Em alojamentos, vestibulandos têm até 14 horas diárias de estudo
O sinal toca às 7h, anunciando que o café da manhã está na mesa. Quarenta e quatro estudantes passam pelo refeitório do Centro de Desenvolvimento de Alunos de Alta Performance (CDAAP) para a primeira refeição do dia. É o combustível inicial para a maratona de estudos, que pode chegar a 14 horas diárias. Isolados em um ambiente onde companheirismo e competição coexistem, eles passam o ano se preparando para ingressar em instituições como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o Instituto Militar de Engenharia (IME).
O CDAAP foi criado há cerca de um ano pelo Sistema Elite de Ensino e está localizado no bairro Madureira, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma ampliação da iniciativa que já existia desde 2006: um apartamento para oito alunos destaques do curso, mas que, mesmo com o bom desempenho, não tinham sido aprovados nas instituições desejadas. Os primeiros estudantes começaram a chegar no mês de fevereiro. Gestor do CDAAP, Rodrigo Barcellos explica que as vagas são distribuídas por um processo seletivo que envolve prova, entrevista e análise curricular. "A gente procura aluno com foco, que queira muito passar no concurso. Alguém muito bom mas que não tem comportamento adequado poderia ser um líder negativo", observa.
Na quarta tentativa para ser aprovado no IME ou no ITA, Gustavo de Oliveira Menezes, 20 anos, foi um dos primeiros alunos do centro. Desde o início de março, quando colocou os pés no CDAAP pela primeira vez, ele criou uma rotina de estudos independentes pela manhã, entre 8h e 12h, quando parava para almoçar. O intervalo durava até 13h30, horário em que a aula começava - uma jornada até as 21h, com intervalos de 30 e 20 minutos, às 16h e às 19h. Ao chegar no alojamento, ele aproveitava para revisar os estudos e tirar alguma dúvida eventual. Segundo Barcellos, essa dinâmica é seguida por praticamente todos os alunos, que ainda contam com a ajuda de alguns professores durante plantões pela manhã. Depois das 23h, as luzes se apagam - um sinal do fim de um dia de estudos.
Nos finais de semana, os estudantes costumam revisar as matérias pela manhã, preparando-se para o simulado à tarde, que busca reproduzir as questões aplicadas no IME e no ITA. O resultado vai para o mural do Centro em forma de ranking semanal. No início das aulas, Gustavo conta que aparecia entre os 15 primeiros, chegando ao top 10 no fim do ano letivo. Além do desempenho semanal, o número de tentativas já feitas para os concursos também era um fator de pressão. "O ano é muito puxado, em vários momentos você pensa em desistir", desabafa. Desta vez, a rotina árdua foi recompensada com uma vaga no IME. Mas, ao longo de 2012, o CDAAP registrou pelo menos quatro desistências - entre elas, alunos do Espírito Santo que abandonaram o centro pela saudade da família. As vagas abertas foram preenchidas com a entrada de novos alunos. Apesar das dificuldades, Gustavo considera que estudar no alojamento foi uma grande oportunidade para interagir com colegas, tirar dúvidas e compartilhar o conhecimento, ainda que haja certo nível de competição.
Para a professora de Psicologia da Educação da Universidade de São Paulo (USP) Silvia Gasparian Colello, a formulação de rankings não é a maneira mais adequada de demonstrar como o aluno foi na prova. "Isso acirra um espírito de competitividade, corre o risco de ser exagerado. Pode gerar mais estresse e tensão", analisa. O ideal, segundo ela, é que o feedback expresse os pontos fortes e fracos do aluno, para que o estudo possa ser mais direcionado a cobrir essas falhas. Silvia pondera que a situação é complicada tanto para quem figura em primeiro ou último lugar. "O primeiro tende a se achar superior, enquanto o último fica com uma autoestima prejudicada", opina.
Por contrato, aluno se compromete a prestar vestibular
Para receber os alunos, o Centro conta com quatro quartos (três masculinos e um feminino) e oferece estrutura com sala de estudos, internet, serviço de lavanderia e ambientes climatizados. A estadia também dá direito a café da manhã, almoço e jantar. Barcellos aponta as vantagens desse modelo: a economia de tempo (o cursinho fica a 100 metros do CDAAP), tranquilidade para estudar e rotina mais regrada. "Os próprios alunos diziam que não tinham horário para acordar. Aqui, eles têm a motivação de um grupo de alunos", diz o gestor.
O investimento mensal de cada estudante é de R$ 450 - cerca de um terço do custo real das dependências, estima Barcellos. O valor restante é coberto pela própria instituição. O aluno, por sua vez, se compromete a assistir a todas as aulas, fazer os simulados e prestar concurso em todas as instituições previstas em contrato: além de IME e ITA, o acordo prevê que o aluno se prepare para a Escola Naval, Academia da Força Aérea (AFA) e Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFOMM).
A volta para casa só é permitida nos finais de semana, após o simulado (à exceção de situações emergenciais, com a devida autorização dos responsáveis). A maioria dos alunos reside no Rio de Janeiro, como Gustavo. Do quadro de 2012, apenas 10 eram de outras cidades. Mesmo assim, o estudante revela que, apesar da saudade, a decisão de visitar ou não a família era sempre repensada em função da competição. "Perde-se um dia de estudo, enquanto pode ter outras pessoas que não estão paradas, que podem te passar a qualquer momento", reflete.
O modelo não é o único no País. Em São José dos Campos, o Sistema Poliedro oferece desde 1993 um alojamento para meninos que saem de outros estados ou cidades para se preparar para concursos militares. Distante da cidade, a chácara fica no bairro São Judas Tadeu, a pelo menos 20 quilômetros do curso, e segue os moldes das dependências do ITA. Em torno de 170 alunos vivem no local, que conta com quartos para quatro ou seis pessoas, sala de estudos, academia e quadra esportiva, além de oferecer três refeições diárias e plantão com professores para tirar dúvidas.
Os primeiros alunos chegam logo no fim de janeiro. Durante o ano todo, a rotina dos estudantes é quase militar: o café é servido a partir das 6h, para que os que têm aula pela manhã possam estar na sala às 7h (o alojamento oferece condução até o curso). O período termina 12h40. Quando não há provas ou aulas de extensão à tarde, o grupo retorna à chácara, almoça e segue os estudos de lá. A programação é inversa para o grupo da tarde, que frequenta o cursinho das 13h30 às 21h, com dois intervalos de 20 minutos cada. O valor investido pelos alunos não foi divulgado.
Diretora do colégio Poliedro, a professora Maria do Carmo Camargo destaca que a iniciativa procura servir justamente àqueles que vêm de longe. "O objetivo maior é que eles possam se focar em estudar para serem aprovados. Então, eles se dedicam, trocam ideias com os próprios colegas, tiram dúvidas com professores se algum conteúdo não ficou muito claro", detalha Maria do Carmo. As vagas são distribuídas conforme a disponibilidade, sem a necessidade de um processo seletivo. Hoje, o local recebe não só alunos interessados nas vagas de instituições militares. Estudantes que buscam aprovações no vestibular de Medicina da Fuvest (que dá acesso à USP), por exemplo, também costumam pleitear um lugar no alojamento.
Rotina intensa levou a vício ao cigarro e gastrite
Aos 18 anos, Matheus Oliveira Balhestero, natural de Dourados (MS) chegou ao alojamento do Poliedro em 27 de fevereiro de 2012, com o objetivo de ser aprovado para Medicina em pelo menos uma das cinco instituições para as quais se inscreveu - entre elas, Fuvest, Faculdade de Medicina de Marília (Famema) e as federais de Santa Catarina (UFSC) e de Grande Dourados (UFGD). Em seu primeiro ano de cursinho, ele adotou um esquema de horários bastante radical: após frequentar as aulas, das 13h30 às 21h, ele chegava ao alojamento, descansava e se debruçava sobre os livros novamente a partir das 23h30. A jornada seguia até umas 6h, quando ele tomava café da manhã e finalmente teria sua "noite de sono" - menos de seis horas até acordar e começar tudo de novo, inclusive nos finais de semana.
Eram quase 13 horas de estudo. "Estava excedento o quanto eu deveria e poderia estudar. Precisava tomar muita cafeína, comecei a fumar. Pesou tanto fisicamente quanto psicologicamente", relembra Matheus. Com a saúde mais frágil, seus pais intervieram e o levaram a um psicólogo, que o aconselhou a seguir o horário fisiológico natural - estudar de dia, dormir à noite. Com essa ajuda, ele parou de ingerir cafeína (a essa altura, já estava com gastrite) e acostumou-se acordar cedo. O aluno conta que, no meio dessa crise, teve carta branca dos pais para voltar a Dourados ou seguir no alojamento. Decidiu ficar, a partir daquele momento com o horário mais regrado. Outros colegas, no entanto, seguiram com a rotina noturna.
Mesmo com essa adaptação na metade do ano, os dedos de uma mão são suficientes para enumerar as vezes que Matheus deixou o alojamento. Foram quatro sessões de cinema e uma visita a um amigo. De resto, as poucas horas de lazer eram reservadas para uma breve caminhada na chácara ou no bairro, ler um livro ou conversar com os outros meninos do alojamento. Para Silvia, professora de Psicologia da Educação, as iniciativas que viabilizem o estudo e o acesso à universidade são bem-vindas, desde que priorizem uma rotina saudável e equilibrada. "Viver um ano só em função de vestibular não pode ser bom", enfatiza.
A professora observa que o problema está no exagero. O foco único no concurso acaba criando uma tensão ainda maior. Essa pressão faz com que o vestibular pareça um tudo ou nada, elevando o nervosismo - e, consequentemente, as chances de decepção. Silvia explica que mesmo o estudante que obtém a aprovação pode ter a saúde e o equilíbrio emocional prejudicados posteriormente. "O ideal seriam seis, no máximo oito horas por dia", orienta a professora. Além disso, ela ressalta que cada um tem seu próprio ritmo e, com base nisso, deve ter independência para estabelecer horários e meios de estudo segundo os quais seu rendimento é maior. "Nada justifica você parar de viver uma vida saudável e equilibrada. Essa maratona pode não ter sucesso não só na hora da prova, mas pode não ser produtiva na vida universitária", avalia Silvia.
Ainda sem nenhum resultado em mãos, Matheus, que voltou para casa em 20 de dezembro, diz que o alojamento é um lugar muito bom para estudar, mas admite que não ficaria lá por mais um ano. Caso não seja aprovado em nenhum dos vestibulares, ele pretende investir nos estudos novamente, mas longe de lá. Para ele, as acomodações são boas, mas a gestão do lugar peca em alguns pontos. "Tem dias que a comida é muito ruim", reclama. Outro problema, diz Matheus, são as proibições ao uso de notebook e tablets - smartphones, por sua vez, são permitidos. O aluno aponta que os computadores disponíveis não são suficientes para atender a todos os residentes. Alguns professores oferecem listas de exercícios em sites ou por e-mail, mas a limitação inviabiliza o uso do material. "Querem interferir na vida pessoal. Dizem que o aluno vai se distrair, entrar no Facebook. Mas quem está lá é porque quer estudar. Da vida pessoal é você quem cuida", protesta.
Número de aprovações é elevado
Os gestores dos alojamentos, tanto do Poliedro quanto do Elite, avaliam positivamente o sistema. Segundo Maria do Carmo, o índice de aprovação é muito alto. Entre os estudantes do CDAAP, dos 43 que fizeram a prova do EFOMM, 41 viram seu nome no listão. Eles apostam tanto na iniciativa que, para 2013, deve ser inaugurada uma sede na Barra da Tijuca, adianta Barcellos.