'Educação não muda com esforço heroico de um único professor', diz ganhador do 'nobel da educação'

Vencerdor do prêmio de 'Melhor professor do mundo, o queniano Peter Tabichi destaca a importância de investimentos, políticas públicas e incentivos à carreira docente

9 jul 2019
07h11
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Professor de ciências em uma escola na zona rural do Quênia, Peter Tabichi, de 3 anos, dava aula em salas com o dobro da capacidade de alunos e doava a maior parte do seu salário às famílias que não tinham condições nem mesmo de comprar comida para as crianças. O trabalho que desenvolveu com os alunos nos últimos anos fez com que Tabichi fosse eleito o melhor professor do mundo. Ele foi vencedor do Global Teacher Prize, prêmio que é considerado o 'Nobel da Educação'.

Peterb Tabichi foi eleito o melhor professor do mundo
Peterb Tabichi foi eleito o melhor professor do mundo
Foto: DIVULGAÇÃO/GLOBAL TEACHER PRIZE / Estadão

Para ele, a premiação mostra que o bom professor não é aquele que consegue o melhor resultado com os melhores alunos e dentro das melhores condições, mas quem consegue fazer seus estudantes se interessarem pelo conhecimento mesmo em situações precárias. "Para mim, o bom professor é aquele que encontra o potencial de cada estudante e o faz acreditar que a vida dele pode ser melhor", diz.

Mesmo com tantos fatores adversos, Tabichi, que é professor de ciências e matemática, diz que sua maior realização não é ensinar o conteúdo formal escolar, mas entenderem a importância da escola e valorizar o aprender.

Desde a premiação, em março, Tabichi está viajando com a fundação para diversos países para dar palestras e ajudar na formulação de um programa de formação de professores. Ele conversou com o Estado na quinta-feira, 4, quando chegou ao Brasil (o País teve uma brasileira entre os dez finalistas) para uma série de compromissos. "A experiência tem sido incrível, mas sinto falta da minha escola, dos meus alunos. Estar com eles é o que me dá sentido", conta. Leia:

O que faz alguém ser um bom professor?

Para ser um bom professor, você tem que ir além de só ensinar. Não é apenas dar a aula e seguir para casa depois achando que seu dever está feito. O bom professor é quem entende que os alunos precisam de ajuda em vários aspectos, não só o intelectual, mas o espiritual, o social, o físico. É preciso encontrar um jeito de dar uma formação completa para os alunos, antes da preocupação acadêmica, o foco deve ser o desenvolvimento do caráter.

Ser professor sempre foi o seu sonho?

Sim, desde pequeno. O que mais me influenciou a ter esse sonho foi o fato de meu pai ser professor, assim como grande parte dos homens da minha família. Desde criança, eu admirava o que eles faziam. Sempre que encontrava alguém da minha cidade que havia sido aluno do meu pai, a pessoa me dizia que o meu pai era responsável por ela ter virado médica, engenheira, filosofa, professora. Então, eu sempre tive uma referência positiva sobre a profissão. Sempre admirei meu pai, porque via que ele transformava a vida das pessoas.

Como é vista a carreira docente no Quênia? Acredita que a profissão é valorizada como merece?

No meu país, as pessoas entendem que os professores têm um papel muito importante para o desenvolvimento da sociedade, por isso, eles são muito respeitados. Todo mundo aprecia o trabalho que os médicos ou engenheiros fazem e enxergam os benefícios que trazem para o país. E eles entendem que esses profissionais só estão trabalhando por causa dos professores.

No Brasil, a profissão é uma das mais desvalorizadas. O que pode ser feito para melhorar essa condição?

Eu acho que o principal é mudar a percepção, é mostrar à comunidade a importância do trabalho do professor. Aqui no Brasil vocês têm professores incríveis, em todas as edições do prêmio, vocês tiveram professores no top 10. É importante que o trabalho dessas pessoas seja divulgado, valorizado. É preciso mostrar o que esses, e muitos outros professores, estão fazendo e como estão mudando a vida dos jovens.

Você deu aula para crianças que vivem em grave situação de pobreza. Como isso influenciava no seu trabalho e como fez para conseguir bons resultados educacionais mesmo nessas condições?

Para conseguir ser um bom professor, qualquer pessoa precisa de suporte e não apenas dos diretores escolares e outros professores que vão educar uma criança. É preciso boas políticas públicas, formação, treinamento, recursos materiais. Só vamos conseguir ter uma boa educação, e isso vale para qualquer lugar do mundo, quando houver um esforço coletivo. Uma única pessoa não vai conseguir mudar isso. Acredito que ajudei a mudar a realidade dos meus estudantes, mas isso só foi possível porque tinha o apoio da comunidade, dos pais.

Precisamos lembrar que os pais também tem um papel importante na educação formal dos filhos. Não adianta apenas mandá-los para a escola e esperar que saiam de lá sabendo todo o conteúdo. Os pais precisam entrar na escola, saber o que se passa por lá, saber se falta algum material ou professor. Eles precisam se interessar pelo que acontece nos colégios, assim como devem os governantes. Só um esforço coletivo vai mudar o quadro educacional. Não apenas um professor fazendo esforço heroico.

Você trabalha como professor há 12 anos, o que mudou na sua forma de dar aula e enxergar a profissão ao longo dos anos?

Muito mudou nesses anos. Quando eu iniciei a dar aula, só usava os métodos que havia aprendido na faculdade ainda que percebesse que alguns deles não funcionavam muito bem em sala. Com a experiência, o professor fica mais criativo e desenvolve métodos de se aproximar dos alunos, aprende que são várias formas de se estreitar os laços e que cada uma delas depende do contexto daqueles estudantes. Não dá para usar o mesmo método de ensino com todas as crianças e adolescentes. Para descobrir todas essas formas de ensinar é preciso observar e conversar com outros professores, estudar, observar os alunos. Mas o mais importante é aprender com os alunos. Todo dia eu aprendo algo novo com os meus alunos.

O que você destacaria do que aprendeu com seus alunos?

Que cada um tem um talento, uma habilidade, e o meu papel é fazer com que enxerguem esse potencial e se sintam encorajados a trabalhar para desenvolver ainda mais essa aptidão. Para isso, é preciso um olhar apurado para enxergar o melhor de cada um, mesmo quando eles mesmos não enxergam.

Qual é a parte mais gratificante da profissão?

Fazer amigos. Descobri que sendo professor a cada ano eu ganho novos amigos e eles nunca vão embora. Meu alunos são como filhos para mim. Você os vê crescendo, ganhando potencial, adquirindo conhecimento, amadurecendo e depois de um tempo eles deixam a escola e vão para a universidade ou trabalhar. Sinto um orgulho enorme deles. Isso me dá felicidade: ver que um aluno encontro seu talento e está feliz.

Desde que foi indicado ao prêmio, você tem ficado longos períodos longe da escola. Sente falta dos alunos?

Muita, mas, mesmo sem estar trabalhando, não consigo ficar muito tempo longe. Na semana passada, estive lá. Conversei muito com os alunos e dei muitas tarefas para que fizessem até eu voltar.

Os alunos estão orgulhosos de você? Sente que pode ser uma inspiração para eles?

Sim, eles estão muito orgulhosos e empolgados pelo prêmio, que mostrou nossa escola ao mundo todo. Eles se sentem parte e, na verdade, são. Alguns me procuram e dizem que eu os inspirei e que querem ser professores. Isso me deixa muito feliz.

Estadão
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