Carreira de diplomata exige dedicação de estudantes; leia dicas
Carreira de diplomata exige dedicação de estudantes; leia dicas
Há quem ache o vestibular difícil. Trinta, cinquenta, cem pessoas por vaga nos cursos e faculdades mais disputados formam um cenário que exige no mínimo dedicação. E é isso que a os estudantes que pretendem ser diplomata enfrentam. Foi em 2009 que o gaúcho Estevan Bertagnolli, 24 anos, começou a se preparar para a carreira. Ainda estava na faculdade de Publicidade e Propaganda quando decidiu pelo caminho diplomático e, há mais de um ano, começou a estudar para o concurso com mais intensidade.
Bertagnolli não está sozinho nesse árduo caminho por uma vaga no Instituto Rio Branco, em Brasília, ligado ao Ministério de Relações Exteriores e única instituição no País que pode formar diplomatas. No ano anterior, foram 6 mil inscritos para apenas 115 vagas. Porém, apesar da concorrência, a turma que ingressou é até considerada grande para os padrões do Itamaraty, que costuma disponibilizar de 25 a 30 vagas por ano. "A agenda internacional cresceu bastante, então era necessário um quadro maior. Por isso, o Congresso Nacional aprovou 400 vagas para serem distribuídas em quatro anos", afirma Maria Célia Serra, proprietária do Grupo de Humanidades, escola que prepara alunos para o concurso no Rio de Janeiro.
Porém, o último ano de admissão dessas vagas extras foi em 2010, e agora os concorrentes terão que disputar os tradicionais 26 lugares. Elisiane Rossato, 32 anos, foi uma das que conseguiu ingressar ano passado no Instituto. "Me formei em Direito e não sabia o que eu queria fazer. Fiz mestrado em Integração Latino-americana, porque pensei em ser professora, mas não gostei de dar aulas", afirma a gaúcha, que hoje faz o curso que dura um ano e meio no Instituto e, desde agora, já ganha um salário de R$ 12.962,12.
Durante o primeiro ano, Elisiane tem aulas sobre conteúdos similares aos que aparecem na prova, porém com outro enfoque. "O curso do Instituto oferece uma visão mais prática, além de aprofundar outros temas, como a história da América Latina", diz. No terceiro e último semestre, há aulas pela manhã e estágio no Itamaraty à tarde. Depois, os ex-alunos ou trabalham no Ministério de Relações Exteriores ou podem ir ao exterior em locais de difícil alocação.
Da última turma, por exemplo, há quem hoje trabalhe no Paquistão. A diplomata conta que o mais comum é que os iniciantes comecem em postos D, que são países subdesenvolvidos e/ou em conflito, como Porto Príncipe, no Haiti. Depois, vão subindo de posto. "Um exemplo de posto A seria Washington, nos Estados Unidos; de posto B, Ottawa, no Canadá; e posto C, Bogotá, na Colômbia. Porém, a classificação não é fixa e muda de tempos em tempos em razão de alterações na situação do país", explica.
Para chegar até o Itamaraty, o percurso de Elisiane não foi fácil. "Eu estava formada há três anos, e estudei outros quatro até conseguir a vaga", afirma, mas ressalta que na sua turma há quem tenha recém terminado a faculdade. A vida da bacharel em Direito, durante esse período, foi voltada para o sonho de ser diplomata. "Morei dois anos no Rio de Janeiro, porque lá há bons cursos preparatórios. Depois me mudei para Brasília, que tinha ainda mais opções", conta. Outra questão era conciliar os estudos com o trabalho do marido, que é defensor público. "Só nos mudávamos quando ele conseguia vaga na cidade escolhida", completa.
Apesar de ser formada em Direito, Elisiane conta que a graduação não foi fundamental para se sair bem nos exames, que exigem conhecimentos de história brasileira e mundial, direito, economia, política internacional, geografia, português, inglês, francês, espanhol e redação, em questões objetivas e descritivas durante três fases de seleção. Isso porque a prova foca apenas a parte de direito internacional, o que algumas faculdades nem destacam no currículo. "Tive apenas uma disciplina sobre isso durante a graduação", recorda.
Na turma da gaúcha, há advogados, médicos, jornalistas e até dentistas e arquitetos. Maria Célia conta que teve até um aluno zoólogo que passou, já que basta ter um diploma de ensino superior para concorrer às vagas. Entretanto, Elisiane aconselha o curso de Relações Internacionais para quem pretende seguir a carreira. "A faculdade já ajuda muito, e a formação em RI é mais direcionada para isso, especialmente a graduação da Universidade de Brasília, em que muitos professores fazem parte da banca de avaliação da prova do Instituto Rio Branco", opina.
Na hora de se organizar para os estudos, não há receita. Bertagnolli, por exemplo, prefere estudar boa parte dos conteúdos sozinho, mas faz aulas particulares de inglês, espanhol e francês. Também está cursando disciplinas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), como aluno graduado, de economia e de direito internacional.
Confira as dicas da coordenadora do curso preparatório Grupo de Humanidades:
1 - Não basta estudar muito, tem que se debruçar sobre o conteúdo certo. "O concurso é bastante objetivo, e a banca segue uma determinada linha de ideias", conta Maria Célia. Assim, saber as dicas certas podem fazer a diferença.
2 - São tantos candidatos por vaga que não tem como passar sem muita disciplina nos estudos. Balada, para Maria Célia, não combina com quem estuda para entrar no Instituto Rio Branco. "Temos alunos que vêm à escola de segunda a sexta-feira e há até quem viaje de cidades próximas para cá aos sábados e passe o dia todo na escola", conta, sobre a rotina intensa de preparação.
3 - Durante a segunda fase do concurso, os candidatos devem fazer uma redação, o que não é uma habilidade de todos. "Eles costumam querer ler, ter aula, mas muitos não gostam de escrever", explica. Por não estarem familiarizados com dissertações, muitos não costumam treinar o suficiente. Os concorrentes devem fazer uma reflexão sobre o tema proposto, com argumentações, à mão e sem tempo para passar a limpo. "As pessoas atualmente não escrevem mais à caneta textos longos, só no computador. Então, a redação deve ser muito exercitada para que o aluno tenha um bom resultado", aconselha.