PUBLICIDADE

Celular apreendido em presídio é doado a estudantes

Projeto do MP/RS com apoio de universidades reutiliza aparelhos e ajuda alunos de baixa renda durante as aulas online

30 set 2021 05h11
| atualizado às 07h21
ver comentários
Publicidade
Usuário manipula telefeone celular. 28/9/2018. REUTERS/Tatyana Makeyeva
Usuário manipula telefeone celular. 28/9/2018. REUTERS/Tatyana Makeyeva
Foto: Reuters

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS) está coordenando um projeto que reutiliza aparelhos celulares apreendidos em presídios do Estado e os destina a estudantes de baixa renda. A iniciativa, que teve pontapé em uma comarca, já chegou a 17 regiões gaúchas e está perto de entregar o milésimo celular a alunos, que viram a necessidade aumentar em tempos de aulas online em razão da pandemia.

O chamado projeto 'Alquimia II' começou pelas mãos do promotor Fernando Andrade Alves, de Osório, cidade no litoral norte do Rio Grande do Sul. No começo, a iniciativa contava com a parceria de uma loja de consertos em uma cidade vizinha. "Havia algumas campanhas em escolas, pedindo aparelhos porque as crianças não tinham acesso. É um bem que eles estão recebendo, e nós estamos tirando os aparelhos do crime e entregando para a educação", disse Alves.

Não demorou para a ideia ganhar repercussão no Estado e passar a contar com outras parcerias. Para dar conta do aumento de demanda, o MP/RS ampliou diversas áreas da proposta inicial. Para começar, foi necessário aumentar o número de celulares destinados ao conserto, já que boa parte dos aparelhos recolhidos nos presídios apresentava problemas ou limitações que impossibilitam o uso por estudantes.

Dessa forma, aparelhos apreendidos em prisões e operações da polícia que não estão sendo utilizados nos inquéritos também começaram a fazer parte do escopo destinado ao projeto. A parceria com universidades também foi fundamental para que a triagem e o conserto dos smartphones pudessem acontecer de forma mais ágil.

A primeira a entrar no projeto foi a PUC/RS, localizada em Porto Alegre. Coordenados pelo professor de engenharia elétrica e eletrônica Anderson Royes Terroso, quatro técnicos recebem os aparelhos, fazem a triagem, higienizam e consertam os que ainda têm chance de ser ser utilizados.

O processo inclui uma avaliação de cada um dos smartphones recebidos, já que chegam aos técnicos os mais diferentes tipos e de diferentes épocas. Celulares com até dez anos chegam a ser enviados para a PUC, e muitas vezes eles precisam ser descartados, já que não se adaptam às necessidades dos estudantes.

"Os celulares chegam de todas as maneiras, tamanhos e marcas. Então, primeiramente é feita uma higienização completa, depois é realizada uma triagem nos celulares que poderão ser restaurados. Aí são colocados em carga, fazemos uma formatação total e verificamos se não ficou resíduo de foto, vídeo ou áudio, e o próximo passo é instalar os aplicativos de estudo", explica Terroso.

Em 2019, a estudante Gabriela da Rosa Nury, hoje com 15 anos, moradora de Osório, no litoral norte do Rio Grande do Sul, viveu um momento de recuperação na vida escolar. Essa evolução foi resultado de um trabalho de acolhimento e de aceleração para uma estudante que, naquele momento, estava em um quadro de distorção idade-ano escolar. Porém, todo o trabalho desenvolvido na Escola Estadual Albatroz, onde Gabriela estuda, ficou sob risco em 2020.

Pandemia

Com a chegada da pandemia as atividades presenciais foram escasseando, ficando limitadas à entrega de algumas atividades na escola. Muitas dessas atividades eram discutidas em grupos de WhatsApp, e foi então que Gabriela ficou sem celular. "Não tinha como eu fazer (as atividades), tentei pelo celular da minha mãe, mas não dava", conta. A evolução da adolescente como estudante era algo já percebido pelas professoras, como relata a diretora da Escola Albatroz, Aline de Oliveira da Conceição Cardos. "Antes da suspensão das aulas presenciais ela já era uma aluna muito melhor."

Gabriela foi uma das estudantes escolhidas para, ainda no início do projeto, em julho do ano passado, receber um dos aparelhos. "Eu não tinha como comprar outro (telefone) naquele momento. Então, graças a Deus, veio essa oportunidade de receber o celular", conta a estudante.

O índice de aproveitamento dos celulares no projeto é de pouco mais de 29%. Desde 2020 o 'Alquimia II' recebeu 3.094 aparelhos e conseguiu entregar aos estudantes 994. O professor diz que pretende ampliar a participação nos próximos meses, abrindo a possibilidade de que estudantes voluntários possam trabalhar na recuperação dos aparelhos. "Nada mais do que justo dar um fim mais nobre a esse equipamento", afirma Terroso, que diz sempre ter buscado fazer da engenharia uma forma de "ajudar o próximo".

Além da PUC, outras três universidades atuaram no projeto: Universidade Regional do Noroeste do Estado (Unijuí), a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a URI.

MP já usou caça-níquel

O precedente do projeto dos celulares já existia. Em 2010, o MP/RS, também em Osório, desenvolveu o projeto Alquimia, que nesta primeira edição utilizou máquinas caça-níqueis apreendidas no litoral norte do Estado para montagem de computadores.

Estes novos equipamentos, eram enviados para a Escola Albatroz e para o presídio de Osório, e em ambos os casos foram utilizados em cursos de informática. Na época, tanto o promotor Fernando Alves quanto o professor Anderson Terroso participaram de todo processo que desencadeou a Alquimia.

A segunda versão da operação vem sendo muito bem avaliada pelo MP/RS servindo como base para que outros Estados adotassem medidas parecidas. No início de maio, o Ministério Público do Mato Grosso do Sul entregou mais 1,4 mil aparelhos para estudantes de escolas públicas, em um projeto batizado como Transforme. A ação foi diretamente influenciada pela atitude do promotor de Osório.

Graças a medidas como estas, alunas como Gabriela conseguiram ao longo de 2020 manter o bom desempenho escolar. "Sempre tento dar meu melhor, tem algumas coisas que não entendo aí, peço ajuda,tem algumas coisas que faço errado, mas sempre atenta em tudo para nunca desistir, sei que depois vai ser ótimo pra mim."

Estadão
Publicidade
Publicidade