Aos 11 anos, MC Soffia canta para espantar o preconceito

A cantora procura conhecer mais sobre a cultura negra e seus ícones para compor músicas

2 set 2015
07h58
atualizado às 08h25
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“África, onde tudo começou / África, onde está meu coração / África, com sua beleza e tradição / África, é pra você essa canção!”. A rima, que segue com a citação de nomes de grandes mulheres negras, como a escritora Carolina Maria de Jesus e Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares, é de autoria de MC Soffia. A menina de 11 anos desponta no cenário do hip hop nacional, ainda mais após o sucesso nas redes sociais de um vídeo da websérie Empoderadas , no Youtube. Nele, Soffia fala sobre racismo, hip hop e valorização da beleza negra. O vídeo conta com mais de 20 mil compartilhamentos no Facebook, muitos elogios e relatos de identificação.

Soffia concilia os shows com a escola e as brincadeiras
Soffia concilia os shows com a escola e as brincadeiras
Foto: Divulgação

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Ostentando o cabelo black power enfeitado com laço colorido, Soffia Gomes da Rocha Gregório Corrêa é supervaidosa. Na canção Menina Pretinha , Soffia exalta a beleza da criança negra e canta “você não é bonitinha, você é uma rainha”. A mãe, Kamilah Pimentel, 29, conta que fora dos palcos a filha também incentiva meninos e meninas a se aceitarem. “Isso é muito natural para ela. Como é uma criança, ela nem imagina a importância do seu exemplo”, diz.

Mãe e filha moram no Cohab Raposo Tavares, em São Paulo. Nascida em uma família de militantes do movimento negro, Soffia sempre participou ativamente de eventos culturais e shows de hip hop com Kamilah. Com quatro anos, a pequena começou a ter aulas de capoeira, depois se apaixonou pelo maracatu e, aos seis, participou de uma série de oficinas do mundo hip hop: breake, grafite, DJ e MC. “No final, eles tinham que criar uma rima e apresentar. Depois disso, ela começou a querer cantar essa rima nos eventos que a gente ia”, lembra a mãe, que convencia os organizadores a deixar a menina subir no palco. Soffia conta que uma das motivações para cantar veio do amigo MC Tum Tum, com quem já dividiu o palco algumas vezes.

A menina tinha sete anos no seu primeiro show, parte da programação do aniversário de São Paulo. “Tinha muita gente, mas foi normal. Agora sim que eu fico nervosa antes do show”, conta, e diz sentir falta de mais mulheres no hip hop. Entre as cantoras favoritas estão Beyoncé, Nicki Minaj, Jennifer Lopez, Karol Conka, Flora Matos e Tássia Reis.

Uma escola diferente
Parte da formação artística também veio da escola. Soffia já frequentava o Projeto Âncora, em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo, quando ele ainda oferecia somente atividades no contraturno. Agora, funciona em período integral e é gratuito. Além das disciplinas básicas, são oferecidas oficinas como circo, skate, música, natação e kart. No projeto, aluno e professor estipulam juntos um roteiro de pesquisa e estudos, sem lousas ou classes.

Kamilah é coordenadora das oficinas de hip hop da escola e fala com satisfação do método de ensino do Âncora. “Para mim é tudo novo e eu adoro. Eles estimulam o protagonismo da criança”. A mãe conta que o projeto possui grupos que discutem racismo, mas a filha não participa “por já estar bem engajada e por pesquisar sobre o assunto, prefere participar de outros grupos”.

Soffia é curiosa e adora a escola. A paixão pelo conhecimento se reflete nas músicas, quando fala em estudar ou então na pesquisa histórica que fez para escrever canções como África . Aliás, história é a disciplina favorita de Soffia, pela qual procura conhecer mais sobre a cultura negra e seus ícones, principalmente as mulheres. Ela conta que é amiga de todos na escola e que os colegas sabem que ela faz shows como MC - mas o ritmo preferido entre a garotada é o funk.

A menina sente falta de maior presença feminina no hip hop
A menina sente falta de maior presença feminina no hip hop
Foto: Divulgação

Ser criança
Kamilah, que também é produtora da MC Soffia, conta que nas últimas semanas a procura por shows aumentou bastante pela visibilidade que ela ganhou na internet. O que antes era concentrado em São Paulo, agora é nacional. Contudo, ela explica que há um cuidado para que os shows aconteçam nos finais de semana e não atrapalhem os horários da escola.

Ao contrário de muitas crianças da idade, Soffia não demonstra interesse em redes sociais e é a mãe quem gerencia suas páginas, divulgando fotos e vídeos de suas apresentações. “Eu aproveito que ela ainda é desligada para essas coisas. Falo para ela dos comentários positivos e que o pessoal tá curtindo, mas também converso para que o sucesso não suba à cabeça”, conta Kamilah.

Com auxílio da mãe e das avós, Soffia já compôs mais de quatro canções, que discutem o preconceito racial, sem deixar de lado a linguagem infantil. “Nós ajudamos, vendo se estão faltando frases para fechar a métrica da música e conferimos a rima. Mas a ideia e a letra é toda dela”, explica Kamilah. Atualmente, a MC está no processo de gravação de seis músicas, que devem ser lançadas até outubro. A mãe conta que ela é bem exigente e opina bastante para que tudo fique como ela imaginou.

Segundo Kamilah, fora dos palcos Soffia é tímida. Quando não está cantando, a pequena MC gosta de andar de skate, jogar taco e futebol.

Soffia se apresenta com as dançarinas Yara e Ymani
Soffia se apresenta com as dançarinas Yara e Ymani
Foto: Divulgação
Da esquerda para a direita: a mãe, Kamilah Pimentel, a avó Lúcia Makena, a tia Potira Caruana e MC Soffia
Da esquerda para a direita: a mãe, Kamilah Pimentel, a avó Lúcia Makena, a tia Potira Caruana e MC Soffia
Foto: Divulgação

 

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra

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