Maria Catarina Bózio, coordenadora de redação do Poliedro.

9 - Cultura do cancelamento

O coordenador de Redação do Curso Etapa, Wellington Borges Costa, avalia que com as novas tecnologias, há o surgimento da "cultura do cancelamento", que poderia ser um tema mais atual. "De que maneira essas culturas contemporâneas, de certa forma, interditam o debate. Ou então: em vez de discutir e dialogar, cancelar e julgar alguém."

10 - Mistura de política e religião

"Um tema que é a cara da Fuvest, acompanha a história da humanidade desde o Império Romano. Isso esteve durante todo o processo de colonização das Américas. No Brasil, com os Jesuítas, e os estados confessionais como o Irã, por exemplo, em que a autoridade política é a autoridade religiosa. E tivemos nos Estados Unidos recentemente com o governo Trump. No Brasil, com o governo atual, há muita ligação com um certo fundamentalismo religioso", diz o coordenador de Redação do Curso Etapa, Wellington Borges Costa.

12 - O exercício do poder no mundo contemporâneo

"As formas de poder, autoritarismo, ditadura, fascismo, mostrando como se atua no poder exercendo uma ou outra postura, mais ou menos democrática, acho um tema interessante pois se vem falando muito sobre essa questão recentemente", diz Maria Aparecida Custodio, professora de redação do Curso e Colégio Objetivo.

13 - Efeitos do negacionismo

"Como as teorias difundidas afetam a sociedade contemporânea e acabam parecendo verdades. E os riscos dessas teorias se expandirem cada vez mais", afirma Maria Aparecida Custodio, professora de redação do Curso e Colégio Objetivo.

14 - A tributação do livro no Brasil

"Declarações de que apenas a elite que lê no Brasil. E de que pode tributar o livro, porque o pobre não tem o costume de ler. Essa questão de deixar o livro mais acessível ou a ideia de que apenas os mais ricos têm o hábito de leitura tem bastante fôlego para ser uma proposta de redação. Também pode ser tratado do ponto de vista da importância da leitura como agente de formação e transformação", diz Maria Aparecida Custodio, do Objetivo.

Exame vai manter medidas sanitárias

Neste ano o vestibular da Fuvest oferece 8.242 vagas de ingresso em cursos de graduação na USP, de um total de 11.147. As demais 2.905 vagas serão preenchidas por candidatos que realizaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e que se inscreveram para uma vaga na universidade através do SISU, entre os dias 8 e 12 de fevereiro.

Para a segunda fase, a Fuvest mantém as exigências sanitárias para os candidatos em virtude da pandemia de covid-19. A instituição exige que os participantes usem máscara e que mantenham distância mínima de 1,5 metro dos demais nos locais de aplicação.

Além disso, será oferecido álcool em gel em todas as salas e banheiros dos locais de prova e distribuído sachês com lenço umedecido de álcool em cada carteira para desinfecção adicional por parte do candidato.

A Fuvest também recomenda que os participantes não compareçam ao exame se estiverem com suspeita ou tenham testado positivo para a covid-19. Os portões serão abertos com antecedência de uma hora em relação ao início da prova, às 12h.

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Estadão
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