Carreira em W ou Y: entenda a diferença e saiba por que esses modelos têm crescido nas empresas
Corporações começam a enxergar a importância do perfil técnico dentro da organização e oferecem planos de carreira mais horizontais, em que os cargos de senioridade são tão valorizados quanto os de alta gestão
ESPECIAL PARA O ESTADÃO - Para muitos, o caminho natural na carreira é começar em cargos mais operacionais ou básicos e, com o tempo e a experiência, ir subindo na hierarquia da empresa: de analista a coordenador, depois gerente, quiçá um dia diretor, vice-presidente ou até o cobiçado cargo de CEO. Há outro perfil, no entanto, que não quer saber de cargos de chefia. São pessoas que, em vez de gerenciar times, crises e estratégias, preferem se mover de forma horizontalizada na estrutura organizacional, especializando-se tecnicamente ou até passeando entre diferentes áreas, com uma pegada mais multidisciplinar.
Desde que começaram a olhar para as competências e habilidades técnicas e também socioemocionais dos colaboradores, algumas empresas passaram a reestruturar seus planos de carreira para incluir modelos em Y ou em W, que oferecem possibilidades de crescimento profissional em diferentes direções.
O especialista em carreiras e negócios Uranio Bonoldi, autor do livro Decisões de Alto Impacto (Alta Books Editora), explica que a carreira em Y é um modelo em que a empresa permite que o colaborador possa crescer em duas direções: liderança ou funções técnicas. No caso da W, ainda mais flexível, o crescimento vai de acordo com o propósito estabelecido pelo profissional. "É uma visão mais holística para se desenvolver em todas as áreas da companhia", afirma.
Bonoldi fala que essas nomenclaturas surgiram quando as companhias perceberam a importância de reconhecer o técnico com o mesmo valor que a liderança. "Os líderes que não olharem para isso estão fadados ao insucesso, porque são esses profissionais que trazem inovação para a empresa, proporcionando soluções, produtos e serviços que conversam com as necessidades dos clientes", alerta.
Sem escopo engessado
A diretora de RH da empresa, Fernanda Vassoller, explica que a área de pessoas passou por grandes transformações nos últimos três anos e agora tem uma cultura mais voltada às competências e entregas dos funcionários, favorecendo o desenvolvimento de carreiras em Y e em W.
"A gente não pode inflar a empresa com muita liderança. Queremos valorizar também profissionais com o perfil da Flavia, que ocupam posições de senioridade e extremamente técnicas. Está tudo bem se a pessoa não quer uma cadeira de gestão. Quero que ela esteja 100% no que quer entregar", defende.
Na prática, a diretora conta que a estrutura de cargos e salários da Vertem é baseada na construção de carreiras focadas nas competências que eles destacam como diferenciais, entre habilidades socioemocionais e técnicas. O quesito salarial é classificado em três pilares: banda padrão, para cargos administrativos ou operacionais; banda técnica, para cargos técnicos; e banda técnica especializada, para cargos com alta senioridade técnica e nível de gestão multidisciplinar.
"Ninguém tem escopo engessado aqui. Promovemos o plano de carreira em Y, priorizando o caminho da gestão ou do foco técnico, e já vivemos também a carreira em W, que projeta a capacidade do profissional de liderar projetos multidisciplinares ou ocupar cargos de maior complexidade", ela exemplifica.
Mesmos salários e benefícios
O engenheiro Israel Mor fez curso técnico em telecomunicações e começou a estagiar na área ainda no segundo colegial. Foi efetivado pela empresa quando estava na faculdade, no início dos anos 2000, e trabalhou em diversas frentes de telecom, especializando-se na parte de softwares e sistemas de cobrança e controle dos usuários das operadoras.
De lá para cá, passou por todas as inovações do mercado, da telefonia fixa ao celular e depois à implementação do 2G, 3G, 4G e agora 5G. "Todos esses sistemas, que são complexos e dependem de muita integração entre diversas áreas da operadora, são parte dos produtos que eu trabalho para que os usuários tenham uma experiência boa", destaca.
Ele define o tipo de cargo que ocupa como "fluido": ao invés de seguir o rumo da gestão, optou por desenvolver o lado técnico e navegar no mercado de outra forma. "Para assumir um cargo de liderança eu teria de deixar muitos dos desafios de que gosto nessa evolução tecnológica. E o que me levou a seguir nessa carreira mais técnica é também a autonomia que eu tenho", afirma.
O engenheiro conta que sempre recebeu muito incentivo dos gestores porque ele resolvia os problemas em um setor de alta complexidade e padrões internacionais rígidos. "Não é fácil você adquirir esse conhecimento, não tem uma formação específica. Eu usei a experiência a meu favor para cada vez me desenvolver mais e sou reconhecido por isso, sem precisar estar em cargo de gestão."
Israel menciona que, por estar constantemente na vanguarda tecnológica, tornar-se referência como especialista no assunto, tanto para a empresa quanto para o mercado, e ter autonomia para definir como trabalhar, entregar e cobrar as pessoas da equipe são alguns atrativos que vê nesse tipo de trajetória. Na empresa onde atua hoje, há também a preocupação de dar oportunidades iguais, em termos de salários e benefícios, a gestores e técnicos.
Ele, por exemplo, pelo nível de senioridade que já atingiu, tem os mesmos benefícios que os principais gestores da organização. "Mesmo não sendo de gestão, sou um líder técnico e ajudo outras pessoas que querem seguir esse caminho. Sendo um arquiteto de soluções, tenho tanta responsabilidade quanto um diretor de operações ou de marketing", revela.