Duas visões sobre o bloqueio de bolsas de pesquisa

O Estado convidou dois especialistas, com visões diferentes sobre o tema, para comentar o bloqueio de verbas

3 set 2019
07h11
atualizado às 08h13
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O governo Jair Bolsonaro anunciou o corte de mais 5.613 bolsas de pós-graduação que seriam ofertadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência federal de fomento à pesquisa, a partir de setembro. O congelamento, que passa a vigorar neste mês, soma-se a outras 6.198 bolsas que haviam sido bloqueadas no 1º semestre. Se não houver desbloqueio de recursos, nenhum novo auxílio será concedido neste ano.  

Estado convidou dois especialistas, com visões diferentes sobre o tema, para comentar o bloqueio de verbas:

'Em 2020, a situação será dramática. Cursos vão ficar ameaçados', diz presidente da SBPC

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ildeu de Castro Moreira observa que os bloqueios sucessivos de recursos já ameaçam a imagem da ciência brasileira no exterior e teme a saída mais rápida de pesquisadores.

Qual é o impacto desse corte?

É muito negativo, porque a Capes é agência fundamental para a pesquisa, que grande parte é pela pós-graduação. Ano que vem a situação vai ser dramática. Os cursos que já existem vão ficar ameaçados e os novos, reduzidos. Estão tirando um grande número de bolsas que contribuem muito para a melhoria da ciência brasileira. E ainda se reduziu drasticamente o fomento do CNPq (órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia), que é fundamental. Não adianta ter pesquisador se não tem material, se não se pode viajar para congresso…

O corte também afeta a graduação e a educação básica?

A Capes tem uma importância para a educação básica, com a melhoria das licenciaturas. E tem programa de qualificação para melhorar a formação de professores.

Isso afeta a imagem da pesquisa brasileira no exterior?

Já está afetando desde 2014, 2015 (com cortes)... Uma dezena de matérias em revistas internacionais já abordava isso. 

Pode aumentar a saída de pesquisadores para o exterior?

Isso já está acontecendo. Vamos perder, estamos perdendo e vamos perder mais. Pode criar um processo mais rápido do que imaginamos, conforme outros países perceberem que temos jovens brilhantes. E não se perde só jovens formados, outros deixam de ir para essas áreas, pois desanimam.

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'Se governo quebra, precisa cortar custo de alguma lugar', diz ex-secretário do MEC

Já o presidente do Instituto Alfa e Beto e ex-secretário executivo do Ministério da Educação, João Batista Araújo e Oliveira, destaca que o cenário fiscal deteriorado do País exige sacrifícios e defende a realização de reformas profundas para evitar o agravamento da crise. Segundo ele, é preciso dar "mais flexibilidade" para que universidades, municípios e escolas usem os recursos de modo mais eficiente. 

O corte das bolsas é necessário?

O País vive crise extremamente grande. O governo federal quebrou, quase todos os governos estaduais quebraram. Não há consciência clara da sociedade sobre isso. Se o governo quebra, precisa cortar o custo de algum lugar. Como o governo tem amarras, não pode demitir, aí tem de cortar. Não tem a maldade dita pelas pessoas. Para dar para a Capes, precisa tirar de alguém, do ensino médio, da Saúde... É cruel, mas é a realidade.  Essas coisas são previsíveis. E podem piorar.

O que poderia mudar esse cenário na educação?

Flexibilizar as condições para que sejam eficientes. Tem muita ineficiência, e, não porque os gestões são incompetentes, mas porque não podem tomar decisões objetivas, não podem mandar uma pessoa incompetente embora, nem fechar uma turma que tem só duas pessoas. Não se trata de culpar pessoas ou vitimizar instituições. A não ser que sejam feitas reformas profundas, a situação só vai piorar. Precisa de mais flexibilidade para que as universidades, as escolas, os municípios, possam usar recursos de maneira mais eficiente.

Mas por que cortar na educação?

A Educação é um dos ministérios mais volumosos, 1% da Educação doí menos do que 100% da Cultura. Tem de cortar de algum lugar. Cada vez nascem menos pessoas e a expectativa de vida é maior. Daqui a 20 anos, será impensável gastar o que se gasta hoje em educação básica. Tem é de dar condições para o setor público ser mais eficiente. 

Cortar recurso de pesquisa não tem impacto?

Nem toda universidade precisa fazer pesquisa. Primeiro porque não precisa e segundo porque não tem dinheiro. No mundo é assim. A pesquisa é uma atividade extremamente especializada, cara e que precisa de massa crítica. O ensino superior não precisa que todo professor seja pesquisador. O Brasil põe na Constituição que a universidade é ensino, pesquisa e extensão. Se criam essas leis utópicas e, depois, não tem dinheiro para pagar. Na prática: quais produzem pesquisa de verdade?

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Estadão
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