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Educação

Brasileiro negro aprovado em MBA do MIT vendia picolé na infância

Fundador do Instituto Four, que auxilia outros jovens a buscarem soluções para os problemas do País, Wellington tem talento para empreendedorismo e mira atuação política

5 mai 2021 15h10
| atualizado em 12/5/2021 às 00h31
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Desde pequeno Wellington Vitorino, de 26 anos, já ouvia da família que a mudança na sua realidade partiria da educação. "Em casa nunca faltou nada, mas também nunca sobrou", diz ele, ex-aluno de escola pública e um dos poucos brasileiros negros aprovados para cursar MBA no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, uma das mais prestigiadas universidade do mundo.

Nascido em Niterói, no Rio, ele morou grande parte da vida em São Gonçalo. Após cursar todas as séries em colégios públicos, no último ano do ensino médio recebeu bolsa de estudos em uma escola de elite da zona sul carioca. No vestibular, ele foi aprovado em todas as universidades e tirou nota mil na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O jovem optou pela bolsa integral do Programa Universidade para Todos (ProUni) no curso de Administração de Empresas no Ibmec, de olho em oportunidades de investir no empreendedorismo.

Com oito anos, Wellington ajudava o pai a vender produtos como ambulante na praia de Saquarema, região dos Lagos no Rio. Aos 12, iniciou um negócio de revenda de picolés. Em uma tarde quente, ofereceu o produto a policiais militares que além de comprarem todos os vinte picolés do garoto, autorizaram ele a vender dentro do Batalhão da Polícia Militar. Segundo Wellington, esta foi a primeira virada em sua vida.

Os picolés expandiram para um negócio de doces e ele abriu vinte e três pontos de venda de guloseimas pela cidade. Envolveu a família, contratou a tia e mais um freelancer para auxiliar nas entregas. Até os 17 anos, nunca abandonou o ponto de venda no batalhão. Também prestava contas de seus boletins ao coronel da instituição, que além de cobrar boas notas, conseguiu uma bolsa de 50% em uma escola particular de São Gonçalo. A outra metade Wellington insistiu em pagar com o lucro dos doces.

Em 2012, ao assistir uma palestra sobre negócios e carreira, mandou um e-mail ao palestrante contando sua história. Desta vez, ganhou uma bolsa integral de estudos para fazer o terceiro ano do ensino médio na Escola Parque. O início foi conturbado: notas baixas abalaram o rapaz, que acordava 4 horas da manhã para estar na escola às 7h. Ele chegava em casa só por volta das 20h e faltava tempo para estudar e compensar a defasagem entre a escola pública com o colégio privado.

"O início foi pesado, não tinha como comparar as escolas em que estudei. Até no que eu era melhor tive dificuldade", conta ele. "No 1º bimestre, fui reprovado em seis disciplinas". Porém, não desanimou. O jeito encontrado por uma ex-professora foi arranjar um local mais próximo da escola para o jovem ficar. Wellington passou a dormir na sala dos professores de uma escola pública no Leblon, perto da Escola Parque. O apoio da família, da professora e o sigilo da diretora e funcionárias da limpeza foi fundamental para manter o jovem por oito meses dormindo na escola.

ProLíder e Instituto Four

No Ibmec, ele se destacou como bolsista e monitor da instituição. Em 2015, participou de um processo seletivo na Fundação Estudar e foi um dos 24 selecionados entre mais de 60 mil candidatos. No fim do programa, ganhou o prêmio de bolsista do ano, entregue pelo fundador, o empresário e economista, Jorge Paulo Lemann.

Ao perceber a importância dos jovens na resolução de problemas do País, teve a ideia de criar o ProLíder, um meio de auxiliar e formar jovens lideranças no Brasil. "Sempre falo que, a cada passo que a gente dá na vida, e vai crescendo, precisamos levar outras pessoas conosco. Esse é um dos principais objetivos do ProLíder", destaca.

Da ideia do projeto também deriva o Instituto Four, organização sem fins lucrativos que seleciona, forma e desenvolve jovens líderes que pensam em maneiras de resolver desafios do Brasil. A organização é responsável pelo ProLíder, que formou mais de 200 lideranças para atuarem no meio público, político e empreendedor.

A busca pela diversidade também faz parte dos princípios do instituto. "Desde 2016, já falávamos de inclusão e diversidade de gênero, etnia, orientação sexual, classe social e principalmente pessoas de diferentes regiões do Brasil. Buscamos jovens fora dos eixos Sul e Sudeste", afirma. O ProLíder já teve jovens egressos que se tornaram prefeitos, vereadores, investidores, receberam prêmios no meio acadêmico e empresarial, além de dois aprovados na Universidade Harvard, também nos EUA.

O instituto também é o responsável pelo Four Summit, conferência que visa a debater as principais áreas estratégicas do Brasil, com foco em inovação e tecnologia. A 1ª edição, em 2019, reuniu cerca de 700 pessoas em dois dias de evento, com mais de 90 palestrantes entre empresários, políticos e lideranças jovens do país.

MIT e o futuro na política

O sonho em estudar no MIT vinha desde a graduação. Após viajar algumas vezes aos Estados Unidos para conhecer universidades americanas, financiado pela Fundação Educar e também por outros empresários, a vontade de cursar o MBA só aumentava. Tentou duas vezes e foi aprovado na segunda

Agora, o jovem está se preparando para a mudança a Boston. O plano é iniciar o curso, com duração de dois anos, ainda em agosto. O programa de MBA dá o título de mestre em negócios. Para a formação, Wellington vai se afastar por um tempo da diretoria executiva do Instituto Four, mas não pretende abandonar a instituição.

Ele também não descarta a possibilidade de se candidatar a cargos públicos. "Primeiro quero trabalhar e contribuir no ramo empresarial por vinte anos. E depois, sim, entrar na vida política. Almejo cargos como prefeito, governador e, quem sabe um dia, concorrer à presidência", diz.

"Políticas públicas são fundamentais para diminuir a desigualdade social no Brasil. Muitas delas são as responsáveis por quebrar o ciclo da pobreza em nosso País". Para os atuais governantes apontou a necessidade de investir nos mais novos. "O Brasil tem um bônus demográfico de ter muitos jovens, é necessário investir na juventude oportunizando estudo e trabalho a todos", conclui.

Estadão
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